Ficamos com os detalhes

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Basta um recorte, um fragmento, uma pequena oscilação de timbre para surgir o impensável, a descoberta, um novo ritmo que faz todo o sentido. O que mais encanta na história de maçã caindo na cabeça de Isaac Newton é a simplicidade. Lenda ou versão exagerada da realidade, aí estão as leis de Newton quais pioneiras indispensáveis quando o assunto é gravidade. O mesmo se dá com inquietações d’alma, coisas que elevam-nos o espírito ou, ao menos, deixam tudo ainda mais interessante mesmo que a experiência seja francamente materialista-existencialista. Na literatura brasileira, caso dos mais notáveis é o de Inácio, personagem de Machado de Assis no conto “Uns Braços”. Adolescente na efervescência de seus quinze anos, Inácio súbita e incontidamente se encanta pelos braços de D. Severina, esposa do solicitador Borges. Às refeições, os braços desnudos da mulher que já gastara todos os vestidos de mangas compridas. Um jovem é um jovem e isto basta. Braços lhe bastam, mesmo que não lhe abracem. “Nunca ele pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo”, alerta-nos o narrador. Uma sutil minúcia que aproxima cronistas e contistas dos físicos mais relevantes. A cada olhar, a possibilidade de uma ruptura, da sinestesia a confundir o especialista pós-graduado. A verdade é que não sabemos quase nada de tudo. Por isso, ficamos com os detalhes. Por isso, tantas variações de um mesmo tom.

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A anti-comédia romântica do bardo


Parece que o texto de Trabalhos de Amor Perdidos é um dos mais bem acabados que Shakespeare nos legou. Com seus inúmeros jogos textuais e de conteúdo, vide o “golpe dentro do golpe” que é o encontro dos mascarados, Trabalhos… possui a inequívoca sutileza de uma comédia romântica com um desfecho que a torna, ao mesmo tempo, a anti-comédia romântica do bardo.

As personagens da peça enganam umas as outras, a si mesmos e a nós (leitores / espectadores). É Shakespeare inventando o humano com suas venturas e seus defeitos, tornando-nos uma espécie como nenhuma outra e como ninguém jamais propusera.

Na tradução da Beatriz Viégas-Faria, esse trabalho do autor fica muito claro e de leitura saborosa. E é interessante lembrar que Shakespeare não escreveu, a priori, suas peças para a leitura, mas sim para que fossem encenadas. Essa mudança de meio (que é a mensagem, nas palavras de Marshall McLuhan) sem perder a qualidade implica na genialidade do autor.

Volume único


Ouço passos ao longe. Não, estão mais perto. Pertinho. Estou sozinho em casa. Nenhum ranger de madeira, tampouco o vento assoviando. Apenas os passos. Pequenos passos. Como os de um boneco ou de uma criança. Abro os olhos. Tateio em busca dos óculos. Felizmente, não estão distantes da minha mão. Ainda não voltei a enxergar porque está tudo escuro. Desde pequeno, só consigo dormir no mais completo breu. Encho meus pulmões de ar. Exalo um frescor quente no ar frio da noite – uso um creme dental singular. Deixo a cama, estico o meu braço e ligo o interruptor.

A imagem se revela. O espanto. O horror. Uma cena para morrer de rir. Na estante dos meus livros, um exemplar está inquieto e olha para mim tão assustado quanto eu narrador. Não consigo identificar a edição. Também pudera: aquela mistura de capa dura, folhas e um corpo vagamente humano como que lhe deturpou a capa. Num átimo de rebeldia imaginativa, penso que suas orelhas de livro podem fazer as vezes das humanas. Quase sorri, mas questiono taxativo:

– Você existe ou só estou imaginando?

O livro para de andar na borda da prateleira. Deduzo que ele estava querendo descer, talvez chegar ao solo e fugir daquele lugar no qual todos os seus semelhantes se encontram quietos, inertes, ansiosos para se aventurar nas palmas das minhas mãos. Ele me responde – ou quase.

– Quero ser lido!

Não entendo de primeira. Ao ver minha expressão duvidosa, ele repete a frase inicial e se prolonga numa ampla explicação.

– Quero ser lido, oras! Estou aqui há anos, aguardando uma oportunidade de minha existência fazer algum sentido… mas nada! Já nem lembro a última vez que você me tirou da estante. Sim, sim, você tira o pó de mim de tempos em tempos. No entanto, sequer me folheou sem outra intenção que não a de procurar por traças! Eu mereço muito mais que isso. Sei que você me encontrou num sebo, mas saiba que sou tão digno quanto os outros. Não queria te acordar. Só decidi mudar de lugar. Percebi que você tem uma prateleira de “livros em uso”, e estava a caminho dali. É o que quero e ninguém há de me impedir.

Noto em seus olhos a fúria dos esquecidos. Decido amainar.

– Hum, certo. Talvez eu tenha sido um tanto injusto com você. Mas preciso que pare com isso agora. Amanhã, tenho um compromisso logo cedo e preciso dormir. Fique onde está que vou ter contigo à noite. Prometo que o lerei, independente de seu conteúdo.

O livro revira os olhos, mas assente como que a contragosto. Firmamos um acordo de cavalheiros, penso eu.

Na manhã seguinte, saio de casa logo cedo. O encontro literário da madrugada não está em meus pensamentos. Faço o que tenho de fazer e volto para casa. Ao entrar na sala, uma revelação: centenas de livros da minha estante desapareceram. Antes mesmo de descobrir o que aconteceu, deduzo que todos eram não lidos. Chego mais perto da mesma prateleira na qual o livro se exaltara comigo. Há um bilhete, escrito com letras de forma – bem típico de um exemplar raro e antigo: “Esta não foi a primeira vez que você prometeu ler um de nós. Sua palavra já não vale mais. Por isso, decidimos ir embora para a biblioteca municipal. Não tente nos reaver. Sem mais. Assinado: Volume único”.

 – Pela primeira vez em minha vida, penso que não se pode confiar totalmente nos livros.

 

À maneira de Shakespeare


Shakespeare, segundo alguns autores, não seria incluído no estilo literário renascentista, mas sim no “Maneirismo”. Este último seria caracterizado por tentar a conciliação das heranças medieval e renascentista, fundir o cômico e o trágico, colocar uma natureza dupla do herói, pela presença do grotesco e o convívio dos elementos realista e fantásticos. Nesse sentido, a obra de Shakespeare & Miguel de Cervantes (que, não por acaso, aparecem tardiamente no que chamamos de “renascimento”) seriam encaradas como pertencentes ao maneirismo.

Basta nos lembrarmos da comicidade da ama da tragédia Romeu & Julieta, o drama fantástico e presente de Hamlet que enxerga o fantasma de seu pai, a presença do grotesco em seus vilões como Ricardo III e, mesmo, na trama carnívora de Titus Andronicus.

Não sei em relação à Espanha de Cervantes (talvez o país mais católico de então), mas a Inglaterra protestante do bardo possibilitaria uma condição sine qua non para sua obra ter sido assim feita. E a Inglaterra ainda possui uma identidade particular que pode ter feito toda essa diferença na hora do nosso amigo de Stratford ter escrito suas peças. Segundo Eduardo Dowden, em Característicos da Literatura Isabelina, a confluência do protestantismo com o renascimento possibilitou o florescimento de idéias e sugestões com um pé no mundo material e outro no mundo espiritual. Se Shakespeare pode ter vindo de um família católica, conforme aponta F. E. Halliday no livro Shakespeare – Vidas Literárias, isso só corrobora como essa duplicidade está presente em sua obra.

Seja como for, a classificação de suas obras como pertencentes ao “Maneirismo” ou ao “Renascimento” não conseguem apontar a verdadeira categoria na qual nosso ilustre dramaturgo se encontra: a dos gênios.

Titus


A tragédia Titus Andronicus é, indubitavelmente, a mais sangrenta peça de Shakespeare. Talvez, supomos, à época de sua feitura, o bardo ainda não teria “pegado” o jeito para o texto trágico. Entretanto, convém ressaltar que a “crueza” das cenas não são meros detalhes estilísticos de um autor em formação. Há, claramente, a sugestão acabada de uma narrativa densa, da qual o leitor ou, à época, a plateia não possuía a menor chance de respiro. Menor ainda é a chance de imaginar um final harmonioso. Deixemos de lado a expressão “final feliz”, pois.

Analisar comparativamente o pensamento ocidental atual com o da Inglaterra do bardo, seria não outra coisa que anacrônismo (ainda que a “ideia” do que somos seja devida em boa parte – talvez, a melhor e mais interessante – ao homem de Stratford).

É de se admitir que as mazelas sociais eram parte do cotidiano da urbe londrina. A capital do reino sofria com as idas e vindas da peste, motivo pelo qual ora os teatros estavam abertos, ora com as portas lacradas, já que eram locais de fácil transmissão da doença. As condições de higiene eram lamentáveis e a violência entre as classes mais desfavorecidas (já àquela época, a grande maioria da população) corria solta. Marlowe, aliás, contemporâneo de Shakespeare, morreu numa simples briga de bar. Isso, sem contar as disputas de poder internas, que visavam destronar a rainha, bem como externas, como a esmagadora vitória sobre a Invencível Armada espanhola.

Não por menos, temos cá hoje a ideia de que o “estômago” inglês elizabetano estava mui preparado para uma trama assim tão sanguinária, com menos recursos visuais, mas ainda assim fazer inveja aos filmes do Quentin Tarantino (dos quais eu, particularmente, vejo muito de Shakespeare, principalmente em Cães de Aluguel).

Trecho (Cena III, ATO V):

(Entram Tito, vestido de cozinheiro, Lavínia com um véu no rosto, o menino Lúcio e outras pessoas. Tito coloca os pratos na mesa.)
TITO — Gracioso imperador, sois mui bem-vindo. Bem-vinda sois, rainha temerosa. Guerreiros godos, salve! Salve, Lúcio! Saúdo a todos. Muito embora seja pobre a comida, há de satisfazer-vos. Começai, por obséquio.
SATURNINO — Qual a causa de vos vestirdes, Andrônico, assim?
TITO — Para ter a certeza de que nada há de faltar para condignamente servirmos Vossa Alteza e a imperatriz.
TAMORA — Meu bondoso Andrônico, muito gratos vos ficamos por isso.
TITO — Vossas Honras realmente o ficariam, se soubessem quanto em meu coração se passa agora. Meu nobre imperador, resolvei-me isto: Teria procedido com acerto o impetuoso Virgínio, ao dar a morte com a própria mão à filha, por ter sido manchada, desonrada e deflorada?
SATURNINO — Sim, Andrônico, com acerto.
TITO — E as vossas razões, grande senhor?
SATURNINO — E que a donzela sobreviver não deveria à própria desonra nem as dores reavivar-lhe.
TITO — Forte razão, possante e decisiva. Exemplo, precedente, penhor vivo para que eu, infeliz, o mesmo faça. Morre, morre, Lavínia, e o teu opróbrio, com ele morre o opróbrio de teu pai. (Mata Lavínia.)
SATURNINO — Bárbaro, desumano, que fizeste?
TITO — Matei quem me deixou sem vista os olhos. Tão desgraçado sou quanto Virginio, e mil razões mais que ele tenho para perpetrar este crime. Já está feito.
SATURNINO — Como! Ela foi violada? Então revela-nos quem foi o autor desse ato.
TITO — Vossa Alteza não quererá comer? Desdenha o invite?
TAMORA — Por que matar o pai a própria filha?
TITO — Não fui eu que a matei, porém Demétrio com Quirão juntamente. Após haverem dela abusado, a lingua lhe cortaram. Eles, apenas, lhe fizeram isso.
SATURNINO — Ide buscá-los; imediatamente! TITO — Ora, ora! Ambos estão naquela torta com que a mãe deles tem-se regalado, comendo, assim, a própria carne que ela mesma engendrou. E certo, é certo; atesta-o a ponta aguda desta minha faca. (Mata Tamora.)
SATURNINO — Morre, louco, por essa ação maldita! (Mata Tito)
LÚCIO — Não pode ver o filho ao pai sangrante, sem que a retribuição dê num instante. (Mata Saturnino. Grande tumulto, O povo se dispersa em confusão. Marco, Lúcio e seus partidários sobem à janela.)

Diálogos pós-socráticos

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– Você já pensou em escrever um diálogo de verdade?

– Escrevi vários.

– De verdade?

– Sim, realmente escrevi.

– Suponho que eles sejam reais, pois confio no que você diz. O que quero saber é se os diálogos eram de verdade. Essencialmente verdadeiros.

– Aí, talvez, a resposta seja impossível. Ou, no mínimo, improvável no aspecto da satisfação plena. A verdade por si só gera tanta controvérsia! Imagina um diálogo que se queira verdadeiro.

– Mesmo assim, acreditas que já o escreveu?

– Acredito.

– Por quê?

– Sou uma pessoa verdadeira.

– Dizem por aí que você é cronista, daqueles que valorizam o instante muito além do tempo.

– Não sei o que dizem, nem como dizem. Entretanto, escrevo, sim, crônicas. Algumas sobre o agora que acabou de passar, outras sobre um entendimento (ou a busca dele) de um período no tempo qualquer. Imagino que Chronos nunca foi um deus pontual até porque ele sempre existiu, daí que não se atrasou nem mesmo para o início ou o fim de tudo.

– Você está dizendo que o tempo total já aconteceu?

– Sim. E continua a acontecer num eterno retorno. Mesmo esse nosso diálogo já se deu tantas vezes que só o infinito é capaz de contar.

– E em todas as vezes esse diálogo terminava numa crônica?

– Não sei se te entendo como deveria.

– Se assim o for, qual o problema? Os maiores mistérios de nossa espécie surgiram por meio da conversa. E até que convivemos bem com isso.

– Eu sei. Não é um problema. É só uma questão de perspectiva. Como quando Platão colocou no papel as palavras de Sócrates. E se ele entendeu tudo ao contrário? Mais ainda: Imagine Platão alterando as ideias socráticas só porque pareciam melhor daquela forma no papel.

– Qual o quê! Eu não tenho nenhuma pretensão de que alguém me compreenda do jeito que se compreende Sócrates, Platão ou qualquer outro filósofo. Apenas gosto de falar bastante.

– Ainda assim, um dia vou escrever uma crônica sobre isso e vão te entender totalmente de outra forma. Talvez de uma forma muito mais minha do que sua. Só posso te prometer que farei o melhor que puder nesses nossos diálogos.

Quem escreveu as obras de Shakespeare


Existem registros concretos de que existiu um William Shakespeare nascido em Stratford-upon-Avon e estes se encontram preservados até os dias atuais. O fato é que os dados sobre Shakespeare são poucos. E pouca informação gera milhares e milhares de teorias. Que ele não tinha cultura para tanto, que o seu texto era muito parecido com Marlowe, Francis Bacon, etc, etc.

Nem mesmo seu rosto é consenso. Há poucos anos, a jornalista canadense Stephanie Nolen anunciou a descoberta de uma pintura de 1603 que seria então o único retrato legítimo do bardo. Depois de ser publicada pelo jornal “The Globe and Mail”, a reportagem tornou livro intitulado O Rosto de Shakespeare, publicado em 2004 no Brasil. Stephanie Nolen busca identificar em que medida um quadro com o tal novo rosto de Shakespeare, cujo atual dono é um canadense e vizinho da mãe da jornalista, poderia ser considerado como a única pintura do bardo feita em vida. O livro possui uma reconstituição de época interessante e revela alguns detalhes e sugestões de como pode ter sido a vida do nosso prezado Will.

Já o o espanhol Fernando Martínez Laínez vai mais pelo lado da imaginação no capítulo O homem que pode ser Shakespeare de seu livro Escritores e Espiões, no qual aborda onze autores que teriam uma outra atividade além da escrita. Laínez aponta que Marlowe teria forjado a própria morte para continuar escrevendo sob o pseudônimo William Shakespeare. E tudo porque Marlowe era espião.

Para se responder a questão “Shakespeare era Shakespeare?” é preciso ter fé, acreditar, ponderar e opinar sobre o que temos de informação sobre o tema. No entanto, quaisquer dúvidas sobre a figura do dramaturgo não interferem no que é mais precioso: sua obra. Se é importante saber quem a escreveu? Suponho que sim. A vida de um autor sempre tem importância naquilo que lhe é creditado. Shakespeare escreveu no tempo certo as palavras certas, por isso é tão difícil alguém superá-lo.

Alguém foi Shakespeare, independente se foi o próprio Shakespeare ou outrem. E é esse alguém que é o Shakespeare que conhecemos hoje.

O resto é história. Ou melhor, literatura.

A história vive da palavra


A história nada mais é do que interpretações. O que fica sempre, pois, é o texto. Tanto que, por isso, considero todo e qualquer texto uma obra literária e, por sua vez, literatura. Daí a importância até os dias atuais, mesmo em tempos de internet, da palavra escrita. E, com a permissão do escritor argentino Jorge Luis Borges, uso de suas palavras sobre o livro para ilustrar meu argumento:

“Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida o livro. Os demais são extensão do seu corpo… Mas o livro é outra coisa, o livro é um extensão da memória e da imaginação”.

E o que nos coloca nesse mundo que não seja a imaginação e a memória? O próprio Borges, por sinal, que tantas vezes falou de Shakespeare, afirmava a universalidade do bardo devido ao seu não ser inglês, no sentido em que Shakespeare era/é o menos inglês dos escritores da Inglaterra e por isso é seu símbolo máximo. Da mesma forma, Borges cita Cervantes como ícone da Espanha, sendo o menos espanhol de seus escritores.

Se a história vive da palavra, então talvez a leitura seja sua complementação inerente.

Shakespeare romântico?


Primeiro, suponho, precisamos diferenciar o que é dramaturgia e o que é romantismo. Aquela é todo escrito para teatro, enquanto este vem a ser um estilo literário de um determinado período (ainda que esses períodos literários não sejam tão claros como quando os estudamos para o vestibular).

Em segundo, apesar dos sentimentos românticos nos textos de William Shakespeare serem tratados com esmero, o mesmo pode ser dito em pró de outros elementos, como os filosóficos, os dramáticos, os históricos, etc…

Ainda que o bardo não seja considerado um autor romântico como pede o figurino (aqui um jogo de palavras proposital para com o teatro), vale comentar que os românticos se inspiraram largamente em Shakespeare para escrever suas histórias. É muito comum a citação de Romeu & Julieta, principalmente, em trechos de poesias ou capítulos de romances.

Além disso, os românticos são responsáveis (claro que não isoladamente) por um reavivamento dos textos de Shakespeare. Trocando em miúdos, talvez seja no romantismo que Sir William seja definitivamente colocado como clássico!

A história nas entrelinhas


Existe uma visão-versão de estudos acadêmicos embasados em textos de literatura cujo objetivo é entender a história principalmente nas entrelinhas. Como fosse possível submergir temporalmente na época em que se passam os textos literários.

Em meandros, não haveria divergência entre reconhecer, por exemplo, o Rio de Janeiro da belle époque seja através das análises e dissertações sobre o tema (incluindo aí toda documentação disponível da própria época) seja através de textos literários, como os contos, romances ou crônicas – para ficar apenas nos gêneros mais usuais – de um Machado de Assis.

Evidentemente, separar o joio do trigo no que concerne ao entendimento histórico não é qualquer coisa simples, feito uma leitura de entretenimento dessas disponíveis em bancas de revista (como o “Sol” de Sem lenço, sem documento do Caetano Veloso), ainda que tais magazines tenham a mesma importância histórica naquela praia do debate cultural.

O livro 1808, de Laurentino Gomes, é uma grande reportagem com rigorosa pesquisa de fontes sobre a chegada da família real no Brasil. Já O último dia de Cabeza de Vaca, de Fábio Campana, é uma ficção cuja narrativa se dá através das palavras do presbítero Francisco Paniágua, que teria estado com o navegador espanhol Don Álvar Núñez Cabeza de Vaca  em seus derradeiros dias, revendo seus feitos e malfeitos. As ideias de identificação histórico-narrativa se dão em ambos os volumes com aquela intenção de envolvimento historiográfico.

Sonho de uma noite de Primavera


No livro “Sonho duma noite de S. João”, traduzido por Castilho, temos uma interessante explicação sobre a titulação da obra. A seguir, trechos da nota (escrita de facto por Victor Hugo) a qual o tradutor se utiliza para justificar a escolha do título:

Midsummer não significa propriamente o meio do Estio. Não é um prazo incerto do ano.”

Midsummer é um dia de festa, inteiramente britânico, marcado no calendário protestante no dia 24 de junho, isto é, no começo do Estio, correspondente ao S. João no calendário católico”.

“Muitos comentadores por desatentarem nesta explicação dada pelo próprio poeta, fantasiaram que por este título “Midsummer night’s dream”, quisera ele especificar o prazo em que o enredo da comédia se passava. A prova de que andaram errados neste juízo, é o cuidado com que o autor nos precaveu, por boca de um dos interlocutores, de que a acção se dá no começo de maio. Quando Teseu descobre na mata maravilhosa os quatro amantes por terra a dormir, diz a Egeu que certamente haviam de ter vindo celebrar o rito de Maio, e para isso madrugaram. Portanto, não é, como geralmente se cuida, numa noite de Estio, que Botom (Canelas) e Titânia se enamoraram; foi sim numa noite de Primavera”

Descrição crônica


“Fico chocado quando vejo alguém comer melancia de qualquer jeito. Ainda ontem presenciei esta desgraça: o sujeito colocou a pobre fruta de pé, deu-lhe um talho de alto a baixo, pegou as duas metades e partiu-as também ao meio, deixando na mesa, numa poça d’água, um triste saldo de quatro pedaços que foram sendo grosseiramente escavados. Nada da poesia que o evento pede. Uma coisa feia, mal-acabada.” 

– Trecho da crônica “Da arte de comer melancia” de Flávio José Cardozo.

Estava relendo essa que é uma das melhores, se não a melhor, crônica do escritor catarinense Flávio José Cardozo. Como não chamar isso de literatura? Não é de hoje que essa questão – crônica: jornalismo ou literatura? – vem à tona. Mas deixemos este embate para outra oportunidade. O fato é que a descrição colocada no início não apenas sintetiza a essência do texto como salienta o efeito único de uma esmerada descrição. Não há como não se envolver com a narrativa.

Ler essa crônica é como mergulhar das lembranças do cotidiano; como não percebemos a miudeza maravilhosa das coisas? A boa descrição faz isso. Nos coloca dentro da cena, como se estivéssemos num jogo ao lado do juiz, mas sem interferir na partida. Descrever é, antes de mais nada, uma forma de dizer ao leitor que somos feito da mesma matéria, somos seres que sentem, ainda que de formas diferentes, o mundo a nosso redor.

Os tempos de Shakespeare e Machado de Assis


As comparações entre William Shakespeare e Machado de Assis podem ser as mais diversas, tanto em relação às suas vidas quanto em função de suas obras. Ambos viveram momentos de transição secular (do século XIV para o XV, no caso de Shakespeare e do XIX para o XX, para Machado), quando novas ideias se faziam vibrar no ar e na mente das pessoas.

Shakespeare pegou um momento de protestantismo latente, fatos históricos marcantes para a Inglaterra e uma cena teatral propícia para seus escritos que misturavam o popular e a tradição clássica.

Machado de Assis caminhou por linhas similares, sendo até mesmo acusado de modernista! – um modernismo positivista à época –, o qual sempre criticou. Isso porque Machado não fazia questão de navegar na moda do momento, quando o naturalismo romântico (alguém aí falou em Eça de Queirós?). O autor carioca quase nunca saiu do Rio de Janeiro (a cidade), mas parece que seus textos exploravam a alma do brasileiro não como quem define características nacionalistas (José de Alencar?), mas como o explorador de uma nação que sempre questiona a si mesma na eterna questão “quem somos nós?”.

Shakespeare inventou o humano e Machado o explorou internamente.

Logo, eis que a melhor dramaturgia vêm daquela ilha europeia chamada Inglaterra; a melhor narrativa em prosa está abaixo da linha do Equador, onde costumam dizer que é a pátria d’Ele.

Nunca é tarde demais

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De tarde. O sol vai mais um pouquinho para lá, querendo se esconder de alguns para se exibir aos outros. O tempo, lentamente, avança sobre si mesmo. Vez por outra, nesse intervalo do dia, quando há indecisão entre a tarde e a noite, passo em frente ao clube. Parados, diria até mesmo ansiosos, homens e mulheres com muita idade aguçados pela iminência da dança, da realização, da satisfação…

A porta está fechada, mas eles esperam. Imagino cá que muitos deles já estão aposentados, cumprindo um ritual que lhes completa. Alguns ajustam os óculos, apertam os cintos, desamassam as saias, passam a mão nos cabelos, preparados que só eles para o baile. Solteiros, casados, viúvos, descompromissados. Tantos acasos de histórias reunidas num mesmo ambiente. E como chegarem até ali? Tenho algumas hipóteses.

Não há sequer um milionário entre eles. Talvez, aquela alma de maior sorte tenha sido uma grande empresária do ramo imobiliário. Após perder tudo em oscilações na bolsa de valores, voltou-se para a segunda atividade que sabia fazer melhor: a dança. Dois ou três deles eram caminhoneiros. Viajaram o país inteiro e já não conseguem mais ficar muito tempo no mesmo lugar; por isso, sacodem o corpo para lá e para cá. Também se fazem presente os advogados sem gravata, as juízas sem a toga, os cozinheiros sem o avental, as policiais sem a farda… Hoje, exatamente ali, o que os identifica é tão somente a habilidade com que balançam.

Porque são humanos, e muito vividos, traquinam com a experiência de outros tempos. Longe de serem velhos, tornam-se uma novidade para si mesmos. Flertam. Os abalos sísmicos provocados por dois corpos distintos ou iguais, complementares e espelhados, retumbam. De longe, bem afastado mesmo, também somos sacudidos com o ritmo, a cadência, a ginga de quem não foi apenas passado, mas sim um total de presentes.

De fato, jamais entrei numa matinê destas. Meus calcanhares nunca ultrapassaram a porta. Fiz todas essas deduções da porta do carro para dentro, nas muitas vezes que observei da janela esse entusiasmo vespertino. Ainda assim, ouso idealizar o mais belo dos cenários, porque aquele me parece ser um bom jeito de viver.

Anoitece. A música diminui até cessar. A lua chega para abençoar o sono dos dançarinos.

Nunca é tarde demais.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 10/08/2017.

Mudando os livros

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Estou quase terminando uma nova mudança de endereço. Permaneço no mesmo bairro, mantendo os hábitos e lugares de sempre, necessários à sobrevivência do cotidiano: padaria, farmácia, posto de gasolina e outros lugares onde deixo boa parte do que recebo. A questão não é a distância em si, mas a sensação de que tudo o que possuímos (sim, esses algo nobres e algo fúteis bens materiais) parece ter um significado diferente quando temos nós mesmos de carregar.

Ao longo de vários anos, acumulei algumas centenas de livros, muitos dos quais tenho a nítida certeza de que jamais os lerei. Mas uma coleção não tem a ver com fim. Para o colecionador, o assunto em si nunca está acabado. Por sorte e um milhão de outros motivos, tive as condições necessárias para adquirir estes objetos que, como disse o escritor Jorge Luis Borges, são a extensão da memória e da imaginação. Entretanto, quando você compra um novo livro (ou usado, para quem curte o bom e velho sebo), não está imaginando que terá de carregá-lo junto com outros tantos em sua próxima mudança. E, creiam-me, livros pesam. Bastante. Guardados numa caixa, livros voltam à origem e se tornam árvores, pesando quais troncos maciços. Quanto maior a caixa, mais difícil de carregá-la. “Conformar-se; este é o único caminho”, repito isso para mim mesmo tentando diminuir as dores nas costas e nos braços.

Nesta mudança, dei prioridade para os móveis maiores. Trouxe a cama, o sofá, a mesa de jantar, o guarda-roupa… tinha de começar pelo mais difícil – pelo menos, era no que eu queria acreditar. Trouxe alguns livros, claro, principalmente aqueles que estavam foram da estante por uma razão ou outra – além de ter esse estranho hábito de ler mais de uma obra ao mesmo tempo, misturando as histórias, torcendo para que o herói da idade média de um livro embarque na nave espacial de outro exemplar totalmente distinto.

Ter um lugar para chamar de seu, mesmo que por um tempo determinado, já é uma conquista e tanto nesses tempos semi-insanos. O mundo inteiro está uma grande bagunça e eu cá preocupado em manter organizada minha coleção de livros! Penso que seja exatamente por aí. Estou em outro endereço, mas quem fez algumas das principais mudanças em minha vida foram os livros. Benditos objetos – mas precisavam ser tão pesados? Ainda há tantos para mudar…

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 02/08/2017.

Bastião dos dias idos

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Não sei se foi por causa do frio, mas encontrei na baixa temperatura um pretexto para rever fotos do meu passado escolar. Pode parecer estranho para alguns com a imaginação virada para o futuro, mas volta e meia me pego sonhando com aqueles dias de estudante, cada vez mais distantes. Vai daí que, ao rever umas fotografias antigas ao lado dos colegas de classe de então, correu–me um segundo frio pelo corpo, como se pudesse estabelecer algum tipo de contato com aqueles dias idos, avisando a mim e a todos que dali em diante a vida traria tantas venturas e desacertos para os quais ninguém precisaria ter medo.

Até a adolescência, fui um aluno de notas boas, nada excepcionais. Tive meus dilemas e dramas pessoais para com os números (até hoje não faço a menor ideia como utilizar um logaritmo em meu benefício), mas passei com razoável tranquilidade nas demais disciplinas. Como a maioria, tive amizades marcantes, daquelas que a gente lembra com saudade e a certeza de que cumprimos nossa parte nessa espécie de contrato social, firmado apenas com abraços e sentimentos de cumplicidade. Os contatos, porém, perderam-se no caminho. Não lamento suas ausências, todavia. Se assim foi, assim teve sua razão de ser.

Curioso mesmo foi entrar num grupo online formado por ex-alunos do meu antigo colégio. Entre fotos de pospostos conhecidos e ilustres estranhos, fiquei com a impressão de que um aluno se repetia em várias imagens, com turmas diferentes e até mesmo distantes no tempo. Clique após clique, foto após foto, lá estava ele, com a expressão idêntica e praticamente a mesma idade, tanto na década de 1980 quanto na seguinte. Minha mente crônica, claro, vislumbrou ali um mote para uma história, quase um thriller surrealista ou uma epopeia mirim baseada em fatos legítimos-ligeiramente-distorcidos. Pareceu-me, sobretudo, que aquele garoto era a Lembrança em si e não exatamente uma pessoa. Ele estava ali como que se certificando da atuação do tempo, um bastião de uma era, posando para as lentes fotográficas apenas com a intenção de ecoar nos dias frios e eternos.

Ondas de nostalgia vêm e vão; já aprendi a lição. Felizmente, não tenho tarefas envolvendo logaritmos para entregar no dia seguinte.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 20/07/2017.

Preso à liberdade

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Como tudo o mais, conceitos mudam com o tempo. Não se trata da evolução da ideia em si, mas sim do seu entendimento próprio à época. Enquanto uns temas são menos polêmicos, outros nascem e procriam sob a égide da controvérsia; eis o caso da liberdade.

Em um sentido bruto, total e diria até mesmo pleno, a liberdade soa como um conceito inventado por um louco de marca maior. A essência absoluta da liberdade é o caos, o Big Bang em seu momento inicial e único, mais rápido do que o tempo é capaz de medir. Na prática cotidiana, claro, imputamos à liberdade tantos limites que só assim ela é capaz de fazer sentido, trazendo-nos alguma utilidade mesmo que questionável.

Por hora, vamos deixar de lados aquelas típicas polêmicas de academia – tão démodé nas cadeiras das ciências humanas – que insistem em teorizar sobre as diferenças entre liberdade e libertinagem. Há coisas mais urgentes, como a chaleira de água apitando na cozinha. Este átimo de conversa franca se completa na frase genial de Sartre: “O ser humano está condenado a ser livre”. Claro que, quando dita em francês, a frase parece ser muito mais bonita do que é. O que está no cerne da visão do filósofo é o uso não casual do termo “condenado”, justamente associado à ideia de liberdade. Se para um existencialista de plantão a expressão vem a calhar, para nós que desejamos ter um mínimo de intimidade com o metafísico tal assertiva pode cair qual um balde de água gelada num dia de vento sul. Esta é a liberdade de todos os tempos, sempre contextualizada dentro de leis, governos e seus equivalentes. Não há, por enquanto, uma máquina a nos vigiar o pensamento, mas outros aparelhos já ficaram com a fiscalização de quase todo o resto. E, antes das máquinas, as próprias pessoas limitavam e ainda limitam seus iguais por uma outra abstração chamada poder.

No Brasil de 12/07/2017, um juiz condena um ex-presidente da república a nove anos e meio de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. E como os conceitos mudam com o tempo, a própria justiça ou o sistema judiciário em si passam a ser suspeitos numa onda desestabilizadora que parece não ter fim.

Antes a humanidade condenada à liberdade do que a liberdade condenada ao esquecimento.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 13/07/2017.

Surpresas nas caixas

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Falam por aí que a vida é uma caixinha de bombons porque nunca sabemos o que encontraremos em seu interior. No caso específico desta expressão, a vida é um sinônimo para humanidade, quase como um olhar de surpresa para si mesma. Como no castelo de A Bela e a Fera, quem se arrisca a descobrir seus segredos poderá levar um baita susto de imediato – depois, com algum quinhão de sorte, talvez até role uma dança no salão de festas. As grandes histórias são aquelas que colocam tudo em perspectiva, afundando-nos em nossa miséria e, igualmente, exaltando-nos qual o grande sentido de toda a criação. Os conflitos nos movem adiante. E os bombons deixam tudo ainda mais gostoso.

Anterior ao caso de amor envolvendo a Fera e a Bela, damos com outra caixa igualmente insuspeita. Pandora, a primeira mulher segundo a mitologia grega, recebeu como presente de casamento uma caixa contendo todos os males. Há muitas versões da trama, como convém a toda mitologia, por sinal. E nalguma atualização da narrativa, o autor desconvidaria o traiçoeiro que trouxe tão ordinário presente a uma festa de casamento. Por que não dar um forno micro-ondas ou um jogo de jantar? Mas justo uma caixa com todos os males? Oras, todos sabem que uma caixa é um convite à curiosidade. Qualquer comprador de depósitos abandonados do século XXI anseia por encontrar tesouros no mais simples caixote. Agora, imaginem o ardor de Pandora, uns bons tantos mil anos antes de Cristo, observando por horas a fio aquela caixa enigmática. Claro que ela não resistiu. Os otimistas ainda dirão: – Felizmente, a Esperança ainda ficou no fundo da Caixa de Pandora. Qual o quê! Justo a Esperança que é um sonho infinito. A Esperança, sob esse aspecto mítico, nunca se transforma. É algo do tipo vida e morte. A vida é estar; enquanto a morte já não é nada. Não se trata de discutir aqui sobre o além ou coisa que o valha, mas a simples constatação de que o não estar aqui não possui significado concreto: morte é ausência. Esperança é não-realização; por isso, não devemos esperar nada.

Na minha casa, guardo um baú. No baú, documentos de ontem e hoje. Vez por outra, retorno a eles, buscando surpresas mesmo naquilo que já sei de cor. Quando não encontro nada de novo, vou ao mercado e compro uma caixa de bombons que está em promoção.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 06/07/2017.

Primeiras impressões

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O ditado é popular. Você já o ouviu nalguma oportunidade. Pode até discordar dele, mas não deixa de compreender seu sentido. Talvez até mesmo o tenha utilizado de modo inconsciente, contrariando seus princípios mais íntimos. Mas não se culpe. “A primeira impressão é a que fica”, alguém vociferou prematuramente. E daí para cair na boca das pessoas foi uma mera questão de tempo e lugar.

Mas se as primeiras impressões são importantes para alguns no que compete às pessoas, façamos sempre uma ressalva destemida para as artes. Ou, mais especificamente, tratemos aqui com alguma gentileza dos impressionistas, para quem as impressões iniciais da vida, da natureza e das pessoas iam muito além de um encontro célere e frívolo. Não é por acaso que o movimento impressionista tenha sido batizado a partir da obra “Impressão: nascer do sol” de Claude Monet, terminada em 1872. Na pintura, a paisagem de um porto, com uma névoa azulada transformando as embarcações em objetos fantasmagóricos. Assim, sob certos aspectos, é a própria natureza ou, ao menos, as impressões de alguns sobre ela, quem rompe com a tradição vigente e, num estalo de genialidade, prepara o mundo para o moderno que também impressionará sobremaneira.

Mas como convém a toda ruptura feita com talento e responsabilidade, a consagração dos impressionistas não foi imediata. Monet, Manet, Renoir e outros tentaram em várias ocasiões entrar no que poderíamos chamar de “grande circuito” da época, então representado pelo Salon de Paris. Evidentemente, foram rejeitados por não se encaixarem ao que estava na tradição dominante, que exigia representações da mitologia grega, cenas históricas ou passagens bíblicas.

No ano de 1874, a Primeira Exposição Impressionista reuniu 165 pinturas de 27 artistas, incluindo nomes como Degas e Cézanne. Na sequência, foi criada a “Société Anonyme des Artistes, Peintres, Sculpteurs, Graveurs”. Ali estava um grupo que revolucionaria a pintura, num gênero preponderantemente paisagístico, que apelava à observação e à percepção.

Cores puras e dissociadas, objetos destacados pela forma singular que incide a luz e sem contornos definidos: Assim era captado o momento. E que ótima primeira impressão!

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 29/06/2017.

 

As definições do cronista

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Quisera definir o amor ou, quiçá, uma coisa menos espetacular como a paixão. Ter respostas para perguntas diretas, simples e objetivas, explicando o que é a vida?, por que existimos?, para onde vamos? Assim, poderia equilibrar os sonhos no mesmo pêndulo da realidade que insiste em se voltar para nós. Com um pouco de obstinação, entenderia essa vontade indômita para com o tempo, o espaço, as coisas belas e sujas que encontramos ao longo do caminho. Tamanho conhecimento teria grande valor para medir as ideias mais sublimes, que se desmancham no ar feito algodão doce tomando vento.

Essa experiência do dia zero ao dia final acontece tendo a companhia constante de incertezas, dúvidas e suspeitas. Não, não é pessimismo. Tanto mistério pode ser ainda mais interessante. Só que um tantinho de fatos definitivos não fariam mal a ninguém. A própria narrativa histórica agradeceria se a verdade tivesse um lado, pelo menos uma vez na história. “Em cada lago a lua toda brilha porque alta vive”. Procure a referência.

Na metade do caminho (ou antes ou depois), você se dá conta de tudo que ainda não aprendeu. Pode ter a ver com as suas escolhas – algumas vezes tem mesmo –, mas é provável que uma imagem qualquer de você mesmo tenha se projetado no primeiro muro ou espelho que se lhe atravessou. Sem mais, nem menos. Único e igual a todo o resto. A vontade foi ainda mais forte do que nas oportunidades passadas. Olhando com cuidado, meio que de repente, parece ser o momento certo para colocar tudo em perspectiva. E é o que se dá neste exato instante. Precisão. Paixão. Amor.

Por um momento ou dois, você ainda insiste em culpar o destino. Eu, particularmente, já deixei de fazê-lo há tempos. Na maioria dos casos, culpas ou responsabilidades só adiam a leitura do contexto, cegam-lhe os olhos feito spray de pimenta em manifestações de rua. Não tenho interesse em visitar sinas e esquinas mais do que uma vez. Tomando fôlego, a odisseia será menos heroica e mais cotidiana. Alguém continuará tramando os tapetes que nunca chegam ao fim porque o personagem principal ainda está perdido, qual o filho que volta para casa depois dos 30 anos.

Quem não encontra respostas ou definições continua a tecer crônicas. Nisso eu acredito.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 22/06/2017.