De uma aquarela

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Na Aquarela de Toquinho, ele conseguiu de passar uma América a outra num segundo: bastava girar o compasso e, en voilà!, um mundo de presente. Eis o que acontece quando a imaginação toma conta, definindo rumos como quem navega, virtualmente ou não. “Um barco a vela branco, navegando, é tanto céu e mar num beijo azul”. A única história humana é, em si mesma, uma história de viagem. Cada descoberta é um caminho que se apresenta. As terras, apesar das fronteiras ilusórias e extremamente militarizadas, são locais de chegadas e partidas, encontros e reencontros. O mesmo chão une o garimpeiro e o latifundiário; as diferenças estão no modo de olhar essas paisagens. Sob a terra, a sete palmos, daí mesmo que quaisquer distinções se apagam. Se deixar, a areia vai tomando conta… qual o deserto em expansão, quais as dunas roubando um tantinho das avenidas litorâneas, qual o tempo simulado numa ampulheta. “E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar”. Tempo. Espaço. Ou uma coisa ou outra. Ambas deixando claro que não existe fuga de si mesmo. Na América ou na África, ainda seremos viajantes. Imigrantes da própria Terra, expatriados no único lugar que poderíamos ter nascido. Visionários ainda esperando a chegada do avião rosa e grená. “E se a gente quiser, ele vai pousar”.

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Mequetrefes

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Algumas histórias de amor têm significados muito maiores do que realmente deveriam. Como aquele que se dá ao luxo de não ter conteúdo. Sendo assim, esta narrativa não é uma crônica de amor. E, sim, de sua ausência. Para os solitários, a companhia omissa está sempre aí porque nunca houve uma separação formal. Sem alianças, tampouco desenlaces. Não importam a temperatura na região e a vitória do time de futebol local. São irrelevantes apresentações musicais em véspera de natal e filmes antigos exibidos no parque municipal. Danem-se comícios públicos de prestidigitadores em busca de votos e larápios buscando redenção na entrevista transmitida pela televisão. A ausência do amor pode permanecer até mesmo numa relação íntima, ultrajada pela singularidade de uma noite apenas ou ainda naquele longo relacionamento que se transformou em prolixas horas de fastio e desencanto. Aos verdadeiros amantes e poetas cabe cumprir suas sinas, escovando os dias neste eterno alisar d’alma. Toda a sujeira ficará contida em tumbas infinitas, arremessadas, por fim, em direção à galáxia desconhecida. Estes são sinais evidentes, absolutos e definitivos de que os mequetrefes não serão sequer coadjuvantes nas historíolas amorosas. Porque não há recompensa boa para quem só deseja não-ser.

Ideias simplórias

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Ideias simplórias acompanham a humanidade desde os tempos imemoriais, ainda que ninguém mais se lembre disso. Quando a mente humana quis algo para além da sobrevivência, estes pensamentos iniciais tomaram forma – a maioria, contraproducente. Vai daí que os eventos naturais, como a chuva, o raio e o vento ganharam ares místicos. Astros siderais, como o Sol e a Lua, transformaram-se em deuses. E ante o poder de uma tempestade de areia ou um furacão, aquela nova espécie de animal pensante se sentiu pequena demais. O mundo das ideias lhe abriu muitos caminhos, propiciou-lhe a expansão e a migração por todo o globo, mas também transformou o substantivo medo num adjetivo para tempos incertos. Muitos outros deuses, mitos, lendas, imperadores, reis e presidentes depois, damos com nós mesmos, avassalados por uma tecnologia global, conectando idiotices e irracionalidades como quem flana sem eira nem beira. E as ideias simplórias retornam, dividindo a realidade entre o certo individual e o errado coletivo. Ansiosos que são desde que pisaram neste planeta pela primeira vez, os humanos partem logo para o confronto. Mesmo com uma história gigantesca e fascinante a lhes servir de exemplo, insistem que a unilateralidade os salvará do caos. E, tolos que só eles, deixam de lado as questões mais ancestrais, que lhes definem neste preciso e precioso momento. Nos discursos salvadores, as desigualdades apareceram somente hoje; a miséria humana é uma questão menor porque os inimigos (da pátria, da sociedade, dos bons…) estão aí prejudicando a todos, com suas falsas ilusões. Ideias simplórias acompanham a humanidade em seus piores momentos, transformando pessoas comuns em deuses ou monarcas absolutistas. Promoveram tiranos nos dois lados do Atlântico, como também ali nas imediações do Pacífico e do Índico. Fizeram matanças horrendas de nativos na América e na África. Colocaram milhares ou milhões de mulheres na fogueira chamando-as de bruxas. Exterminaram sistematicamente judeus e ciganos nas câmaras de gás. Tiraram as riquezas de povos deixando-os em guerras civis que parecem não ter fim. Quem acredita numa ideia simplória nunca olhou a si mesmo em sua completa, total e absoluta insignificância.

Tragédia vs Comédia


Assistir a uma comédia que não faz rir pode ser lamentavelmente pior do que uma tragédia que não comove.

Shakespeare, aquele gênio de outrora, no entanto, mesclava tragédia e humor como ninguém, vide o fato da divertida “Ama” de Julieta no clássico A Excelentíssima e Lamentável Tragédia de Romeu e Julieta (como a peça foi chamada numa de suas primeiras publicações): trata-se de um feliz revide do bardo aos que pregavam um classicismo demasiado.

Foi como se o poeta soubesse na medida correta o grau demodè que a tradição teatral clássica grega trazia consigo. Shakespeare deve ter lido alguns deles, provavelmente Sófocles, Eurípedes, Ésquilo, entre outros. E, com tais leituras, sentiu que aquela separação de gêneros – Comédia vs Tragédia – já não fazia tanto sentido como dantes. Mas, além de tudo, Shakespeare ainda é narrativa! Suas personagens, desde o louco monarca (Rei Lear) ao ciumento mouro (Otelo), têm seus enredos definidos e definitivos, ainda que isso não signifique o fim das interpretações culturais.

O dramaturgo de Stratford soube no exercício de sua escrita o quanto a tradição pode ser útil quando se quer buscar algo que a ultrapasse em excelência, mas nunca em essência. Assim, temos o aprofundamento da matéria humana, nunca uma negação.

Aristocratas de ontem e hoje


Quando saíram as primeiras críticas sobre Leite derramado de Chico Buarque, comumente li comparações com o texto de Machado de Assis.

As semelhanças do tom íntimo e pessoal com Memórias Póstumas de Brás Cubas, bem como a narrativa em primeira pessoa que revê a própria vida propositadamente de forma desordenada podem até mesmo convidar à comparação, ‘inda que os textos em si caminhem por vias inteiramente distintas.

Brás Cubas é o cínico bon vivant, irônico para com a vida, aquele que não perdoa coxa e bela, que reclama daquela que o amou durante quinze meses e onze contos de réis. Já Eulálio d’Assumpção regozija-se de seu passado nobre, condescendente com a história do país e com as tramas particulares que já lhe confundem a memória, a mente a lhe pregar peças constantemente – coisa que para um morto feito Cubas é praticamente impossível. Brás Cubas é um defunto autor, ciente do que viveu e de como percebeu o mundo; Eulálio é um enfermo centenário a lidar com o peso da idade e que sente particularmente os inglórios dias idos e vividos. Ambos, porém, são aristocratas que se inserem num mundo de aparências e pequenas vaidades, coisa “suptil” como o “p” d’Assumpção.

Não obstante a contemporaneidade de Leite derramado, Chico Buarque também se aproveita de uma estrutura coloquial, posto que seu alter ego literário está a falar com aqueles a seu redor, seja sua filha, as enfermeiras ou outros funcionários do hospital no qual se encontra.

Há uma distância entre Chico Buarque e Machado de Assis evidenciada nas épocas de seus escritos. Memórias Póstumas de Brás Cubas foi publicado em livro no ano de 1881, oito anos antes da Proclamação da República, quando o realismo despertava nas artes brasileiras. Já Leite derramado está mergulhado na mal chamada pós-modernidade, quando tudo se torna tão duvidoso quanto a memória vivida por um ancião.

Shakespeare e seus tradutores


Traduções são essencialmente interpretações. Shakespeare só é Shakespeare em inglês. Tudo o mais são versões de outras pessoas para suas peças, por mais fiel que o texto possa ser. Isso, no entanto, não é motivo para qualificar a tradução como uma obra menor em relação ao texto original. Pelo contrário. Fugiu-me agora o autor, mas certa vez li que as pessoas que liam os livros traduzidos do bardo, por vezes, compreendiam-no melhor que no original, justamente por já ter sido passado uma espécie de atualização daquela escrita antiga.

E, no mais, a obra “original” em si já é uma interpretalção d’ algo. Tudo são versões e versos. Ainda que o estudo e comparação de traduções e originais não seja de minhas leituras freqüentes, resolvi analisar dois tipos essenciais de traduções:

1 – Aquelas que procuram ser fiéis à epoca em que foi escrita a obra e seu contexto.

2 – Aquelas que trazem para o imaginário local (por exemplo, da Inglaterra para o Brasil) as nuances da história. Nesse segundo formato, lembro de ter lido uma adaptação de Alice no país das maravilhas pela Ana Maria Machado na qual as cantigas da personagem principal eram canções da MPB. Ana Maria, por sinal, já fez adaptações infanto-juvenis para as peças do bardo (que não são traduções no sentido estrito da palavra).

Dito isso, resolvi fazer uma pequena lista de tradutores com base no texto da própria tradução e não comparando-a com a obra original:

– Millôr Fernades
Creio que jamais li uma versão tão boa quanto a do seu Hamlet! Sua fala é agil, versátil e impiedosa. O texto é direto, com vocabulário ao mesmo tempo rico e coloquial. Millôr procura tornar a escrita mais adequada à teatralização. O texto flui saborosamente. (Exemplos: Hamlet, A Megera Domada)

– Barbara Heliodora
Sua tradução de Romeu e Julieta é fantástica! E minha versão preferida, diga-se de passagem. Traduz verso em verso e prosa em prosa. Respeita o estilo e forma do original. (Ex: Toda a obra e o livro “Poemas de Amor de William Shakespeare”)

– Onestaldo de Pennafort
Riqueza de palavras e a linguagem poética muito bem resolvida (vide sua versão de Romeu & Julieta).

– Carlos Alberto Nunes
Estabelece um padrão de equilíbrio entre o estilo antigo e atual. (Quase toda a obra ou toda)

– José Roberto O’Shea
As traduções de José Roberto O’Shea, segundo o próprio autor, se destinam ao público de teatro e aos leitores em geral também, fãs de Shakespeare. As notas dos seus livros são sempre no final de cada Ato, assim não atrapalham a leitura do texto caso não se queira ler. Texto para ser falado e interpretado. (Antônio e Cleópatra, Editora Mandarim)

– Beatriz Viégas-Faria
Texto modernizado e enxuto. Preserva um pouco o ideário da época da escrita shakespeareana. Confesso que gosto das traduções da Beatriz. Acho o texto dela atual, mas sem perder um certo estilo de escrita renascentista. Não é nada de gramática, mas sim de sensação. Já li todos os traduzidos por ela da L&PM e gostei tanto quanto dos que foram traduzidos pelo Millôr na mesma editora. Enfim, acho que quem se arrisca a traduzir Shakespeare deve ter um objetivo textual coerente. E a Beatriz, parece-me, o tem. (Comédia dos Erros, Trabalhos de Amor Perdidos e outros)

Término

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Eles terminaram porque já não traziam um para o outro palavras sem compromisso. De um jeito só deles, aceitavam os silêncios como uma necessidade básica, essencial para o convívio diário. Um respiro. Ainda assim, não eram silêncios absolutos ou por falta de assunto. Havia um sentido incontido ali, mesmo que oblíquo ou irracional. Era um não-falar ainda maior que um bem-querer. E até esses silêncios se quebraram ao término de tudo. Não, não era de tudo. Algumas possibilidades se romperam, é bem verdade. Mas não a totalidade de seus dias unidos. Quaisquer que fossem os destinos de ambos, o passado jamais se apagaria por completo. As memórias, os sentimentos, os acontecimentos ficam e ficarão para sempre nalgum lugar dessa coisa chamada existência. Existiram juntos como o farão separados. Cá como lá, a narrativa conjunta e suas versões ainda terão vez quando o historiador desconhecido terminar sua história universal. De longe, continuam a se reconhecer – só não há mais oportunidade para tanto. Os cheiros permanecem iguais apesar dos perfumes que não são os mesmos de antes. Um travesseiro vazio em cada casa; as toalhas com os nomes bordados já não ficam mais umas sobre as outras. Dois. Um. Esquecem aos poucos as rotinas compartilhadas. Sem esbarrão de manhã cedo na hora de escovar os dentes. A escolha da programação televisiva fica mais fácil e menos divertida. Um filme passando de um lado da cidade; noutro canto, uma partida de basquete enche a tevê e alguma sexta-feira vazia. Nos telefones pessoais, só ficou a ausência de contato. Nenhum deles ligará avisando que se atrasou no trânsito; tampouco mandará recados engraçados tão somente para encurtar as distâncias. Distantes como antes de se conhecerem. Já não podem ser mais estranhos ou íntimos. Dividiram seus próprios corpos que, em curtos e prazerosos momentos, formavam uma única entidade carnal. Hoje, mal sabem de si. Terminaram porque tinha de ser; e foi tão sem sentido como quando se conheceram.

Machado em outros idiomas


Sobremaneira interessante o ensaio de Susan Sontag no livro Questão de ênfase sobre Machado de Assis e Memórias Póstumas de Brás Cubas intitulado “Vidas póstumas: o caso de Machado de Assis”.

Curioso saber que na edição para o inglês a obra do escritor brasileiro recebeu o “título despropositado e interferente de Epitaph of a small winner [Epitáfio de um pequeno vencedor]”, conforme a citação da autora. Quiçá os editores estrangeiros tenham sido influenciados pelo provérbio Machadiana “Ao vencedor, as batatas”.

Em todo o caso, a autora ainda comenta sobre o fato de Machado ser pouco conhecido fora de sua pátria e que é difícil para os latinos admitirem que o maior escritor abaixo da linha do Equador escreve em português e não em espanhol.

Ficamos com os detalhes

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Basta um recorte, um fragmento, uma pequena oscilação de timbre para surgir o impensável, a descoberta, um novo ritmo que faz todo o sentido. O que mais encanta na história de maçã caindo na cabeça de Isaac Newton é a simplicidade. Lenda ou versão exagerada da realidade, aí estão as leis de Newton quais pioneiras indispensáveis quando o assunto é gravidade. O mesmo se dá com inquietações d’alma, coisas que elevam-nos o espírito ou, ao menos, deixam tudo ainda mais interessante mesmo que a experiência seja francamente materialista-existencialista. Na literatura brasileira, caso dos mais notáveis é o de Inácio, personagem de Machado de Assis no conto “Uns Braços”. Adolescente na efervescência de seus quinze anos, Inácio súbita e incontidamente se encanta pelos braços de D. Severina, esposa do solicitador Borges. Às refeições, os braços desnudos da mulher que já gastara todos os vestidos de mangas compridas. Um jovem é um jovem e isto basta. Braços lhe bastam, mesmo que não lhe abracem. “Nunca ele pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo”, alerta-nos o narrador. Uma sutil minúcia que aproxima cronistas e contistas dos físicos mais relevantes. A cada olhar, a possibilidade de uma ruptura, da sinestesia a confundir o especialista pós-graduado. A verdade é que não sabemos quase nada de tudo. Por isso, ficamos com os detalhes. Por isso, tantas variações de um mesmo tom.

A anti-comédia romântica do bardo


Parece que o texto de Trabalhos de Amor Perdidos é um dos mais bem acabados que Shakespeare nos legou. Com seus inúmeros jogos textuais e de conteúdo, vide o “golpe dentro do golpe” que é o encontro dos mascarados, Trabalhos… possui a inequívoca sutileza de uma comédia romântica com um desfecho que a torna, ao mesmo tempo, a anti-comédia romântica do bardo.

As personagens da peça enganam umas as outras, a si mesmos e a nós (leitores / espectadores). É Shakespeare inventando o humano com suas venturas e seus defeitos, tornando-nos uma espécie como nenhuma outra e como ninguém jamais propusera.

Na tradução da Beatriz Viégas-Faria, esse trabalho do autor fica muito claro e de leitura saborosa. E é interessante lembrar que Shakespeare não escreveu, a priori, suas peças para a leitura, mas sim para que fossem encenadas. Essa mudança de meio (que é a mensagem, nas palavras de Marshall McLuhan) sem perder a qualidade implica na genialidade do autor.

Volume único


Ouço passos ao longe. Não, estão mais perto. Pertinho. Estou sozinho em casa. Nenhum ranger de madeira, tampouco o vento assoviando. Apenas os passos. Pequenos passos. Como os de um boneco ou de uma criança. Abro os olhos. Tateio em busca dos óculos. Felizmente, não estão distantes da minha mão. Ainda não voltei a enxergar porque está tudo escuro. Desde pequeno, só consigo dormir no mais completo breu. Encho meus pulmões de ar. Exalo um frescor quente no ar frio da noite – uso um creme dental singular. Deixo a cama, estico o meu braço e ligo o interruptor.

A imagem se revela. O espanto. O horror. Uma cena para morrer de rir. Na estante dos meus livros, um exemplar está inquieto e olha para mim tão assustado quanto eu narrador. Não consigo identificar a edição. Também pudera: aquela mistura de capa dura, folhas e um corpo vagamente humano como que lhe deturpou a capa. Num átimo de rebeldia imaginativa, penso que suas orelhas de livro podem fazer as vezes das humanas. Quase sorri, mas questiono taxativo:

– Você existe ou só estou imaginando?

O livro para de andar na borda da prateleira. Deduzo que ele estava querendo descer, talvez chegar ao solo e fugir daquele lugar no qual todos os seus semelhantes se encontram quietos, inertes, ansiosos para se aventurar nas palmas das minhas mãos. Ele me responde – ou quase.

– Quero ser lido!

Não entendo de primeira. Ao ver minha expressão duvidosa, ele repete a frase inicial e se prolonga numa ampla explicação.

– Quero ser lido, oras! Estou aqui há anos, aguardando uma oportunidade de minha existência fazer algum sentido… mas nada! Já nem lembro a última vez que você me tirou da estante. Sim, sim, você tira o pó de mim de tempos em tempos. No entanto, sequer me folheou sem outra intenção que não a de procurar por traças! Eu mereço muito mais que isso. Sei que você me encontrou num sebo, mas saiba que sou tão digno quanto os outros. Não queria te acordar. Só decidi mudar de lugar. Percebi que você tem uma prateleira de “livros em uso”, e estava a caminho dali. É o que quero e ninguém há de me impedir.

Noto em seus olhos a fúria dos esquecidos. Decido amainar.

– Hum, certo. Talvez eu tenha sido um tanto injusto com você. Mas preciso que pare com isso agora. Amanhã, tenho um compromisso logo cedo e preciso dormir. Fique onde está que vou ter contigo à noite. Prometo que o lerei, independente de seu conteúdo.

O livro revira os olhos, mas assente como que a contragosto. Firmamos um acordo de cavalheiros, penso eu.

Na manhã seguinte, saio de casa logo cedo. O encontro literário da madrugada não está em meus pensamentos. Faço o que tenho de fazer e volto para casa. Ao entrar na sala, uma revelação: centenas de livros da minha estante desapareceram. Antes mesmo de descobrir o que aconteceu, deduzo que todos eram não lidos. Chego mais perto da mesma prateleira na qual o livro se exaltara comigo. Há um bilhete, escrito com letras de forma – bem típico de um exemplar raro e antigo: “Esta não foi a primeira vez que você prometeu ler um de nós. Sua palavra já não vale mais. Por isso, decidimos ir embora para a biblioteca municipal. Não tente nos reaver. Sem mais. Assinado: Volume único”.

 – Pela primeira vez em minha vida, penso que não se pode confiar totalmente nos livros.

 

À maneira de Shakespeare


Shakespeare, segundo alguns autores, não seria incluído no estilo literário renascentista, mas sim no “Maneirismo”. Este último seria caracterizado por tentar a conciliação das heranças medieval e renascentista, fundir o cômico e o trágico, colocar uma natureza dupla do herói, pela presença do grotesco e o convívio dos elementos realista e fantásticos. Nesse sentido, a obra de Shakespeare & Miguel de Cervantes (que, não por acaso, aparecem tardiamente no que chamamos de “renascimento”) seriam encaradas como pertencentes ao maneirismo.

Basta nos lembrarmos da comicidade da ama da tragédia Romeu & Julieta, o drama fantástico e presente de Hamlet que enxerga o fantasma de seu pai, a presença do grotesco em seus vilões como Ricardo III e, mesmo, na trama carnívora de Titus Andronicus.

Não sei em relação à Espanha de Cervantes (talvez o país mais católico de então), mas a Inglaterra protestante do bardo possibilitaria uma condição sine qua non para sua obra ter sido assim feita. E a Inglaterra ainda possui uma identidade particular que pode ter feito toda essa diferença na hora do nosso amigo de Stratford ter escrito suas peças. Segundo Eduardo Dowden, em Característicos da Literatura Isabelina, a confluência do protestantismo com o renascimento possibilitou o florescimento de idéias e sugestões com um pé no mundo material e outro no mundo espiritual. Se Shakespeare pode ter vindo de um família católica, conforme aponta F. E. Halliday no livro Shakespeare – Vidas Literárias, isso só corrobora como essa duplicidade está presente em sua obra.

Seja como for, a classificação de suas obras como pertencentes ao “Maneirismo” ou ao “Renascimento” não conseguem apontar a verdadeira categoria na qual nosso ilustre dramaturgo se encontra: a dos gênios.

Titus


A tragédia Titus Andronicus é, indubitavelmente, a mais sangrenta peça de Shakespeare. Talvez, supomos, à época de sua feitura, o bardo ainda não teria “pegado” o jeito para o texto trágico. Entretanto, convém ressaltar que a “crueza” das cenas não são meros detalhes estilísticos de um autor em formação. Há, claramente, a sugestão acabada de uma narrativa densa, da qual o leitor ou, à época, a plateia não possuía a menor chance de respiro. Menor ainda é a chance de imaginar um final harmonioso. Deixemos de lado a expressão “final feliz”, pois.

Analisar comparativamente o pensamento ocidental atual com o da Inglaterra do bardo, seria não outra coisa que anacrônismo (ainda que a “ideia” do que somos seja devida em boa parte – talvez, a melhor e mais interessante – ao homem de Stratford).

É de se admitir que as mazelas sociais eram parte do cotidiano da urbe londrina. A capital do reino sofria com as idas e vindas da peste, motivo pelo qual ora os teatros estavam abertos, ora com as portas lacradas, já que eram locais de fácil transmissão da doença. As condições de higiene eram lamentáveis e a violência entre as classes mais desfavorecidas (já àquela época, a grande maioria da população) corria solta. Marlowe, aliás, contemporâneo de Shakespeare, morreu numa simples briga de bar. Isso, sem contar as disputas de poder internas, que visavam destronar a rainha, bem como externas, como a esmagadora vitória sobre a Invencível Armada espanhola.

Não por menos, temos cá hoje a ideia de que o “estômago” inglês elizabetano estava mui preparado para uma trama assim tão sanguinária, com menos recursos visuais, mas ainda assim fazer inveja aos filmes do Quentin Tarantino (dos quais eu, particularmente, vejo muito de Shakespeare, principalmente em Cães de Aluguel).

Trecho (Cena III, ATO V):

(Entram Tito, vestido de cozinheiro, Lavínia com um véu no rosto, o menino Lúcio e outras pessoas. Tito coloca os pratos na mesa.)
TITO — Gracioso imperador, sois mui bem-vindo. Bem-vinda sois, rainha temerosa. Guerreiros godos, salve! Salve, Lúcio! Saúdo a todos. Muito embora seja pobre a comida, há de satisfazer-vos. Começai, por obséquio.
SATURNINO — Qual a causa de vos vestirdes, Andrônico, assim?
TITO — Para ter a certeza de que nada há de faltar para condignamente servirmos Vossa Alteza e a imperatriz.
TAMORA — Meu bondoso Andrônico, muito gratos vos ficamos por isso.
TITO — Vossas Honras realmente o ficariam, se soubessem quanto em meu coração se passa agora. Meu nobre imperador, resolvei-me isto: Teria procedido com acerto o impetuoso Virgínio, ao dar a morte com a própria mão à filha, por ter sido manchada, desonrada e deflorada?
SATURNINO — Sim, Andrônico, com acerto.
TITO — E as vossas razões, grande senhor?
SATURNINO — E que a donzela sobreviver não deveria à própria desonra nem as dores reavivar-lhe.
TITO — Forte razão, possante e decisiva. Exemplo, precedente, penhor vivo para que eu, infeliz, o mesmo faça. Morre, morre, Lavínia, e o teu opróbrio, com ele morre o opróbrio de teu pai. (Mata Lavínia.)
SATURNINO — Bárbaro, desumano, que fizeste?
TITO — Matei quem me deixou sem vista os olhos. Tão desgraçado sou quanto Virginio, e mil razões mais que ele tenho para perpetrar este crime. Já está feito.
SATURNINO — Como! Ela foi violada? Então revela-nos quem foi o autor desse ato.
TITO — Vossa Alteza não quererá comer? Desdenha o invite?
TAMORA — Por que matar o pai a própria filha?
TITO — Não fui eu que a matei, porém Demétrio com Quirão juntamente. Após haverem dela abusado, a lingua lhe cortaram. Eles, apenas, lhe fizeram isso.
SATURNINO — Ide buscá-los; imediatamente! TITO — Ora, ora! Ambos estão naquela torta com que a mãe deles tem-se regalado, comendo, assim, a própria carne que ela mesma engendrou. E certo, é certo; atesta-o a ponta aguda desta minha faca. (Mata Tamora.)
SATURNINO — Morre, louco, por essa ação maldita! (Mata Tito)
LÚCIO — Não pode ver o filho ao pai sangrante, sem que a retribuição dê num instante. (Mata Saturnino. Grande tumulto, O povo se dispersa em confusão. Marco, Lúcio e seus partidários sobem à janela.)

Diálogos pós-socráticos

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– Você já pensou em escrever um diálogo de verdade?

– Escrevi vários.

– De verdade?

– Sim, realmente escrevi.

– Suponho que eles sejam reais, pois confio no que você diz. O que quero saber é se os diálogos eram de verdade. Essencialmente verdadeiros.

– Aí, talvez, a resposta seja impossível. Ou, no mínimo, improvável no aspecto da satisfação plena. A verdade por si só gera tanta controvérsia! Imagina um diálogo que se queira verdadeiro.

– Mesmo assim, acreditas que já o escreveu?

– Acredito.

– Por quê?

– Sou uma pessoa verdadeira.

– Dizem por aí que você é cronista, daqueles que valorizam o instante muito além do tempo.

– Não sei o que dizem, nem como dizem. Entretanto, escrevo, sim, crônicas. Algumas sobre o agora que acabou de passar, outras sobre um entendimento (ou a busca dele) de um período no tempo qualquer. Imagino que Chronos nunca foi um deus pontual até porque ele sempre existiu, daí que não se atrasou nem mesmo para o início ou o fim de tudo.

– Você está dizendo que o tempo total já aconteceu?

– Sim. E continua a acontecer num eterno retorno. Mesmo esse nosso diálogo já se deu tantas vezes que só o infinito é capaz de contar.

– E em todas as vezes esse diálogo terminava numa crônica?

– Não sei se te entendo como deveria.

– Se assim o for, qual o problema? Os maiores mistérios de nossa espécie surgiram por meio da conversa. E até que convivemos bem com isso.

– Eu sei. Não é um problema. É só uma questão de perspectiva. Como quando Platão colocou no papel as palavras de Sócrates. E se ele entendeu tudo ao contrário? Mais ainda: Imagine Platão alterando as ideias socráticas só porque pareciam melhor daquela forma no papel.

– Qual o quê! Eu não tenho nenhuma pretensão de que alguém me compreenda do jeito que se compreende Sócrates, Platão ou qualquer outro filósofo. Apenas gosto de falar bastante.

– Ainda assim, um dia vou escrever uma crônica sobre isso e vão te entender totalmente de outra forma. Talvez de uma forma muito mais minha do que sua. Só posso te prometer que farei o melhor que puder nesses nossos diálogos.

Quem escreveu as obras de Shakespeare


Existem registros concretos de que existiu um William Shakespeare nascido em Stratford-upon-Avon e estes se encontram preservados até os dias atuais. O fato é que os dados sobre Shakespeare são poucos. E pouca informação gera milhares e milhares de teorias. Que ele não tinha cultura para tanto, que o seu texto era muito parecido com Marlowe, Francis Bacon, etc, etc.

Nem mesmo seu rosto é consenso. Há poucos anos, a jornalista canadense Stephanie Nolen anunciou a descoberta de uma pintura de 1603 que seria então o único retrato legítimo do bardo. Depois de ser publicada pelo jornal “The Globe and Mail”, a reportagem tornou livro intitulado O Rosto de Shakespeare, publicado em 2004 no Brasil. Stephanie Nolen busca identificar em que medida um quadro com o tal novo rosto de Shakespeare, cujo atual dono é um canadense e vizinho da mãe da jornalista, poderia ser considerado como a única pintura do bardo feita em vida. O livro possui uma reconstituição de época interessante e revela alguns detalhes e sugestões de como pode ter sido a vida do nosso prezado Will.

Já o o espanhol Fernando Martínez Laínez vai mais pelo lado da imaginação no capítulo O homem que pode ser Shakespeare de seu livro Escritores e Espiões, no qual aborda onze autores que teriam uma outra atividade além da escrita. Laínez aponta que Marlowe teria forjado a própria morte para continuar escrevendo sob o pseudônimo William Shakespeare. E tudo porque Marlowe era espião.

Para se responder a questão “Shakespeare era Shakespeare?” é preciso ter fé, acreditar, ponderar e opinar sobre o que temos de informação sobre o tema. No entanto, quaisquer dúvidas sobre a figura do dramaturgo não interferem no que é mais precioso: sua obra. Se é importante saber quem a escreveu? Suponho que sim. A vida de um autor sempre tem importância naquilo que lhe é creditado. Shakespeare escreveu no tempo certo as palavras certas, por isso é tão difícil alguém superá-lo.

Alguém foi Shakespeare, independente se foi o próprio Shakespeare ou outrem. E é esse alguém que é o Shakespeare que conhecemos hoje.

O resto é história. Ou melhor, literatura.

A história vive da palavra


A história nada mais é do que interpretações. O que fica sempre, pois, é o texto. Tanto que, por isso, considero todo e qualquer texto uma obra literária e, por sua vez, literatura. Daí a importância até os dias atuais, mesmo em tempos de internet, da palavra escrita. E, com a permissão do escritor argentino Jorge Luis Borges, uso de suas palavras sobre o livro para ilustrar meu argumento:

“Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida o livro. Os demais são extensão do seu corpo… Mas o livro é outra coisa, o livro é um extensão da memória e da imaginação”.

E o que nos coloca nesse mundo que não seja a imaginação e a memória? O próprio Borges, por sinal, que tantas vezes falou de Shakespeare, afirmava a universalidade do bardo devido ao seu não ser inglês, no sentido em que Shakespeare era/é o menos inglês dos escritores da Inglaterra e por isso é seu símbolo máximo. Da mesma forma, Borges cita Cervantes como ícone da Espanha, sendo o menos espanhol de seus escritores.

Se a história vive da palavra, então talvez a leitura seja sua complementação inerente.

Shakespeare romântico?


Primeiro, suponho, precisamos diferenciar o que é dramaturgia e o que é romantismo. Aquela é todo escrito para teatro, enquanto este vem a ser um estilo literário de um determinado período (ainda que esses períodos literários não sejam tão claros como quando os estudamos para o vestibular).

Em segundo, apesar dos sentimentos românticos nos textos de William Shakespeare serem tratados com esmero, o mesmo pode ser dito em pró de outros elementos, como os filosóficos, os dramáticos, os históricos, etc…

Ainda que o bardo não seja considerado um autor romântico como pede o figurino (aqui um jogo de palavras proposital para com o teatro), vale comentar que os românticos se inspiraram largamente em Shakespeare para escrever suas histórias. É muito comum a citação de Romeu & Julieta, principalmente, em trechos de poesias ou capítulos de romances.

Além disso, os românticos são responsáveis (claro que não isoladamente) por um reavivamento dos textos de Shakespeare. Trocando em miúdos, talvez seja no romantismo que Sir William seja definitivamente colocado como clássico!

A história nas entrelinhas


Existe uma visão-versão de estudos acadêmicos embasados em textos de literatura cujo objetivo é entender a história principalmente nas entrelinhas. Como fosse possível submergir temporalmente na época em que se passam os textos literários.

Em meandros, não haveria divergência entre reconhecer, por exemplo, o Rio de Janeiro da belle époque seja através das análises e dissertações sobre o tema (incluindo aí toda documentação disponível da própria época) seja através de textos literários, como os contos, romances ou crônicas – para ficar apenas nos gêneros mais usuais – de um Machado de Assis.

Evidentemente, separar o joio do trigo no que concerne ao entendimento histórico não é qualquer coisa simples, feito uma leitura de entretenimento dessas disponíveis em bancas de revista (como o “Sol” de Sem lenço, sem documento do Caetano Veloso), ainda que tais magazines tenham a mesma importância histórica naquela praia do debate cultural.

O livro 1808, de Laurentino Gomes, é uma grande reportagem com rigorosa pesquisa de fontes sobre a chegada da família real no Brasil. Já O último dia de Cabeza de Vaca, de Fábio Campana, é uma ficção cuja narrativa se dá através das palavras do presbítero Francisco Paniágua, que teria estado com o navegador espanhol Don Álvar Núñez Cabeza de Vaca  em seus derradeiros dias, revendo seus feitos e malfeitos. As ideias de identificação histórico-narrativa se dão em ambos os volumes com aquela intenção de envolvimento historiográfico.

Sonho de uma noite de Primavera


No livro “Sonho duma noite de S. João”, traduzido por Castilho, temos uma interessante explicação sobre a titulação da obra. A seguir, trechos da nota (escrita de facto por Victor Hugo) a qual o tradutor se utiliza para justificar a escolha do título:

Midsummer não significa propriamente o meio do Estio. Não é um prazo incerto do ano.”

Midsummer é um dia de festa, inteiramente britânico, marcado no calendário protestante no dia 24 de junho, isto é, no começo do Estio, correspondente ao S. João no calendário católico”.

“Muitos comentadores por desatentarem nesta explicação dada pelo próprio poeta, fantasiaram que por este título “Midsummer night’s dream”, quisera ele especificar o prazo em que o enredo da comédia se passava. A prova de que andaram errados neste juízo, é o cuidado com que o autor nos precaveu, por boca de um dos interlocutores, de que a acção se dá no começo de maio. Quando Teseu descobre na mata maravilhosa os quatro amantes por terra a dormir, diz a Egeu que certamente haviam de ter vindo celebrar o rito de Maio, e para isso madrugaram. Portanto, não é, como geralmente se cuida, numa noite de Estio, que Botom (Canelas) e Titânia se enamoraram; foi sim numa noite de Primavera”

Descrição crônica


“Fico chocado quando vejo alguém comer melancia de qualquer jeito. Ainda ontem presenciei esta desgraça: o sujeito colocou a pobre fruta de pé, deu-lhe um talho de alto a baixo, pegou as duas metades e partiu-as também ao meio, deixando na mesa, numa poça d’água, um triste saldo de quatro pedaços que foram sendo grosseiramente escavados. Nada da poesia que o evento pede. Uma coisa feia, mal-acabada.” 

– Trecho da crônica “Da arte de comer melancia” de Flávio José Cardozo.

Estava relendo essa que é uma das melhores, se não a melhor, crônica do escritor catarinense Flávio José Cardozo. Como não chamar isso de literatura? Não é de hoje que essa questão – crônica: jornalismo ou literatura? – vem à tona. Mas deixemos este embate para outra oportunidade. O fato é que a descrição colocada no início não apenas sintetiza a essência do texto como salienta o efeito único de uma esmerada descrição. Não há como não se envolver com a narrativa.

Ler essa crônica é como mergulhar das lembranças do cotidiano; como não percebemos a miudeza maravilhosa das coisas? A boa descrição faz isso. Nos coloca dentro da cena, como se estivéssemos num jogo ao lado do juiz, mas sem interferir na partida. Descrever é, antes de mais nada, uma forma de dizer ao leitor que somos feito da mesma matéria, somos seres que sentem, ainda que de formas diferentes, o mundo a nosso redor.