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É genial

maio 24, 2012

Geniais mesmo são aquelas pessoas que a gente conhece de tempos em tempos, formando uma rede pessoal de sentimentos bacanas, compondo um cenário de diversão e diversidade.

Meus avós maternos, por primeiro exemplo, são destas pessoas que se completam porque diferentes. Os dois construíram uma grande família, mas jamais se esqueceram de cuidar um do outro nos mais de 60 anos que estão casados, e isto é genial.

Tenho uma sobrinha que se aprofundou em literatura por conta própria, mesmo que ela afirme que eu seja um dos responsáveis, já que os livros exercem certo fascínio sobre mim. Mas há muita verdade no seguinte fato: os principais responsáveis pelas escolhas somos nós mesmos, e se ela gosta de literatura, de livros e afins, a sorte toda é dela, o que é, sem dúvidas, genial.

Os dois irmãos que nasceram antes de mim se encontram e conversam com a mesma tranquilidade desde que me entendo por gente. Tanto faz se os assuntos são sérios ou não, torna-se prazeroso assistir estas conversas coerentes e, inevitavelmente, interessantes – o que é sempre genial.

Ao refletir um pouco sobre mim, não deixo de pensar da mesma forma em meu pai e minha mãe. E se ele está presente, ela também está – mesmo que os anjos tenham buscado pessoalmente minha mãe alguns anos atrás. Sou o que sou por um bocado de trabalho deles, e outro tanto de mim se formou em função de todo o resto. Ainda assim, isto me parece surpreendentemente genial.

Quando me encontro com meus primos, distantes ou próximos, compreendo que certas ligações sociais vão além de laços de sangue e, não por acaso (ou, talvez, um pouco ao acaso), isto tem mais a ver com as oportunidades de estarmos nalgum convívio gentil, no qual a troca de experiências nos revela algo genial.

Alguns de meus melhores amigos e amigas tem características tão singulares que me parece absurdo alguém não perceber suas virtudes de imediato. Sempre digo que, provavelmente, eu não seria amigo de mim mesmo caso pudesse me conhecer sendo outra pessoa. Entretanto, certamente faria os mesmos amigos e amigas que conquistei (e que me conquistaram) não importa o tempo nem o espaço. Tenho amigas que investigam as coisas e nos revelam o que nos é necessário; tenho amigos questionadores que fazem da crítica (das pessoas, da história, do mundo) algo mais que um mero aborrecimento; e como há gente genial.

Mas genial mesmo é viver um pouquinho que seja ao lado de cada uma destas pessoas que compõem minha própria rede sentimental. Todas estas personagens reais e geniais merecem este pequeno tributo e muito, muito mais.

Sobre o ombro de vocês

maio 3, 2012

Quando o Caderno Plural do Notícias do Dia ganhou cronistas fixos, no final de abril de 2008, ganhei também a sua companhia semanal. Desde a primeira crônica, publicada em 01 de maio daquele ano, uma quinta-feira como hoje, foram muitas palavras que se aproximam de quase 200 textos. Começamos, eu e os outros cronistas, com 1.500 caracteres, passamos para 2.000 e estamos atualmente com aproximados 2.500. Você aí que nos lê deve se perguntar se isto é muito, se é pouco ou, ainda, se é o suficiente. Pois eu lhe digo que as ideias não se preocupam com espaço e assim também o é para com as crônicas.

Aos que tiverem a oportunidade de ler esta crônica no jornal impresso, desejo que o sujar das mãos tenha valido a pena. Numa era em que a internet, tablets, celulares e afins deixam tudo literalmente ao alcance do toque – e aqui a expressão “mundo digital” faz um necessário duplo sentido –, é interessante termos contato ainda com este tempo antigo que vem desde as inscrições rupestres (verdadeiras crônicas da pré-história). Depois disso, passamos pela prensa de Gutemberg e atualmente estamos sob a égide dos processadores eletrônicos, como o que me ajudou a digitar estas palavras. Mas aqui, nesta página do jornal, tudo permanece igual, sendo também possível a diversão neste meio de comunicação. A crônica, entre tantas notícias sobre crimes, corrupção e guerras, é um pedacinho divertido num mar de seriedade.

Este espaço crônico revela algo sutil de um tempo presente. O escritor é aquele que lida com as palavras, seja um romancista, um jornalista, um cronista ou outro alguém comprometido com o texto. Ficção ou realidade, talvez tudo seja essencialmente literatura e, por isso mesmo, estamos todos, autores e leitores, ligados por algo imaterial e necessário chamado conhecimento – este espírito que viaja através do tempo acompanhando os nossos passos na história.

Ao ler Um Conto de Natal, obra do inglês Charles Dickens sobre um velho homem sem coração que se encontra com o fantasma de seu antigo sócio e reavalia tudo o que realizou em seus dias, uma frase em especial me chamou a atenção. Dizia o texto, quando do encontro entre Scrooge (o sem coração) e Marley (o fantasma), que o visitante de outro mundo estava “tão perto dele quanto estou, em espírito, sobre o ombro de vocês, neste momento”. A frase é genial porque coloca um laço entre o autor (Dickens, outrora / este cronista, agora) e seus leitores. E a comunicação humana não é nada mais do que um laço firmado entre pessoas, comungando o conhecimento a favor de nós mesmos. Eis o que procurei em fazer nestes quatro anos sobre o ombro de vocês.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 03/05/2012.

> Obs: o mesmo agradecimento vale para quem ler esta crônica aqui neste Blog.

Longa curva vermelha

abril 19, 2012

Acordou com uma grande algazarra popular. Não sabia exatamente o motivo, mas percebeu logo do que se tratava: mais uma crucificação. A gritaria, enfim, passou pela frente do pequeno jardim que cultivava em Jerusalé e pôde ver um homem jovem, de rosto belo, mas machucado por alguma punição recente, carregar uma cruz enquanto os soldados o açoitavam! Antes de deixar o local, ele a olhou com os olhos manchados de sangue e poderia jurar que conseguiu ouvi-lo dizer “você viverá por muito tempo”. Assim que a multidão passou, um estranho ser foi conversar com ela.

- Eu sou o anjo caído e ofereço a você melhor destino do que aquele belo rapaz que passou por aqui há pouco terá. Ele morrerá pelos outros, enquanto você viverá enquanto o mundo for mundo. Eu fico com sua alma, você com a liberdade da vida. Que me diz?

Assim que aceitou, o anjo lhe beijou o pescoço e cravou os dentes afiados em sua jugular. Claro que as consequências mais cruéis ela só veio a saber depois: nunca mais poderia ver a luz do dia e estava condenada a percorrer uma longa curva vermelha através dos anos, bebendo sangue para continuar imortal.

Que bagunça!, ela exclamou ao passar pelo tumultuado centro de Ravena. Morava há alguns anos na capital do Império Romano, mas não se adaptara àquela agitação toda. E qual não fora a sua surpresa ao ver no meio daquela bagunça o outrora o imperador Rômulo Augusto vestido de camponês, feito prisioneiro por Odoacro. Séculos mais tarde, soube o quão importante aquele momento significava!

Por sua condição única, preferia viver nos grandes centros para não despertar especial atenção. Morava em Ruão, na França, num período em que a cidade era controlada pelos ingleses. E ficou chateada quando viu uma jovem com um rosto carismático, a pele alva e os cabelos levemente loiros ser levada presa pelos ingleses. A jovem fora acusada de heresia e assassinato, sendo condenada a arder publicamente nas chamas de uma fogueira na Praça do Velho Mercado. Séculos depois, leu no jornal sobre a canonização daquela linda francesa loura pelo Papa Bento XV.

Quando acordou à noite, em Nova Iorque, soube que as Torres Gêmeas, um local onde ela costumava realizar passeios noturnos à procura de sangue fresco, foram ao chão quando dois aviões explodiram num atentado que chocou o mundo. E caminhando pelos destroços do local sob a luz da lua, indagou a si mesma se a longa curva vermelha era só dela e, ainda, se não haveria mais pessoas desalmadas que também estiveram em contato com o anjo caído.

 > Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 19/04/2012.

Gritar para quê?

abril 8, 2012

Perdoem-me os gritões, mas falar baixo é fundamental. Aprendizado que trago desde muito pequeno mostra que aqueles que gritam para se fazer entender, em algum momento, perderam a razão e tentam convencer na marra. Mas, sinceramente, creio que os exaltados não convencem nem a si mesmos e tentam, como último recurso, ganhar na forma e não no conteúdo! Ironicamente, podemos afirmar que os gritões são uns parnasianos! Claro que pode ser difícil imaginar o Olavo Bilac, nosso mais importante poeta parnasiano, vociferando versos nalgum sarau ou mesmo dando de dedo noutro membro da Academia Brasileira de Letras – entidade que ajudou a criar. E façamos a ressalva de que, ao menos, os adeptos ao parnasianismo (talvez inspirados pela antiguidade clássica) tinham algum talento digno de nota.

Quando uma conversa descamba para o exagero ou mesmo quando as coisas mais triviais passam a ganhar importância tão somente pela entonação do locutor, aí é preciso acender a luz vermelha indicando “atenção, perigo”! Minha dica para evitar essas ocasiões quase sempre inconvenientes é deixar o recinto para que a pessoa em questão fique sozinha sentindo a ridicularidade da situação.

Dos mistérios que se escondem neste espaço que habitamos entre o céu e a terra, creio que um dos mais interessantes e divertidos seja o eco (o eco, o eco…). Porque mais do mesmo, o eco é a resposta mais direta e obsequiosa para aquele que o originou. Ao nos ouvirmos com algum atraso, a relatividade das coisas cai em nossas consciências como aquela maçã do Isaac Newton – se bem que os resultados possam ser relativamente distintos. E por falar em Newton sua terceira Lei muito nos convém quando analisamos o eco: “A toda ação há sempre oposta uma reação igual (…)”. Dito e feito ou, melhor ainda, dito e ouvido com aquela demora de sempre; e o que volta com o eco é a incapacidade que temos de escutar outrem.

Parece ser evidente, mas pelo jeito não é: o grande orador foi, é e sempre será aquele que melhor escutar o que se lhe apresenta. No momento do grito, aquele que o faz não pode ouvir o outro ou qualquer coisa além. Gritar é esmurrar a própria vaidade. Quando assisto a estes programas de televisão nos quais os apresentadores (religiosos, políticos, esportivos, etc) se esbaldam em gritos, gestos e demais excessos físico-verbais, lembro-me daquele aprendizado infantil e percebo que é muito melhor ler um livro do que perder u tempo com estas figuras histriônicas. Gritar para quê?, pergunto-lhes em voz baixa.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 05/04/2012.

Esta poeira toda

março 22, 2012

Você, como eu, nalguma oportunidade já limpou a poeira que aparece não sei como e torna a aparecer sem que saibamos o porquê. E, tendo feito isto, com uma vassoura ou uma flanela ou outra coisa qualquer, poucas vezes nos damos com a mais ínfima e íntima substância que nos acompanha desde sempre, quando o tempo (veja só!) era tão somente uma ampulheta sem nome e a humanidade engatinhava na trajetória evolutiva.

Para evolucionistas ou criacionistas a poeira tem seu espaço – com o perdão da brincadeira. Enquanto os seguidores de Darwin apontam que todos somos poeiras de estrelas, oriundas dos grandes choques do cosmos que geraram as galáxias e tudo o que nelas existe, aqueles tementes à fé religiosa (com seu Criador soberano) decretam que do pó viemos e ao pó retornaremos. Um ou outro, cientista ou religioso, estão unidos pela essencialidade que se esconde num punhado de pó.

Você então se questionará: em qual dos grupos este autor se encaixa? Mas isso pouco importa. Aliás, importa menos que a poeira que você limpou antes de ler este texto. Mesmo os cientistas, ainda algumas décadas passadas, apenas tiravam a poeira de seus móveis enquanto estudavam outras coisas. Foi apenas a partir da segunda metade do século XX que esta turma voltou seus olhos para um assunto tão elementar. Desde então, sabe-se que a poeira circula constantemente ao redor do nosso planeta, contribuindo com a natureza em vários aspectos – dos oceanos às florestas. Estima-se que a Terra libere mais de 2 bilhões de toneladas de poeira por ano! Isso nos faz questionar que, por vezes, estamos pisando no solo de outro país sem sair de casa. Assim, a impune poeira dá uma lição nos governos que insistentemente colocam fronteiras num mundo feito para todo mundo – novamente, perdoem-me o sincretismo.

Longe de mim provocar em você uma exagerada valorização de qualquer poeirinha que estiver por aí. Pelo contrário, é fundamental tirar o excesso de pó que teima em nos fazer companhia. E comento isso com a experiência própria de um alguém que sofre com rinite e sinusite. Nosso nariz é um elemento indispensável quando se sabe desta poeira toda. Minha intenção é não mais que realizar um simples exercício mental, indagando sobre nossa presença – minha, sua e dos outros – aqui neste paraíso que, segundo desconfio, foi a única casa daquele belo casal feito de poeira chamado Adão e Eva. E ambos (assim como nós nalgum dia) também são a mesma poeira de estrelas que, inadvertidamente, limpamos com uma vassoura, uma flanela ou outra coisa qualquer.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 22/03/2012.

Imperfeição

março 8, 2012

Convenhamos, você e eu, que todo pensamento, em essência, é não mais que imperfeito. E isso devido a uma relação intrínseca ao ato de ler/escrever. Afinal, todo texto é literatura e toda literatura é sobre aquilo que não se sabe, que não se tem certeza. O termo literatura advém de littera – letra, em latim – e são as letras que formam as palavras, mesmo que a escrita tenha surgido depois das primeiras línguas humanas. Resumindo tamanho quiproquó literário, pensamos por palavras e, portanto, nossos pensamentos são imperfeitos.

Naturalmente, há três tipos de ideias fundamentais que ora dão as caras na história da humanidade. Do primeiro tipo, temos aquelas que logo se difundem e se tornam de domínio público – sem dar margens às questões de Copyright. Numa segunda linha, outras são deixadas de lado, ressurgindo de tempos em tempos com nova roupagem. Por último e não menos importante, aparecem as ideias cruciais, cuja simples menção causa furor nas elites e, portanto, possuem vida pública curta, permanecendo na marginalidade do pensamento global.

A medida de todas as coisas é o conjunto de suas relações sociais. Cada nuance do dia a dia histórico apresenta-se inerente à continuidade do tempo. Numa primeira e ligeira passagem de olhos, a História é nada mais que um amontoado de datas que marcam grandes episódios.

Invariavelmente ou não, variações de um mesmo modelo sempre causam incongruências quando de sua realização. O desmantelamento de estruturas sociais é feito sem medida e de forma desregrada pelos órgãos governamentais. Preocupações estéticas, culturais, sociológicas são esquecidas, coladas num canto qualquer da parede quando o patrimônio público é deixado nas mãos político-empreendedoras que ora sim, ora também conduzem o Estado. No macro e no micro a ordem é a mesma, ainda que sejam salvaguardadas as devidas proporções.

Nesta “polis” de Floriano, outrora Meiembipe ou Ilha dos Patos, não há sombras de dúvidas que a província ainda permanece no imaginário coletivo. A miudeza de pensamentos atravessa o tempo, mas o passado é remodelado ao bel prazer das autoridades.

Há muita imperfeição espalhada por aí, sabemo-los todos. Entrementes, sobejam ideias para possíveis debates cuja participação da sociedade, organizada ou não, é imprescindível. Exulta-nos uma obra realizada com senso de responsabilidade social, mas fustiga-nos quando a proposta é executar tudo a toque de caixa, sem quaisquer planejamentos ou respeito para com os munícipes.

Queremos, pois, que as imperfeições do sejam assumidas para que, enfim, possamos caminhar rumo à perfeição.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 08/03/2012.

Quebra pau

fevereiro 23, 2012

Tenho comigo que 98% das pessoas que brigam fisicamente são exemplos evidentes da imbecilidade humana. Os que ficam de fora tentam evitar a guerra com outra guerra. Isto me lembra do Benvólio, primo daquele Romeu casado com aquela Julieta, nobre da família dos Montéquios que, armado, tentava apartar uma contenda com os rivais Capuletos, no que era caçoado por Tebaldo, primo de Julieta: “Falas de paz com a espada em punho?”, ou seja, a explicação de uma briga não tem qualquer razão válida, nem mesmo a paz.

O fato é que as pessoas brigam porque não se esforçam para encontrar um bom argumento. É, evidentemente, muito mais fácil para os avantajados fisicamente entrar num típico quebra pau, como estes conflitos são definidos pela linguagem popular, do que pensar numa boa resposta ou, mais importante ainda, num bom questionamento. Acho geniais aqueles momentos nos quais as palavras têm mais impacto do que um boxeador acertando em cheio seu melhor Uppercut (soco no queixo dado de baixo para cima). Mas estas situações são raras.

Quando as brigas têm por cerne a disputa limpa e justa, como convém a qualquer esporte, é claro que a regra dos 98% não se aplica. Afinal, cada um sabe de si e como quer utilizar o seu corpo. Entretanto, repudio aqui a bem chamada violência gratuita: o irresponsável apetite humano pelo conflito que só o leva aos lugares destinados para os grandes idiotas. Quando vejo duas pessoas ou mais desferindo golpes, quase sempre os imagino longe dos prazeres culturais. Não acredito que um destes ignóbeis briguentos possa ser íntimo das artes. E não se trata de preconceito meu para com lutadores e seus similares. Pelo contrário. Historicamente, tivemos guerreiros, militares e afins tão bem educados quanto os maiores pensadores de seu tempo. Alexandre, o Grande, que o diga. O lendário rei da Macedônia foi instruído pelo filósofo Aristóteles e, ainda assim, era um conquistador que liderava seu exército no campo de batalha, sendo que ele mesmo entrava nas brigas que lhe deram um dos maiores impérios de todos os tempos. Eis que mesmo os intelectuais podem ser idiotas o suficiente para sair no braço com aqueles que lhes sejam contrários. Mas os amantes das artes, ah, estes não entendem como as pessoas podem ter tempo para brigar com tantas coisas interessantes no mundo.

Por fim, só posso compreender estes brigões como sujeitos mal humorados. Porque eles não riem de nada acabam esmurrando a si mesmos quando brigam e o sangue em suas mãos será tão deles quanto de seus adversários. É quando o idiota sai vencedor.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 23/02/2012.

Faltar luz, sobrar ideias

fevereiro 16, 2012

Foi num apagão destes que acontecem vez por outra em nossas residências que a ideia me surgiu. Uma ideia sobre ter ideias, de fato. Algo assim não muito valioso como a teoria da relatividade ou a física quântica, mas suficiente a ponto de provocar esta crônica.

Causa e consequência: o apagão que nos deixa sem luz pode, simultaneamente, iluminar a mente, clareando os pensamentos que instigam ainda mais nossa imaginação. Pense cá comigo no que você faria quando da ausência de energia elétrica. Nesta noite de verão, além de passar um bocado de calor por conta do ar condicionado desligado, você também teria a chance de recorrer aos objetos mais simples, como um livro (que pode ser lido à luz de velas) ou mesmo um simplório rádio a pilha (caso a emissora não estivesse às escuras feito você). Sim, tais pequenos elementos tão presentes em nossas vidas – afinal, livros e velas necessariamente deveriam fazer parte de qualquer casa – permitem-nos enxergar para além dos olhos.

Com o rádio ao seu lado, tendo ao redor a escuridão, você fará elucubrações outras que costumeiramente sem perdem na claridade. Indagará a si mesmo sobre como será a fisionomia do/da locutor/a, qual será o sentimento específico que chamou a atenção do compositor daquela música… e, ainda que você esteja sozinho, terá por certo uma interessante companhia que, se não pode lhe ouvir, ao menos lhe permite sonhar acordado/da. Já com o livro a história é mais ou menos parecida, ainda que mais visceral. Creio que as intenções literárias só tenham paralelo com as intenções cinematográficas. A história de um livro ou gravada num filme propiciam sensações semelhantes até mesmo nas suas mais básicas diferenças. Mas como a energia não pode ser usada e a imagem em movimento depende essencialmente daquela, ficamos com as páginas dos livros e com o universo literário por nossos companheiros desta noite quente. Linha por linha, palavra por palavra, seremos iluminados por qualquer coisa tão estrondosa que chamar a literatura de arte é apenas uma ideia restritiva. E, nesta noite, abundam ideias na mesma medida em que a luz falta.

E, no dia seguinte, antes fechar a porta de casa para ir trabalhar, você conversa com seu vizinho sobre o apagão, quando ele lhe pergunta se na sua casa também faltou luz.

Sem titubear, você responde:

- Na verdade, sobraram ideias.

O vizinho ficará sem entender sua resposta, mas no próximo apagão, talvez, também será a vez dele de fazer algo mais do que apenas suar com o ar condicionado desligado.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 16/02/2012.

Carta aberta para uma sobrinha

fevereiro 10, 2012

Em algum momento, sempre, paramos o que estivermos fazendo e olhamos para trás, não com aquela saudade que todos carregamos, mas tentando entender como chegamos até aqui, quais nossos erros e acertos ao longo do caminho, quais as desculpas inventadas e as culpas assumidas em nossa própria história e nas histórias daqueles que nos rodeiam.

Foi pensando em algumas questões soltas como estas que tive a ideia, a vontade e, por fim, a necessidade de escrever esta carta aberta para minha sobrinha, mas que pode ser também um exercício de análise pessoal, feito uma anotação num diário que escrevemos para nós mesmos.

Por isso, sobrinha, entenda estas palavras não como conselhos ou sugestões de alguém que é um pouco mais velho que você. Tenho comigo que o conhecimento só é adquirido quando compartilhado espontaneamente, e não forçando a barra feito aqueles manuais chatos ou livros de autoajuda que explicam o que já estamos cansados de saber.

Do que me orgulho ainda hoje não são os grandes feitos, uma odisséia pós-moderna ou um desmesurado enaltecimento por qualquer coisa que tenha chamado a atenção. Pelo contrário, guardo comigo bem junto ao peito os sorrisos que dividi com minha mãe e meu pai, as conversas longas e prazerosas com meus avós e irmãos, os minúsculos e divertidos encontros com amigos, familiares e pessoas a quem desejo o bem.

Com meus parcos saberes adquiridos nestes trinta anos de existência, procuro não pensar demasiadamente nas faltas que cometi, porque muitas nem mesmo foram intencionais. Ainda assim, as desventuras são partes importantes de um todo complexo e incompleto. Mesmo aquilo que pareceu menos relevante à época acaba tenho alguma influência no tempo presente.

Do que mais gostei de aprender foi o respeito das pessoas para comigo e na troca que pude e posso oferecer. O respeito é universal, porque ele vem de qualquer direção, não distingue o novo do velho, o feio do belo, o rico do pobre, o bom do ruim. Ah, e como ele faz bem para a alma!, isso eu posso te garantir.

Minha cara sobrinha, olhe a sua volta e veja quantas coisas a sua geração conquistou que a minha sequer sonhava. O bom da história é que o tempo não se prende ao passado. Estamos numa marcha para frente, ao menos até que alguém prove o contrário. E você também, sobrinha, um dia fará as mesmas perguntas que eu faço agora. As respostas, provalvemente, serão outras, mas, então, você abrirá um sorriso no rosto como eu faço agora, sentindo uma sensação de felicidade que nenhuma outra pessoa poderá compreender.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 09/02/2012.

Alfabeto

janeiro 26, 2012

Ainda que eu quisesse escrever uma crônica sobre o alfabeto, dificilmente executaria tal manifesto sem alguma omissão ou intromissão.

Bem que eu gostaria de assumir o peso desta carga sobre apenas meus próprios ombros, mas não é assim tão simples.

Crônicas, ressaltamos uns, às vezes como que surgem sem noção ou explicação.

De tempos em tempos, o cronista se dá ao direito de um ou outro exagero, uma ideia que lhe perturba a ponto de tornar-se texto.

Escrever é uma ação reativa, pois sempre temos motivos mesmo que os nossos motivos sejam a falta de um motivo.

Felizes, pois, são todos aqueles que escrevem sem ter por onde, teclando contextos como quem anda de bicicleta.

Gravam suas memórias no papel ou apenas contam uma aventura qualquer, com ou sem personagens.

Histórias são fenômenos sociais autosucificentes e, o cronista, é um historiador descompromissado.

Interessado nos detalhes, o autor de crônicas pouco sabe antes que as palavras tomam corpo.

Jogando vocábulos, brincando com verbos e versos, cada um escolhe um ponto de vista.

Kant, o filósofo, ressaltava que “eu não sou outro”, e assim o mundo que me cabe é apenas o que sinto.

Longe de mim, no entanto, isentar-me de responsabilidades e passar por um cidadão despreocupado.

Mesmo nesta crônica, que vai passando da metade, toda a culpa está no autor e em como ele (ou eu) percebeu os outros.

Não quero com estas palavras apontar um caminho, sugerir verdades ou desmistificar a velha moral da história.

Outros argumentariam muito melhor do que eu, utilizando-se, talvez, de menos palavras e mais ações.

Porém, valho-me deste espaço crônico com a melhor das intenções e com o sentimento mais franco que posso ter.

Quando a crônica deixa um ou dois ou mais leitores felizes, a satisfação do cronista não tem a ver com vaidade.

Rimos, sim, do sabor que deixamos noutras pessoas que, atendendo aquela curiosidade inata dos humanos, deram com tais mal traçadas.

Somos suspeitos quando falamos de nós mesmos, é notório, e por isso permanecemos com a pulga atrás da orelha quando aparentamos ser os donos da verdade.

Trazemos tudo o que conseguimos carregar no ajuntamento de letras que podem ou não fazer qualquer sentido.

Uma crônica ou uma poesia ou um romance ou tudo aquilo que advém da escrita é, assim mesmo, sua autoexplicação.

Voltamos sempre ao início quando damos uma volta completa e assim também ocorre com o alfabeto.

Xingam-nos aqueles mais exaltados que leram toda esta crônica e, por fim, descobriram que seu final era apenas um recomeço.

Zeramos os contadores e nos preparamos para outra crônica.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 26/01/2012.

Além da Paris de Allen

janeiro 19, 2012

Paris é uma cidade como qualquer outra e, de alguma forma, ainda que sem querer, Woody Allen acaba por corroborar tal assertiva em sua primeira produção totalmente gravada na capital francesa: Meia Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011).

À primeira vista, a película exalta aquela aura cultural que ao longo dos séculos XIX, XX e XXI foi construída em volta da cidade. E, por qualquer razão que a razão desconhece, parece que a cidade ganhou vida para além das pessoas, como convalida Gil Pender (vivo por um improvável Owen Wilson), espécie de alter ego do diretor/roteirista Allen. Entretanto, a história apresenta uma sugestão contrária a sua própria proposta: são as pessoas, não o local em si, as responsáveis pela Paris que todos querem conhecer. Inevitavelmente, claro, as construções humanas e a natureza cumprem sua parte no afamado charme que convém à cidade. De tal medida, eis que o Louvre, a Torre Eiffel, o rio Sena, e tantos outros locais atraem turistas aos borbotões, bem como atraem artistas de toda sorte – caso de Woody Allen e de sua criação Gil Pender. A personagem, um escritor de roteiros estadunidense, chega em Paris como um turista, mas apaixona-se pelo local de tal forma que anseia por se mudar com sua noiva e aproveitar ao máximo essas sublimações locais.

A genialidade de Allen entra, porém, quando o roteirista Pender, embriagado pela noite e por algumas taças de vinho, embarca à meia noite numa viagem temporal ao lado de figuras históricas como o casal F. Scott e Zelda Fitzgerald, o escritor Ernest Hemingway, o músico Cole Porter, os pintores Pablo Picasso e Salvador Dalí, entre outras personalidades que estiveram por Paris nos anos 1920. Não por acaso, a década em questão causa fascinação em Gil, causando-lhe aquela nostalgia de um tempo não vivido – tema instigado pela história de Allen e que traduz um sentimento tão presente na vida de boa parte dos artistas. Sua tese é de que todos sempre gostariam de ter nascido noutra época, na qual a cultura era mais relevante, as discussões eram profundas e as pessoas intelectualmente (e, por que não?, fisicamente, insinua Allen) mais interessantes. Assim, para além da Paris de Allen, temos uma piada não intencional sobre a própria cidade: um lugar como qualquer outro, mas que cedeu espaço para algumas das pessoas mais envolventes que a cultura mundial já produziu. Paris é, por excelência, uma festa que sempre precisou de um público cativo e cativante.

Após os anos 2000, Woody Allen encontrou na Europa um novo mundo para seus filmes. E Meia Noite em Paris é seu tributo ao velho continente – e, também, às pessoas que nele viveram.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 19/01/2012.

Ciência da alma

janeiro 12, 2012

Eu acredito na ciência tanto quanto a ciência acredita em mim. Sou fã das teorias, mesmo aquelas não provadas. Quero ter o apoio de tudo aquilo que é matéria mesmo quando eu e os meus próximos voltarmos ao pó. E não darei adeus para um pensamento quando outro aparecer; eis um caminho aberto para a ciência vir completar a fé – afinal, o desconhecido está presente igualmente para o religioso e o cientista. Então, podemos supor que o cético é aquele que ainda não passou por certas experiências e nem se deixou levar por uma verdade que parece não fazer sentido. E, na maioria das vezes, não faz sentido algum.

O que se esconde na natureza, sob ou acima de nós, é a força motriz de nossa espécie. Como os outros bichos, somos curiosos, mas fomos além ao supor que poderíamos explicar um princípio tão vago quanto a existência – da vida, dos objetos, das ideias. Se nos afastássemos alguns anos luz deste nosso grande lar e olhássemos ao lado das estrelas para o planetinha azul que deveria se chamar “Mar” e não “Terra”, qualquer coisa que por ventura acontecesse debaixo dessa camada gasosa que nos protege chamada atmosfera pareceria não ter qualquer relevância no lento caminhar do cosmos. Entretanto, o que seria motivo para alguma frustração intelectual é precisamente aquilo que faz da história terrestre uma aventura tão singular.

E a consciência (espécie de ciência da alma!?) é quem orienta os passos desta marcha intra-planetária que todos os seres vivos obedecem. Porque temos alguma ciência de nosso próprio tempo também nos convém assumir a culpa pelo que o mundo se tornou. Começamos não se sabe como, fomos atrás da sobrevivência, firmamos laços de sangue, juntamo-nos em grupos, desenvolvemos sistemas de controle e, então, tornamo-nos sujeitos de nossa espécie naquilo que pode ser considerado a existência mais anti-natural que a natureza foi capaz de criar. Por tudo isso, somos responsáveis e procuramos algo que possa restabelecer o que foi perdido, religando-nos com o passado, com a criação, como sugerem as religiões.

Eu acredito na não-conformidade – aquela pulga atrás da orelha que está presente em todas as viagens dos descobrimentos, sejam estas realizadas através de naus ou caravelas, de lendas ou fatos, de computadores ou livros.

O conhecimento está para mim assim como a ciência está para a matéria. E, do Universo ao único verso do poeta, tudo pode acontecer: mundos hão de colidir, estrelas brilharão em explosões galáticas, ondas continuarão a trazer as conchas para a praia enquanto uma criança, curiosa, fará buracos na areia.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 12/01/2012.

Uma Ilha para além de 2012

janeiro 5, 2012

Vou ser franco com você: não acredito no fim do mundo, pois as forças que regem o universo não teriam coragem de destruir lugares assim como Florianópolis. Pode parecer um orgulho ilhéu desmesurado, mas não o é. Sempre fui contra bairrismos e, particularmente, também não vejo mais lógica nas fronteiras quando o ir e vir está determinado pela conta bancária e/ou a capacidade de pagar as prestações de uma viagem qualquer. E, além do mais, de certa forma e sem muitas ambições motivadas por vaidades que não levam a nada, tudo o que precisamos está bem na nossa frente ou do nosso lado.

Esta Ilha que tanto nos cativa tem de estar imune ao fim do mundo por razões que não poderemos explicar com palavras crônicas ou imagens icônicas. Não adianta buscar a compreensão da não finitude destas praias recortadas, morros e lagoas apenas com a música faceira de um poeta ou o olhar sensível da velha rendeira tradicional. Aceitar que a Ilha resistirá aos eventos cataclísmicos que, segundo os Maias, terão vez em 2012, vai além de uma questão de fé.

Já morei tanto na parte insular quanto na área continental de Florianópolis, e se cito mais a Ilha em minhas crônicas é apenas por uma afeição conquistada na infância, com aventuras possíveis de uma criança pelas ruas e terrenos baldios (hoje já escassos) de um lugar chamado Parque São Jorge. Com suas avenidas e ruas ausentes de prédios e repletas de casas, aprendi a ver o mundo do meu jeito: espécie de universo reduzido, sem muitas dicotomias, é bem verdade, mas ainda assim tão vasto em particularidades quanto a imaginação infantil pode ser. E no Parque pude presenciar casas de amigos ou conhecidos alagadas pelas chuvas fortes das estações quentes. O pequeno córrego que corta o bairro não era capaz de dar vazão às águas trazidas sem culpa pelas nuvens e pelos ventos. Mas todos resistimos àquelas épocas sem graça como também suportaremos os dias lúgubres que as previsões mais desanimadoras para este ano possam corroborar.

Em algum momento, no entanto, e desdizendo a tudo que os parágrafos anteriores insistiram em afirmar, o universo chegará ao seu limite de expansão e nem mesmo um planetinha azul e bonito como o nosso terá vez na entropia de um big bang reverso. Mas se existir um lugar além da matéria, capaz de absorver tudo aquilo que não se traduz fisicamente, teremos a certeza final que Florianópolis existirá para sempre em nossos corações, como o pedacinho de terra que aprendemos a gostar.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 05/01/2012.

O amor verdadeiro dos mentirosos

dezembro 31, 2011
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Foi por causa de uma mentirinha à toa que se conheceram. Estavam num destes eventos culturais nos quais vão as mesmas pessoas de sempre. Poderia ser uma vernissage ou um lançamento de um livro, mas pouco importava – a maioria só estava lá para aparecer… e pelo coquetel.
Quando ela esbarrou nele propositadamente sem querer, a faísca acendeu. Claro que o fogo ainda era brando, mas logo esquentou quando ele foi buscar duas taças de vinho.
- Obrigada, ela disse.
- Ah, você também quer uma?, brincou ele.
E riram. Nesse momento, a mentirinha apareceu ao ser perguntado sobre sua profissão.
- Sou escritor, respondeu sem hesitar.
Mas não era. Desde pequeno odiava as aulas de português – era mais inclinado à matemática do que à gramática. Mesmo assim, expressava muito bem verbalmente. Prestava muito atenção na pronúncia das palavras e, quando ficava em dúvida, usava outra para substituir a intenção original.
Mentiu, porém, para impressioná-la. Era um adepto dos esportes, mas vez por outra curtia uma atividade cultural, como assistir um filme ou apreciar um show musical. Gostava de pessoas interessantes – ainda que, nesses lugares, aparecessem muitas pessoas interesseiras.
De volta à conversa e sem mais digressões, o garçom escutou o diálogo entre ambos quando deixava uns aperitivos de camarão.
- E no que você está trabalhando atualmente?, perguntou curiosa. Uma história de amor?
- Mais ou menos. Meu interesse no amor é um tanto quanto antropológico. O romantismo é muito exaltado na nossa sociedade, mas acredito que tem muito mais em jogo.
- Então se apaixonar é como disputar uma partida qualquer?
- De certo modo, sim. E todo mundo quer vencer, por isso acontecem tantos problemas.
- Hum, interessante. E o livro tem nome?
É claro que não havia nome nenhum, pois sequer havia escrito qualquer coisa com mais de duas páginas em toda a sua vida. Tudo o que acabara de dizer para ela eram coisas que assistira em programas de TV por assinatura – naquelas épocas em que os canais de esporte só reprisam jogos antigos.
Pegou um aperitivo de camarão e, enquanto o mastigava, pôde pensar num título.
- O verdadeiro livro do amor dos mentirosos. É assim que eu o chamo.
Ela sorriu. Havia gostado do que ouvira, pois finalmente conhecera um homem honesto que falava com sinceridade sobre os relacionamentos amorosos e o que se poderia esperar deles.
- Podemos ir para sua casa? Ela perguntou.
- Claro, acho que temos muito para nos conhecer.
- Com certeza. E em primeiro lugar eu queria conhecer o seu livro.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 29/12/2011.

Paixão doidivanas

dezembro 22, 2011

Foi sem querer quando os dois ficaram juntos na primeira loucura. Ele voava de asa-delta e ela esquiava nas águas quentes da Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Henrique, já com seus vinte e tantos anos, encantou-se pela garota que lhe acenara com as duas mãos antes de cair na água. Ele estava prestes a pousar, mas a visão de Anita molhada quase provocou um encontro não programado entre Henrique e uma árvore que pretendia imitar aquelas palmeiras de Beverly Hills. Ainda assim, alcançou o solo em segurança e foi ter com a encharcada Anita que, não por acaso, parecia uma estrela de Hollywood da qual ele não lembrava o nome.

- Mas que loucura!, foi o que ela disse logo que se encontraram. Aquele jeito dela falar lhe pareceu um tanto quanto encantador demais para uma amante de esportes radicais.

E assim, num dia quente de dezembro, começaram a se amar. Quando conversaram para se conhecer, Anita lhe contou o quanto sofrera em sua última relação e tudo por causa de sua sogra que não apreciara seus dons culinários. Já Henrique revelou que tivera um filho pouco antes de prestar o vestibular e logo depois acabou se divorciando da mãe. E fora durante o divórcio que ele iniciou suas aventuras nas alturas. Na primeira vez, andou de balão, mas achou muito vagaroso. Então, partiu para a asa-delta. “Quando nos conhecemos, eu estava fazendo o meu primeiro voo solo”, disse orgulhoso.

No primeiro aniversário de namoro, ela saltou de bungee jumping – “porque o nosso amor foi rápido como um pulo”, Anita gritou durante a queda, enquanto ele assistia angustiado.

Naquele tempo, eu (que narro esta história) ainda era amigo deles, mas não pude deixar de perceber que o exagero só fazia crescer.

Quando ela passou num concurso público, Henrique escalou uma montanha congelada. Assim que ele conseguiu comprar um carro zero, Anita desceu de rapel uma cachoeira no meio da selva. E quando souberam que iriam ser pais? O que você acha que eles inventaram? Vá, use sua mente e pense numa ousadia qualquer. Acaso imaginou um salto de paraquedas? Sim? Pois acertou um cheio. As alegrias da vida eram motivos de sobra para ambos explorarem ainda mais os seus limites pessoais.

Atualmente, já não tenho mais contato com ambos. Soube que o filho deles está em Hollywood, aquele lugar das palmeiras, e trabalha como dublê em filmes de ação. Dizem que as cenas nas quais ele atua dão medo só de assistir, mas foi assim que ele encontrou a sua atual namorada. E ainda tem gente que não acredita naquela famosa frase que diz que amar é correr riscos.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 22/12/2011.

Só acontece com a gente

dezembro 19, 2011

É bem diferente quando acontece com a gente. Pode ser uma coisinha de nada ou um problema do tamanho do mundo, mas se tem a gente no meio também há de ser sobremaneira especial. Porque sabemos que com os outros é mais tranquilo; um mundo bem menos complicado e dinâmico. Com a gente – ah! mas logo com a gente? – é sempre um carnaval às avessas, festa sem comemoração, lixo sem luxo, paixão acompanhada de sofreguidão.

Não, mão é mentira quando eu digo que com a gente é mais estranho ou inoportuno. É só olhar para o lado e ver outrem. Aqueles estão sorrindo… mais adiante vemos dois ou três cantando… e quantos ainda restam… tão displicentes, como se nada pudesse abalar seus humanos corações. Mas o coração da gente é singular porque lida com as coisas de um jeito único e distinto – repentinamente, porém, somos lançados num planeta sem sentido, esperando por alguma absolvição.

Ninguém pode negar que com a gente os acontecimentos têm mais chances de darem errados. As opiniões alheias, concordemos ou não, parecem ser precisas e na medida em que os sentimentos individuais clamam. E a gente não se comove com as causas dos outros porque já temos questões sem respostas o suficiente.

Quando a gente encara face a face uma aventura, às vezes, esquecemos das personagens e, por isso, a história nem sempre acaba bem. Nalgumas oportunidade, vejam só, as histórias nem mesmo findam, porque com a gente o desfecho não se dá simples assim qual uma explosão estelar ou o desaparecimento de uma galáxia.

A fé, seja ela qual for, parece brincar com a gente. Aprendemos a enxergar as verdades possíveis, mas a gente também sabe que a mentira mora na casa ao lado. E neste condomínio fechado no qual se escondem as almas, a gente escolhe o imóvel mais incompleto. Daí que a gente não tem lareira para aquecer os corações; não temos cofres para depositar nossas expectativas e tampouco havemos de ter água para abastecer os sonhos mais áridos.

A gente não percebe aquilo que está óbvio para nossos concidadãos. Assim, vacilamos, cometemos pequenos deslizes e pedimos perdão por esta ignorância à qual já nos habituamos. Somos uma espécie em construção.

Dia vai, dia vem – mas tudo aquilo que poderia ser evitado só acontece com a gente. E está claro que, por tal motivo, somos diferentes da maioria. E admitimos que a gente gosta de todo este aprendizado, pois temos virtudes e vícios que nos permitem confessar aos quatro ventos o quanto somos gente, mas gente mesmo.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 15/12/2011.

Quase no final de ano

dezembro 9, 2011

Antes de mais nada, devo confessar que esse período que antecede a chegada de um novo ano, de acordo com o calendário cristão, não me é assim tão cativante.

E tudo isso por uma questão muito simples: não compreender por que as coisas têm de ser melhores e especiais apenas numa época do ano. Temos aí sempre 12 meses para fazer o que precisa ser feito e, mesmo assim, parece que tudo só dará certo nesse pouco mais/menos de um mês que acompanha as comemorações de Natal e Ano Novo.

Tradição é importante, indiscutivelmente. E nem cá estou eu a ir contra uma celebração encenada mias de duas mil vezes. Falemos baixinho, porém, e sejamos menos regrados em querer cenas coerentes de nosso cotidiano milenarmente construído. Parece-me demasiado estranho depositar nisso nossos anseios e acreditar que uma simples mudança de número será o elemento sine qua non do aguilhoamento que o novo ano trará. Já não estamos mais em fin-de-siècle para que seja feito todo essa mise-en-scène.

Palavras estrangeiras à parte, voltemos ao que nos interessa. As bobagens não tão bobas assim da aurora de um novo tempo.

E lá se vão dois milênios desde que aquele filho de carpinteiro pôs os pés no mundo para influenciar sobremaneira o modo de vida ocidental. Tenho comigo que Marx e Cristo são as duas figuras que mais incidiram no pensamento do Ocidente e, em tempos globalizados, no Oriente também. Afinal, ainda que Cristo não tivesse os olhos puxados, as igrejas cristãs já estão por aqueles lados onde o sol nasce.

E o que Karl e Jesus têm a ver com o tema destas frases? Respondo-lhes, astutos amigos, numa palavra: Esperança. Posto que o Marxismo e o Cristianismo não foram fundados por Marx e Cristo, respectivamente, tudo o que temos hoje é uma forma de pensar e viver tão somente baseada naquilo que ambos pregaram numa determinada época da história humana. Assim, o cristianismo dá a esperança de que todos, um dia, encontrar-se-ão com Deus. Já o Marxismo, fomenta a esperança de que as desigualdades, um dia, terão fim, quando então o comunismo fará a paz reinar na terra.

Entretanto, Cristo e Marx morreram sem ver seus ideais em pleno vigor. E, permitam-me, utilizar-me-ei de uma sentença do nosso mestre realista Machado de Assis: “A esperança ainda os fez relapsos, mas tudo morre, até a esperança, e eles saíram para nunca mais”. Posto isso, resta-me pensar que a esperança, na maioria das vezes, deve ser deixada de lado. Sim, esqueçamo-la! Nada de esperança para o ano que vem; vamos mudar o discurso. Vocês já pensaram em fazer algo?

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 08/12/2011.

Texto naufragado

dezembro 1, 2011

Tinha muitas vidas. Poderia ser Edgar Allan Poe ou Victor Hugo quando bem entendesse. Quando queria um pouco mais de aventura, transfigurava-se em Mark Twain ou Charles Dickens. Ainda conseguia poesia nas formas de Ezra Pound ou Florbela Espanca. E assim vivera tantas vezes que conseguira, finalmente, a imortalidade. Seu nome mais comum era Texto, mas também atendia por Memória, Alma e Imaginação.

Desta vez, estava dentro de uma garrafa. Aprisionado por um escritor que lera “O Velho e o Mar”, de Hemingway, mas terminara por naufragar como Luís Alejandro Velasco, personagem real de Gabriel García Márquez em “Relato de um Náufrago”. Munido de um lápis e algumas folhas em branco, o escritor colocou todo o seu desespero e sua angústia de estar à deriva em um Texto (sim, o próprio) tão trágico quanto belo.

Nos parcos papéis que possuía, contou desde seus primeiros passos na infância até os grandes relacionamentos que tivera na vida. Enquanto escrevia sua pequena narrativa, uma frase do escritor argentino Jorge Luis Borges lhe veio à mente: “Se lemos algo com dificuldade, o autor fracassou”. Era de um pequeno ensaio em que Borges tinha como tema central o livro e, ainda que não fosse tão pretensioso a ponto de que seu relato, um dia, se tornasse um livro, sabia que alguém poderia encontrá-lo e tratou de escrever com simplicidade e precisão.

O céu ensolarado ardia os olhos já cansados, mas não largou o lápis até que finalizasse sua história. Nos momentos finais da narrativa, revelou então que, pouco antes do naufrágio, conhecera Ernest Hemingway na capital francesa quando este escrevia “Paris é uma Festa”. Encontrara-o repetidas vezes no Café de Flore e conversavam muito sobre o ofício de escrever. Descobriu que Hemingway sentia uma grande admiração pelos jornalistas, mas que sua essência era, de fato, a de um escritor.

Depois de Paris, subiu na embarcação do capitão Ahab e foi à caça da baleia assassina “Moby Dick” descrita por Herman Melville. Desta forma, retornou ao ponto em que estava, finalizando seu relato e colocando-o dentro da garrafa que, minutos depois, jogaria ao mar.

Doze anos depois, a garrafa com o Texto fora encontrada em Florianópolis, uma ilha ao Sul do Brasil. Um jovem caminhava pela praia dos Ingleses quando viu o objeto flutuando perto da areia. Como ele era um estudante de jornalismo e apaixonado pela futura profissão, foi atrás de mais detalhes sobre o autor daquele Texto e descobriu que o homem jamais fora encontrado. Entretanto, as palavras ali escritas tornaram-se singulares na vida daquele que foi o seu primeiro e único leitor.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 1º/12/2011.

O tempo não é lugar

novembro 24, 2011

É curioso o fato de que quase todos que se encantam pelo filme Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in time, 1980), de Jeannot Szwarc, prendem-se nos detalhes errados. O tempo é metáfora, não é lugar. O amor é situação, não é fim. Viajar no tempo, então, para esta produção, é tão inevitável quanto qualquer outra narrativa. Assim, não há qualquer coisa de extraordinário na parte científica da viagem em si, mas sim nas pessoas que dela participam.

Explicar o envolvimento das duas personagens principais (Richard Collier e Elise McKenna) é achar que a filosofia pode trazer as respostas para todas as perguntas ou, ainda, acreditar que a ciência tem alguma precisão que não àquela inerente à especulação. Se existe uma sutileza na interpretação de Christopher Reeve (Richard) e Jane Seymour (Elise) tal atitude tem o mérito de equilibrar o romantismo de uma época distante com a atemporalidade do amor.

Entrementes, Em Algum Lugar no Passado trata, sobretudo, de experiência. E estamos falando aqui justamente da experiência individual de Richard, por mais que as personagens ao seu redor apareçam nas duas épocas abordadas naquele enredo: o início do século XX e o final dos anos setenta. Aqueles que lhe cruzam o caminho nos dois momentos, como a própria motivadora de sua viagem (Elise) ou o porteiro que recorda vagamente de já tê-lo conhecido são, por assim dizer, partícipes de uma engenhosa aventura romântica, com começo, meio e fim – não necessariamente nessa ordem.

São tudo sugestões que dão alguma coerência naquela sensação inerente de uma construção histórica em movimento, possibilitando a transformação imediata do factual em atemporal. Esta é a busca empregada por Richard através do tempo: aceitar que os fatos são tão essenciais em sua própria história quanto o que ele faz a partir destes.

Para quem acredita na possibilidade de universos paralelos fica compreensível aceitar que todas as decisões possíveis já foram estabelecidas e que o livre arbítrio é um navegar entre tantos destinos possíveis. Não é de todo mal pensar que o filme opta por uma narrativa convencional justamente para tratar sobre o tempo que, convenhamos, além de ser metáfora é sempre passado; nunca presente ou futuro, porque o que se vive é o que se lembra e o que se vai viver depende do ocaso – ou livre arbítrio.

Se querem crer num amor que ultrapassa as barreiras que o universo estabeleceu, tudo bem, mas que ao menos assistam ao filme com os olhos não tendenciosos, procurando a todo momento razões que a própria razão desconhece.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 24/11/2011.

Sobre a ponte

novembro 17, 2011

Ela: Olha amor, já que estamos presos no trânsito, acho que é um bom momento para discutirmos nossa relação. Há tempos que sei que você está evitando isso.

Ele: Queria mesmo era ter evitado este trânsito. Falei que a gente deveria ter se mudado logo para Biguaçu, perto do mar. Mas em 1990 você dizia “não, não… é só terminarem a nova Ponte que vai melhorar”. E agora, onde a gente está? Oras, trancados em cima da ponte.

Ela: Isso já faz mais de 20 anos. Esquece essa história.

Ele: Como esquecer? Tem duas décadas que a gente se incomoda e cada vez mais só piora. Agora, estão dizendo que vão construir a quarta ponte. A quarta! Você vai querer esperar mais 20 anos?

Ela: Eu acho que você é quem mais espera as coisas acontecerem. Só faz reclamar e não toma nenhuma atitude.

Ele: E você acaso concorda com qualquer coisa que eu digo?

Ela: Discutir não faz mal, depende de como você encara tudo o que a gente conversa. Você nunca dá o primeiro passo, nunca vai para a frente.

Ele: Deus do céu! Eu só queria ir para a frente com o carro. Com o carro!

Ela: E essa sua mania de repertir as coisas!

Ele: Que mania? Que mania?

Ela: Exatamente.

Ele: Você fica falando sempre que eu reclamo, mas você é ainda pior. Eu quis comprar um apartamento na praia, e você disse que era longe do centro. Eu quis um automóvel maior, e você protestou que ia ficar ruim de estacionar. Eu quero abrir um lava carros em Biguaçu; você, uma lavanderia em Florianópolis. Acho que você não consegue mais fazer nada sem me contrariar.

Ela: Exagerado! Além do quê, parece que tudo o que você diz tem a ver com trânsito. Não dá para mudar o assunto?

Ele: Eu mudaria de pista, se fosse possível. O pessoal da esquerda está andando mais rápido que a gente.

Ela: Honestamente, eu acho que você perdeu o interesse na gente. Antes, você conversava mais, queria passear em vários lugares, sair com os amigos. Agora, fica no trabalho oito horas por dia e chega em casa com a cara fechada, come qualquer coisa, assiste um filme qualquer e vai deitar. Às vezes, parece que você já morreu e nem sabe.

Ele: Quem morreu foi o motor do carro. Eu pedi para você não ir visitar a sua mãe em Palhoça. Olha que eu avisei que o motor estava forçando, que era melhor não abusar. Agora é capaz de vir um guarda aqui e ainda multar a gente por atrapalhar o tráfego.

Ela: Como se fosse possível piorar essa fila que não anda.

Ele: Ufa, o motor ligou de novo. Parece que lá na frente os carros estão se mexendo. Quando a gente chegar em casa, eu arrumo tudo.

Ela: A nossa relação? Você vai consertar?

Ele: Estou falando do carro. Do carro!

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 17/11/2011.

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