Clímax, de Bruna Lombardi

Tags

, , , , , , , , ,


Flanar entre contraditórios de si ou de mim; porque não há fuga possível – pelo contrário, há sim. Uma hora ela se faz poetisa, outra poeta. Por vezes, romantiza. Noutras, decreta: o amor não tem estado definido. É bruto, é leve, é sexual e também hígido. Quem nasceu para comandar também pode se dar ao luxo de dar. Receber e brincar com a palavra, seduzir como quem o coito sucede à lavra. J’ai travaillé au max. Imagina em francês o livro Clímax! Bruna Lombardi, autora e atriz, e muito mais. Destila sensações proféticas quais gritos de “ais”. A obra é ficção, mas se completa na realidade. E se um não é não, também pode ser outra coisa dependendo da idade. O pudor contempla a si mesmo tramando receber um beijo. Os versos são inversos conforme o ensejo. Wait a little. Espere um pouco. São Paulo or Seatlle? Ser são ou louco? Agradecer aos céus, retribuir os dias idos em Paris. Desabrochar feito rosa do povo ou nobre flor de lis. Sua rede é de felicidade, sua gente é de expressão. Em todas as sertanidades, nem Diadorim é exceção. Personagem de seu próprio enredo, quiçá adorável iconoclasta? Oras, bela porque se lhe cabe, mas não lhe basta. Ela olhou para dentro, viu uma luz e deu o melhor de si. Sua escala poético-musical não começa em dó e tampouco termina em si.

> Clímax. Escrito por Bruna Lombardi. Editora Sextante, 2017.

climaxdabruna

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

Anúncios

o que o sol faz com as flores, de rupi kaur

Tags

, , , , , , ,


mulheres e homens trafegam por um mesmo espectro de dramas e tramas. por venturas e circunstâncias, existem questões de gêneros que se acumularam ao longo dos séculos e vieram ter entre si no alvorecer do segundo milênio. não é qual explosão de um vesúvio, tampouco uma sensação de alívio: ao contrário! tal encontro é quase um desvio nos caminhos, um convívio de pergaminhos. sim, a literatura, como todas as artes, une a todos. algumas nuanças apenas nos exaltam, despetalando ideias que surgem com o tempo. rupi kaur, em o que o sol faz com as flores, tem a seu favor toda essa estranheza típica de uma era que prefere o empoderamento possível ao temível poder. seu momento permite uma discussão libertária sobre temas tão antigos quanto ainda longe dos consensos. o amor, o sexo, o feminismo, o feminino, a imigração, o corpo, a alma, a natureza… tudo o que toca, tudo o que sente… e mais… porque a poesia tem das suas e explicar seus versos tão somente enseja uma possibilidade dentro de um universo sem fim. assim, entre ações e contradições, homens e mulheres se encontram porque não têm por onde. o girassol procura o astro-mor ou a si mesmo?

> O que o sol faz com as flores. Escrito por Rupi Kaur. Editora Planeta, 2018.

solfazflores

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

Revolucionários

Tags

, ,


Era um grupinho pequeno, discreto. Surgiu quase por acaso, como um poema numa noite fria. Três pessoas, no início. Depois, quase dez. Batizaram a formação à chegada da décima alma a distribuir suas palavras. O nome oficial dos confidentes, no entanto, ainda é desconhecido pelos não iniciados e tampouco posso revelar. As reuniões eram sempre de madrugada, quando a cidade cala e se refresca – mesmo no verão! Cabeças quentes não tinham vez ali. Cada encontro era marcado por decisões acaloradas, todas contrárias ao sistema. Proativos, intuitivos. A transformação como objetivo comum. Algum tempo depois, cansaram dos discursos. Partiram à ação. Planejaram a revolução com sigilo absoluto e tamanha maestria. Os atos teriam vez em lugares estratégicos. A intenção era clara: conclamar o povo ao hoje; retomar e compartilhar o que lhes fora usurpado. O dia chegou em si mesmo, rasgando aqui e acolá sem pedir licença. A nação acordou espantada. Os noticiários só falavam disso. As autoridades completamente perdidas, desnecessárias à iminência de um novo mundo. Ninguém entendera como, mas era real. Em cada bairro da nação, uma biblioteca surgira de um dia para o outro. E quem se meteria com eles a partir de agora?

Planetinha outrora azul

Tags

, , , , , , , , , , , , , ,


Podemos modificar seu bebê por um preço justo. Talvez essa frase pudesse ser o título de um conto de Philip K. Dick, um dos maiores escritores de Ficção Científica do séc. XX. Mas a realidade é que a manipulação genética já está batendo à nossa porta. Sem alarde, um suposto cientista chinês acaba modificar, em laboratório, os genes de duas garotas gêmeas. Elas nasceram há poucas semanas, em perfeito estado de saúde, após terem sido concebidas através de inseminação artificial.

O anúncio, muito apropriado para os nossos tempos, foi feito através da plataforma de vídeos You Tube. Dizem que os bebês são imunes ao vírus da Aids. Não há confirmação da notícia pela comunidade científica internacional. Não foram escritos artigos para revisão por pares. Ainda não sabemos se a história irá se confirmar. Mas não importa. De acordo com Foucault, são as próprias relações de poder que legitimam o conhecimento.

E, hoje, todo o poder às redes sociais!

O que esperar do futuro que se está configurando, nas entrelinhas, debaixo de nossos olhos, sem notas de rodapé, sem gemidos, sem cara de nojo? Tal qual comida enlatada, tal qual nossas preferências políticas ou nossas séries favoritas, agora o próprio ser humano pode ser objeto de manipulação. Não apenas sua mente, mas todo o seu ser, todo o seu aparato orgânico. Seu algoritmo interno, escrito através de bilhões de anos de feedbacks positivos e negativos da natureza, agora pode ser reescrito. Não por mãos divinas.

Mãos de barro.

Agora, em vez da mão de Deus procurar tocar os dedos humanos – como bem representado no teto da Capela Sistina – é a mão dos homens e das mulheres que puxa a mão oferecida por Deus com toda a força, em atitude de desespero, derrubando o Senhor com a cara no chão. Jeová levanta-se com a face e as vestes brancas sujas de lama.

João de Barro.

Tal qual um passarinho, de levinho. Construindo uma casa para seus filhotes. Tentando se proteger da chuva e das intempéries. O filhote do João de Barro, dos desenhos do Pica Pau, do humano cara de pau, é agora um bichinho forte, resistente à doenças mais variadas. Em breve, poderemos ir ao site da Amazon e encomendar componentes separados; um Baby Kit para montar em casa: olhos, boca, nariz, cérebro, pernas. E até orgão sexual! Quem gritar mais, leva. Ou melhor, quem pagar mais, leva mais.

K. Dick previu isso, de alguma forma, em várias obras. Mas lembro de uma em particular, Os Três Estigmas de Palmer Eldritch. Neste livro, algumas pessoas se submetem a um melhoramento genético, chamado Terapia E, no qual o cérebro – especialmente o lóbulo frontal – cresce de forma acima do normal, entregando ao seu portador muito mais inteligência que o comum. Esses consumidores do amanhã são chamados de Cabeças de Bolha.

Poderiam também ser denominados de Homens de Lata.
Caras de Lata.
Humanidade insensível. Humanidade invisível.

O que resta de humano em nós hoje? O que sobrará de verdadeiro na realidade daqui a 100 anos? Não é feitiçaria, é tecnologia. Muito em breve, humanos dotados de melhoramento genético avançado poderão adquirir uma vantagem competitiva avassaladora sobre as pessoas pobres. Os ricos, é claro, serão os primeiros a fazer esse tipo de tratamento, seja para embelezar ou turbinar seus filhos, seja para derrubar seus competidores no mercado de ações. A farinha é pouca? Meu feijão primeiro.

Darwin demonstrou que o mecanismo básico da evolução na natureza é a competição por recursos e a sobrevivência. Os mais adaptados ao meio ambiente podem deixar a miséria de seu legado à posteridade. Eu? Nada tenho, nada deixarei. Mas será que os ricos vão querer ter filhos? A tendência nos gráficos demonstra que as pessoas mais abonadas têm mais coisas a fazer da vida que os proletários. Estes, coitados! Só possuem a própria prole para deixar como herança ao planeta Terra.

Para os pobres, uma herança feita de sangue, suor e lágrimas. Sem manipulação barata. Para os 99% que gemem e fazem cara de nojo, aquele 1% do andar de cima sorri com desdém e mostra aquela cara linguaruda de Albert Einstein, em sua mais famosa fotografia. Os ricos, como borboletas, poderão sair do casulo e voar para longe desse planetinha outrora azul. Por aqui, voltaremos a ser o bom e velho planeta dos macacos.

Uma banana pra vocês!

sistina

> Esta postagem foi uma colaboração do escritor Tiago Masutti. Para conferir outros conteúdos deste autor, confira seu blog Ficção Paranoica ou siga-o no FacebookTwitterInstagram e LinkedIn.

Surfista Prateado: Parábola, de Stan Lee e Moebius

Tags

, , , , , , , ,


Assim como Stan Lee, não acredito em heróis perfeitos. A antiguidade clássica nos ensina sobre a falibilidade dos mitos; porque, sob nosso ponto de vista, não existe outra narrativa que não a humana. O cosmo pode até estar aí desde sempre, mas é nossa presença nele que desperta essa coisa chamada história. Por excelência, Stan Lee era um contador de histórias. Com drama, intuição e objetividade, criou personagens que se parecem com a gente mesmo, mas a quem coisas inacreditáveis aconteceram… como ser picado por uma aranha radioativa ou ser atingido por raios gama. A genialidade, no entanto, não está no absurdo das tramas, e sim na relação pessoal para com estes desafios surpreendentes. A vida, por si só, é esta coisa sem explicação, com tantos sentidos possíveis que fazem o destino nos escapar das mãos. As grandes histórias em quadrinhos partem dessa perplexidade existencial – e o Surfista Prateado (concebido por Jack Kirby, outro mestre da nona arte, e desenvolvido dramaticamente por Lee) talvez seja um dos maiores veículos para discutir quem somos e para onde vamos. Além disso, pasmem!, ele surfa no ar. Quando Stan Lee e o também genial ilustrador francês Moebius se reuniram para produzir uma graphic novel, pareceu inevitável que um fenômeno singular na arte contemporânea despontasse no final da década de 1980. Surfista Prateado: Parábola é menos a propósito de escolhas e mais sobre consequências. O poder (mimetizado por Galactus) e sua fascinação inerente contam a história humana do passado ao futuro. O olhar decepcionado do Surfista para com as pessoas talvez seja o resultado de sua vida solitária, ainda que urdido na miséria de nossa espécie. E ninguém escapa dessa parábola.

> Surfista Prateado: Parábola. Texto de Stan Lee, arte de Moebius, cores de Mark Chiarello e John Wellington. Abril Jovem, 1989.

stanlee

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

A origem da desigualdade entre os homens, de Jean-Jacques Rousseau

Tags

, , , , , ,


Ainda que seja uma sátira originada de uma competição, o Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, escrito pelo filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, levanta um inevitável pensamento “au modeTostines: A sociedade é corrompida pelos homens ou os homens são corrompidos pela sociedade? O texto, publicado em 1755, imagina um estado de natureza, algo instintivo, não poluído por definições sociais. Mas se a natureza é divina e a divindade é uma criação humana, no final das contas, o princípio natural colocado desta maneira também é social. Uma ideia, como outras tantas. E uma ideia não morre, mas pode se modificar. É o que acontece com homens e mulheres. Só a desigualdade parece ser sempre a mesma.

> Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Escrito por Jean-Jacques Rousseau. Penguin & Companhia das Letras, 2017.

origem

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

Constituição Federal de 1988, de Todos os Brasileiros

Tags

, , , , , , , , , , ,


Desde crianças que somos/fomos, dizem-nos para separar a política das outras esferas da vida comum. “Não misturem com futebol, com religião, com nada que cause algum incômodo”. Dizem-nos ainda para não discutir política. “Não perca amizades, parentes ou amores”. São ditos que se repetem ao longo de gerações justamente para nos ausentar de um debate que integra todos os dias de nossas vidas. A política, como a cultura, o afeto e outras incontáveis formas de socialização, tem a ver com tudo que diz respeito a nossa forma de ser humano. Querer afastá-la do nosso convívio é tão inútil quanto esperar que alguém deixe de sentir por vontade própria. Os que gostamos da boa política (aquela sem vícios de dominação) e dos grandes livros temos de aumentar nossa intimidade para com um dos textos mais importantes que nos diz respeito. A Constituição Federal de 1988 é o resultado de muitas vontades somadas; exemplo dos mais relevantes quando da inclusão social e da preservação da dignidade dos brasileiros. Desde a Constituição dos Estados Unidos (1787-1789), passando pela Constituição francesa de 1781 (que incorporou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão), os direitos e deveres de cada um de nós se ampliam para nos lembrar do quanto somos brilhantes como espécie, mas também seres finitos. Carecemos de um entendimento maior, possibilidade que, ao que tudo indica, jamais virá a ser. Ainda assim, há beleza no mistério. O parágrafo único do Artigo 1º da Constituição de 1988 determina: “Todo o poder emana do povo”. A frase é simples, direta e, até mesmo, nada poética. Mas coloca uma responsabilidade sobre nossos ombros do tamanho da história. E nos lembra de que a política está para todos nós como o amor está para o poeta: é impossível terminar esta relação!

consti

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

X-Men: Deus Ama, o Homem Mata, de Chris Claremont

Tags

, , , , , ,


Na construção do preconceito há sempre uma raiz de covardia. É preciso colocar no outro a própria insignificância para se sentir vitorioso, fortalecido em meio ao caos que é a vida. Raramente, quem se concentra no caos vê a poesia que se esconde entre as diferenças. Há tantas oportunidades no desconhecido que talvez seja assustador saber-se fora do controle. Desde sua origem, os X-Men lidam com a ideia de alteridade. Uma existência depende da outra e nela encontra sentido. Na graphic novel X-Men: Deus Ama, o Homem Mata, o roteirista Chris Claremont não transige com os intolerantes e parte logo para o confronto. O pensamento obscurantista e alarmante não se dá por meio de vilões superpoderosos, mas do cidadão comum que se unge de um ódio ancestral para ditar o que pode ser correto. Religiosidade cega, poderio militar e perseguição política culminam em extremos que se devoram um ao outro, não sem antes fazer vítimas inocentes. Sim, há sempre uma ou mais soluções. Mas o amor também tem seu contrário.

> X-Men: Deus Ama, o Homem Mata. Roteiro de Chris Claremont. Arte de Brent Anderson. Cores de Steve Oliff. Panini Books, 2014.

xmendeushomem

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

Hamlet: Poema Ilimitado, de Harold Bloom

Tags

, , , , , ,


A peça teatral A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca, escrita pelo dramaturgo inglês William Shakespeare provavelmente entre 1599 e 1601, foi urdida temas universais. Conquanto do ponto de vista ocidental, o texto como que define o imaginário e, para além deste, a própria consciência humana em suas dores e humores. O professor e crítico literário Harold Bloom, um dos maiores estudiosos e entusiastas da obra shakespeareana, busca sentidos e significados históricos neste texto que parece renascer qual fênix a cada nova leitura. E porque a humanidade ainda não encontrou sua possibilidade de convivência, parece ser mais do que legítima esta sentença: a ficção que mais se aproxima da experiência humana é, inevitavelmente, uma tragédia – no sentido da catarse apontada por Aristóteles. Ler ou reler?, eis a questão!

> Hamlet: Poema Ilimitado. Livro de Harold Bloom. Editora Objetiva, 2004.

hamlet

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

República e política

Tags

, , , , , , , , , ,


Pai, aproxima de mim este cálice do conhecimento. Em tempos de irresponsabilidade política-eleitoral, quando o fascismo se aproveita da desesperança para pregar sua peça de ódio e ressentimento… Em tempos de desdém para com o significado de uma república, quando a solução mais fácil é sempre a pior… Em tempos de ausência de amor para com o próximo, quando a empatia é do que mais necessitamos… Em tempos assim, sempre voltamos ao passado em busca de nós mesmos e de nossa espécie. Somos o que sempre fomos, com uma chance inequívoca à evolução, mas titubeando em convicções miseráveis e enganosas. Porque não há qualquer sentido sem a existência e a felicidade do outro. Podemos, outra vez, deixar o medo das sombras de lado e sair da caverna para beber de tão nobre cálice.

> A República, de Platão. Martin Claret, 2002. Política, de Aristóteles. Martin Claret, 2004.

republicapoli

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

 

 

Turma da Mônica: Lições, de Lu e Vitor Cafaggi

Tags

, , , , , , ,


É impossível definir as proporções com precisão numérica, mas uma boa parte da vida são oportunidades e outro bom tanto são consequências. No contexto, os erros aparecerem como que impondo lições inescapáveis. E aí voltamos para aquele paradigma sartreano: “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”. Na infância, as descobertas são decisivas. A turma de amigos revela algum tipo de identidade própria, como quando nos refletimos em amizades-espelhos que também estão em transformação. Turma da Mônica: Lições, dos irmãos Lu e Vitor Cafaggi, gira ao redor de uma delicada ideia de punição enquanto formadora de uma percepção da realidade. Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão têm de lidar com essa coisa emergencial chamada tristeza. Mas ela, assim como a vida, também passa.

> Turma da Mônica: LiçõesLu Cafaggi e Vitor Cafaggi. Panini Comics, 2015.

monicalicoezs

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

Chaves: a história oficial ilustrada

Tags

, , , , , , , , , ,


Bons humoristas existem aos borbotões. Já artistas completos cuja linguagem do humor é a possibilidade dramática preferida são raros. De talento extraordinário, então, fiquemos com três: em português, Chico Anysio; em inglês, Charles Chaplin; em espanhol, Roberto Goméz Bolaños, também conhecido como Chespirito (o pequeno Shakespeare, como lhe batizou o diretor de cinema Augustín Delgado). Por fazer cinema, Chaplin se arrebatou com dramas mundanos, mesmo que situados na América do Norte. O nobre vagabundo Carlitos, sua criação mais famosa, está presente em praticamente todas as culturas, com as devidas variações e adaptações culturais. Já Chico e Chespirito são essencialmente televisivos e arraigadamente fenômenos nacionais do Brasil e do México, respectivamente. Chico Anysio foi vários, alguma centenas – provavelmente o maior criador de personagens na história da dramaturgia mundial. Chespirito foi poucos, quase todos com trejeitos muito próximos. Há semelhanças corporais e de expressão muito evidentes tanto em Chaves e Chapolin (suas criações mais famosas) como em Chompiras e Dr. Chapatin, entre outros menos reprisados. Ainda assim, a qualidade do humor de suas personagens mantém quase sempre um nível alto. Como acontece com os gênios, e não só com eles, a vida traz passagens amargas. Chaplin teve de partir para um autoexílio na fase final de sua vida. Chico foi colocado de lado pela emissora que tinha seu contrato. Chespirito se viu numa trama de intrigas com seus ex-colegas de elenco, principalmente Carlos Villagrán e María Antonieta de las Nieves, por causa dos direitos de suas personagens no seriado Chaves. O livro Chaves: a história oficial ilustrada não é sobre o órfão da vila explorada pelo Senhor Barriga, mas sim sobre Bolaños. No original, o título é outro: Chespirito – Vida y magia del comediante más popular de América. Produzido pela segmento editorial da Televisa (emissora que por tantos anos sediou seus programas), a obra passa longe das polêmicas e traça um perfil biográfico de um escritor por excelência e que tendo mais de quarenta anos de idade se descobriu um astro de televisão. Coisas de mestre.

> Chaves: a história oficial ilustrada, livro produzido pela Editorial Televisa. Tradução de Mauricio Tamboni. Editora Universo dos Livros, 2012.

chavespirito

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

O Astronauta sem Regime, de Jô Soares

Tags

, , , , , ,


O primeiro livro de Jô Soares, publicado originalmente em 1985, reúne crônicas de humor que flertam e/ou vão além do surrealismo, mas sempre mantendo aquele sorriso no canto da boca. É a união do humor com a loucura, da fome com a vontade de não engordar, do anarquismo com o fim do regime – aqui, evidentemente, a palavra tem duplo sentido. No ano chave para a reconstrução de um país democrático pós o regime ditatorial, parte para o non sense e a fina ironia rebelde ao tocar em temas espinhosos, quais sejam a moral e os valores tradicionais que podem ser subvertidos quando funcionam na anedota. Seus textos são pequenos ensaios sobre como quebrar as regras sem perder a graça.

> O Astronauta Sem Regime. Jô Soares. Círculo do Livro, 1985.

joastronauta

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder

Tags

, , , , , , , , , , ,


O que mais chama atenção em Crepúsculo dos Deuses, dirigido pelo mestre Billy Wilder, é o quanto a arte pode ser pretexto para as maiores nulidades. Aproveitadores baratos (Joe Gillis) ou de alta classe (Norma Desmond) são não mais que seus próprios vilões. Anti-heróis de si mesmos na grande ilusão que foi Hollywood da primeira metade do século XX, quando longe das telas. A genialidade de Billy Wilder está justamente no que se chamaria de um “sarcasmo honesto”. Buster Keaton é o epicentro coadjuvante deste humour sem graça. O resultado é uma espécie de gag moral aplicada pelo diretor na qual o jogo de bridge (Keaton é um jogador no filme) sintetiza as qualidades de uma indústria que é, ao mesmo tempo, divina e cruel. Gloria Swanson, descendo as escadas em busca da glória, personifica essa crueldade dos deuses em fim de festa, com o rosto de uma Greta Garbo maquiavélica desfocando no último plano da película. Já William Holden é o modelo do que seria George Peppard anos depois em Bonequinha de Luxo (1961). Todos são aproveitadores, vivendo em um circo armado por Wilder – talvez o único que entendeu a piada à época.

crepusculo

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

Coringa, de Brian Azzarelo

Tags

, , , , , , ,


A humanidade é definida por um sorriso amargo: sabendo-se vilã neste planeta, corre em desatino sufocando qualquer um em busca de poder – como os heróis. Não há cura, porque o desejo de sabotagem e destruição sempre tergiversou sobre seus pares. O heroísmo é tão insano porque não permite uma leitura altiva da realidade. O mais psicótico dos vilões encontra seu reflexo no espelho porque esta é a mesma história desde o começo do tempo. Caos, catástrofe, tragédia, drama. O Coringa é a chaga inevitável que explode feito combustão espontânea. O Batman é seu reverso num oceano de lágrimas, sangue e dor. Criador e criatura se compreendem e se detestam. Por isso, o universo é infinito. Por isso, não há sentido algum. É somente a possibilidade o que faz valer a pena.

> Coringa. Roteiro de Brian Azzarelo, arte de Lee Bermejo. Colaboração de Mick Gray (arte-final) e Patricia Mulvihill (cores). Panini Comics, 2011.

corigngaleebermejo

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

Na tarca do tempo cultuamos o futuro

Tags

, , , , , , , , , , , , , , , ,


Quem vive na região sul do Brasil ou, pelo menos, tem algum contato ou origem com a cultura gaúcha – que espalha-se do centro da Argentina até o Mato Grosso do Sul – certamente já viu ou experimentou uma cuia de chimarrão. Gostando ou não da erva-mate, é relevante pensar o quanto o hábito de tomar essa bebida quente, uma espécie de chá dos índios, faz parte de uma tradição compartilhada por milhões de pessoas.

O conceito de tradição assemelha-se ao de cultura. É um termo escorregadio; mas podemos, de algum modo, dizer que ela é justamente o conjunto de hábitos que várias pessoas têm em comum, seja numa família, numa vizinhança, numa cidade, num continente inteiro e, hoje em dia, em “tribos” – não ligadas por uma localização geográfica, mas unidas por gostos pessoais que espalham-se pelo mundo inteiro.

Na praça central da cidade de Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná, existe um inusitado monumento, no qual está inscrita a seguinte frase: “Na tarca do tempo cultuamos a tradição”. Desde o primeiro momento fiquei curioso em saber o que significava a palavra “tarca”, da qual nunca havia recebido notícia. – Que diabo é uma tarca?, pensei.

Aqui seria oportuno informar ao leitor que o tal monumento é uma cuia gigante?

Não sei o porquê da enormidade do objeto, talvez só Jung explique; mas sempre ficou bem claro que ali era lugar de gaúchos e descendentes, seduzidos pela promessa de terra e vida nova oferecida pela companhia colonizadora. Depois que os indígenas foram expulsos ou morreram, era a vez dos colonizadores, dos tradicionalistas, terem seu novo lugar. E, olha só, caras pintadas: a erva de vocês fica.

Bem, a tal tarca, de acordo com o dicionário, é um pedaço de madeira onde se entalham pequenos riscos para a soma de animais escravizados na pecuária, ou para a contabilidade de objetos. Na tarca do tempo. Na madeira do tempo. Um pedaço de madeira onde se marca o tempo. Um calendário entalhado em madeira. O tempo registrado de forma contundente, como uma escultura. Um molde do tempo.

Cultuar também significa venerar, reverenciar, ter admiração e respeito. No calendário entalhado reverenciamos a tradição. A cultura, aquilo que é compartilhado entre muitos. A tradição, a cultura entregue de geração em geração. Aquilo que recebemos de nossos pais. Honra.

É estranho pensar em cultura no séc. XXI. As mentalidades estão se transformando, rapidamente. Saímos de um mundo multicultural, onde era admitida a convivência entre várias culturas diferentes que não se confundiam, ligadas por um passado histórico comum, para outro mundo, intercultural, onde as diferentes culturas misturam-se e não parecem mais estar ligadas pela tradição, mas sim por ideias, pelo futuro.

Como pensa a nova geração? Quando olho para meu enteado, muitas vezes penso no que sente em relação à região onde vive e ao passado. Sendo um nascido após o impactante evento de 11 de setembro, como lida com uma realidade em que a internet sempre existiu e sempre foi onipresente? Acredito que, para ele, pouco importa a cidade onde mora ou o que ocorreu na época de seus pais e avós.

Nós já não transmitimos a ele uma tradição compartilhada há muitas gerações. Para a minha geração, que cresceu bombardeada por videocassetes e videogames, a região de vivência já era pouco relevante. Agora, tudo está ainda mais diluído. Em nuvens de bits e bytes, o passado está sempre presente no You Tube, na palma da mão. Está gravado, entalhado na tarca, nunca vai embora. Para que cronistas? Para que disciplina histórica? Os vídeos não mentem, não podem ser manipulados. Deixem-me fazer minha própria interpretação dos fatos.

Será?

Sempre haverá um narrador, um olhar, uma ênfase. Observador e objeto são um só apenas no mundo espiritual. Por aqui, as deep fakes, os vídeos altamente manipulados, editados e enviesados, prometem virar as ideias de pernas para o ar, fazem vítimas, agitando os mais calmos e nocauteando os mais incautos.

A idealização do futuro e a rejeição dos estudos do passado. O culto ao presente. O agora. O historiador Jacques Le Goff dizia que havia uma dualidade nas mentalidades, que dividiam-se entre Antigo e Moderno, Progresso e Reação. Para um homem medieval típico, o mundo tendia sempre à desordem, ao fim dos tempos. Já para um filho médio do séc. XX, o futuro era a promessa de prosperidade tecnológica – caso evitássemos a bomba atômica, é claro.

Bem, para onde vamos? O aqui e agora. Procuramos não deixar nada aos nossos filhos, a não ser valores de harmonia e respeito por si mesmo e seus semelhantes, desde plantas e animais, até a toda ecosfera. A imensa iconosfera virtual onde sua mente habita é fortemente agitada pelos ventos dos tweets, memes e comentários – mas seus pés são como raízes no chão da realidade, onde as pessoas ainda precisam estudar e trabalhar para crescer ao sol.

Eu vi minha mãe bebendo chimarrão durante toda minha infância e juventude, mas nunca havia tomado. Apenas observei. E resolvi fazer o mesmo depois de adulto. Uma ideia que foi cultivada e floresceu muito tempo depois. Não cultuo a tradição, mas tenho respeito por ela, assim como tenho respeito pelos seres humanos e seus devaneios.

Espero, de verdade, que minha prole não nos reverencie. Que minha descendência afetiva, e efetiva, encontre ocupação e realização, apesar do poder sem fronteiras do capital digital sobre o trabalho precarizado. Que não nos cultue. Mas que sua geração aprenda com nossos erros e nos perdoe por não termos deixado um mundo melhor. Daqui a 30 ou 40 anos, espero que ainda possamos dividir uma cuia; eu e meu enteado, sem compromisso, olhando as nuvens…

escultura

> Esta postagem foi uma colaboração do escritor Tiago Masutti. Para conferir outros conteúdos deste autor, confira seu blog Ficção Paranoica ou siga-o no Facebook, Twitter, Instagram e LinkedIn.

Secos & Molhados, álbuns de 1973 e 1974

Tags

, , , , , , , ,


Na década de 1970, o rock’n’roll deixou de ser apenas diversão para se tornar comunhão. Até os Beatles sacaram que não dava para continuar no iê-iê-iê. A exaltação do piscodelismo, o refinamento do progressivo, o glitter exagerado do glam e muitas outras variáveis ajudaram a difundir (e confundir) o rock como ideia para além de si mesma. Não era só rebeldia juvenil; era vida transpirando, viagens sem destino à procura de uma essência. Ou nada disso. Pelo meio do caminho, a união dos talentos de João Ricardo (vocais, violão e harmônica), Ney Matogrosso (vocais) e Gérson Conrad (vocais e violão) retumbaria na deslumbrante Secos & Molhados, uma das bandas brasileiras mais influentes na história da música. E nem vamos entrar no mérito da pintura facial do grupo anteceder aquela da banda de rock (ou loja de produtos personalizados?!) chamada Kiss. Os álbuns de 1973 e 1974, ambos chamados apenas Secos & Molhados, são os únicos que incluem o trio original e trazem o vocal-líder insubstituível de Ney. Letras curtas e viciantes somadas às harmonias elaboradas prescreviam um outro rock nacional que poderia falar de tudo: da latinidade do sangue ao homem que vira lobisomem, das terríveis consequências da bomba de Hiroshima ao verme que passeia na lua cheia. Como o melhor do rock, não há limites. Secos & Molhados foram tão geniais – um fenômeno de vendas de discos – quanto efêmeros em sua formação clássica. Dois álbuns indispensáveis para quem curte rock’n’roll no Brasil ou em qualquer lugar do mundo.

secosmolha

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

Gravidade (2013), de Alfonso Cuarón

Tags

, , , , , , , , ,


Filmes como Gravidade, do diretor Alfonso Cuarón, projetam uma certeza de que o cinema nasceu da ciência para abraçar a arte. O exato nascimento desta sétima e última arte se dá pela benção da tecnologia. Antes da exibição, o cinema já existe na máquina. Assim como o conhecimento científico, as artes se completam através de um continuo exercício da técnica. E Gravidade é a excelência tecnológica do início ao fim.

Mas não me entendam exclusivamente pelo viés dos avanços visuais que o mundo digital legou ao cinema contemporâneo. Para fugir disso, reveja em sua coleção o trabalho de Stanley Kubrick em 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968). A ciência de um filme ambientado no espaço já estava completa lá. Mas Cuarón distancia-se do mundo épico e sensorial da obra sessentista. O diretor sintetiza a filosofia extemporânea numa situação mais do que concreta: continuar a existir. Essa constância de sua personagem central, a astronauta Ryan Stone (Sandra Bullock) também será a de seus planos, cenas e sequências indissociáveis. A poesia inevitável de uma película cósmica terá muito mais a ver com os limites do espaço ao redor do que com a infinitude do universo que se expande.

Se Alfonso Cuarón é um cineasta que contempla todas as possibilidades definindo sua arte pela técnica (ou seria o contrário?), essa mesma determinação está visível no trabalho de Sandra Bullock, tão excepcional e metódica como em A Casa do Lago (2006), de Alejandro Agresti.

Não há espaço para o solene em Gravidade: pois o tempo não faz apagar memórias. E na ausência das condições mínimas de sobrevivência, Stone (pedra, em inglês) cai com dignidade.

Afinal, se as leis da física são a favor da vida, mantendo o universo unido, também ao artista recai o peso de sua própria existência.

gravidade

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro

Entre a Praça e o Porto, de Angelo Renato Biléssimo

Tags

, , , , ,


Sob a égide da liberdade, parece-nos que a faceta mais relevante da história é sua capacidade de jamais se esgotar. O recorte objetivo de uma documentação disponível (mas pouco explorada) nos permite ir além do que os dados contam na superfície. Neste Entre a praça e o porto: grandes fortunas nos inventários post mortem em Desterro (1860-1880), o historiador Angelo Renato Biléssimo lida com o passado da capital catarinense, então chamada Desterro, para discutir as relações humanas na sua complexidade de sempre, porém com um vigor pioneiro. Os inventários post mortem, que servem de eixo condutor do livro, revelam nuanças de uma elite que se estruturou na cidade e cujos desenlaces socioeconômicos ainda são presentes no cotidiano de Florianópolis. A escravidão também marca presença no livro – os cativos faziam parte do patrimônio de muitas destas famílias com grande poder na economia e na política. Porque a cidade e as pessoas nunca param no tempo.

> Entre a Praça e o Porto: grandes fortunas nos inventários Post Mortem em Desterro (1860-1880). Casa Aberta, 2008.

praca.jpg

> Siga também o Instagram: www.instagram.com/cronicasdoevandro