Fuga Para a Vitória (1981), de John Huston

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Justamente porque se trata do evento mais espetacular e terrível da era contemporânea, a Segunda Grande Guerra permite um infindável número de recortes e interpretações. Das batalhas épicas aos dramas de sobrevivência, escondem-se milhares de alternativas tão distintas quanto curiosas. O futebol, por exemplo, é o tema geral do filme Fuga Para a Vitória, de John Huston, ambientado na Alemanha nazista de 1943. Eis aqui uma desengonçada versão do gênero “fuga de prisão”, tendo por leitmotiv um jogo de futebol que coloca num lado do gramado os prisioneiros aliados e, do outro, um time formado por alemães. As presenças de Michael Caine, Sylvester Stallone, Max Von Sydow e Pelé – sim, o próprio Atleta do Século XX – só fazem aumentar o clima de fábula antiguerra que apenas no cinema é possível existir. Divertido como uma pelada disputada num campo de barro e lama.

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Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano

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“O jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo, que não é organizado para ser jogado, mas para impedir que se jogue. A tecnocracia do esporte profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe a ousadia”. Assim o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano descreve o futebol da virada do século XX para o XXI no livro Futebol ao sol e à sombra, publicado desde 1995 no Brasil em formato de bolso pela editora L&PM. Galeano não poupa nem mesmo o rei Pelé, ainda que engrandeça seu futebol. Comenta: “Fora das canchas, nunca doou um minuto de seu tempo e jamais uma moeda caiu de seu bolso”. Cita Shakespeare para remontar às origens da festa pagã que tem no gol seu desejado clímax. Destaca ídolos, clubes, seleções e Copas do Mundo para falar de uma paixão terrena presente em praticamente todo o globo, mas quase sempre desprezada pelos historiadores. Porque o futebol é tudo isso e muito mais.

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História de Amor

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Deixem-me contar uma história que há muito nos foi legada. Viviam naquela cidade dois jovens de famílias rivais que, um dia, viriam a trocar beijos e juras de amor sob a noite de inconstante lua. Ele, desgostoso com uma desilusão amorosa e com aquela guerra odiosa entre as duas casas inimigas, entrou no baile mascarado. Ela, tão jovem e inocente, sabia que quando o amor chegasse não seriam necessárias máscaras ou quaisquer enfeites, porque o cupido não desempenha seu papel pela metade.

Encontraram-se como quem descobre um tesouro a que não se procura, pois o destino tratou de lhes pregar uma peça tão bem engendrada quanto traiçoeira. Mesmo o frei, ouvidor constante dos sentimentos daquele jovem, primeiro viu certa inconformidade na recém chegada paixão. Os jovens, pensava o religioso, mudam de amores como as árvores perdem suas folhas. No entanto, aquela união inesperada poderia aquecer corações hostis e selar de vez a paz desejosa até mesmo pelo príncipe guardião da cidade.

Em segredo, casaram-se. O frei realizou a sagrada cerimônia confiante no fim daqueles pesares sem cabimento. Mas eis que o drama humano ganha ares de tragédia, quando o ódio fala mais alto que o amor. A morte alheia, então, bane o jovem da cidade em que ele tanto adora viver. Sua esposa finge-se de morta para ir ter ao seu encontro, mas a falta de comunicação entre os amantes principia o final infeliz.

Assim, o jovem Romeu bebe o veneno mais poderoso que existe na esperança de reencontrar sua amada Julieta. Ao acordar do sono profundo que lhe trazia os falsos ares da morte, Julieta percebe seu marido sem vida e não titubeia em cravar em sua própria carne o punhal que seu amado trazia consigo. Nunca houve história tão triste quanto esta de Julieta e do seu Romeu. Nunca houve inspiração maior aos namorados como esta dos jovens que trocaram juras e beijos de amor sob a lua inconstante e que jamais serão esquecidos.

> Repostagem de uma crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 12/06/2008.

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Blow-Up – Depois Daquele Beijo (1966), de Michelangelo Antonioni

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A dignidade de um filme como este Blow-Up – Depois Daquele Beijo (1966), de Michelangelo Antonioni, faz repensar uma série de argumentos um tanto esquecidos pela indústria cinematográfica. Plano, sequência, caractere, transição: tão digna performance restitui a cada nova exibição as condições determinantes do cinema enquanto arte por excelência. O que não falta ao filme de Antonioni são essencialidades arraigadas naqueles 24 quadros por segundo. Como as melhores obras de arte, Blow-Up não é injusto com o mundo justamente porque o retoma por meio de seus aspectos elementares e, por isso mesmo, transformadores.

Há tanta ação na narrativa ambientada em Londres nos anos 1960 que ganhamos outras sugestões de realidade a cada novo ato – como numa peça teatral cheia de som e fúria. Ao mesmo tempo, entrementes, damos com a criação livre, praticamente vanguardista como as linhas retas de um quadro do Picasso ou o lirismo de um poeta pop/rock. Assim, o estúdio do fotógrafo Thomas, assumido auspiciosamente pelo excelente David Hemmings, possui os recortes lineares semelhantes à própria vida do protagonista, um bon vivant nostálgico, mas inserido até a raiz de seus cabelos naquela época de medos inventados e de paixões tão avassaladoras quanto efêmeras. São estas transições curtas e, em algumas oportunidades, um tanto ingênuas por parte das personagens aquilo que há de mais forte na mise-en-scène de Antonioni – e, tragicamente, o que acabou se perdendo quando das recentes gerações de diretores.

Mais do que filmar a cena contemporânea londrina, o cineasta italiano confidencia com seu espectador que tal obra não se encerra quando completa. Sabemos (Antonioni e nós) que os interesses mais sutis também podem ser os mais inevitáveis e, até mesmo, um possível assassinato – como se houvesse qualquer coisa de concreto! – permanece como uma fotografia imprecisa e ampliada muitas vezes. Não por acaso, o estúdio de Thomas é repleto de portas, acessos e espaços-limites, condicionando a arte às possibilidades da criação humana. E Jane, numa elegante e perturbada atuação de Vanessa Redgrave, faz-se personagem vivaz apenas quando está naquele ambiente fictício repleto de figurinos da moda, cenários que se alternam, spots de luzes e máquinas fotográficas fazendo as vezes do que é típico à sétima arte: se no estúdio as imagens têm de ser reveladas, também será assim com as pessoas e suas histórias.

Sugestivamente vago e insinuantemente atual, a película de Antonioni tem aquela humildade presente apenas nas obras de arte digna dos grandes criadores. Blow-Up é criação; Blow-Up é cinema.

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O Doador, de Lois Lowry

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Esta é uma história de aproximação. O doador se aproxima do recebedor, a criança se aproxima do conhecimento, o passado se aproxima do futuro. E o futuro é, pois, o presente distópico de Jonas, uma criança de doze anos num mundo sem contrastes. Quando o garoto encontra uma versão desconhecida do passado, o desejo de mudança é inevitável, como fosse possível reviver um mundo repleto de agruras, mas, também, cheio de possibilidades.

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Mad Max: Estrada da Fúria (2015), de George Miller

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O futuro indefinido que se apresenta em Mad Max: Estrada da Fúria (2015), de George Miller, é um prolongamento natural dos dramas presentes, simbolizado pela escassez do petróleo e pela esterilização da terra. Estes dois temas estão tão intimamente ligados que é até mesmo uma tarefa quase impossível pensar num sem lembrar-se do outro.

Na película, estes são os ingredientes de um mundo apocalíptico no qual sobreviver é o grande exercício diário. E os sobreviventes estão por toda a parte, seja como súditos de líderes autoritários, ou como peregrinos que fazem da estrada a única companhia suportável – caso  de Max Rockatansky, personagem clássico que já foi interpretado por Mel Gibson entre 1979-85 e, então, assume os traços expressivo de Tom Hardy.

O diretor George Miller enaltece seu herói de longa data, pois que ele também esteve por trás das câmeras nos filmes estrelados por Gibson. Mas, desta vez, a história que arde no deserto tem uma protagonista ainda mais impacto: a Imperatriz Furiosa que ganha beleza e técnica na quase sempre excelente atuação de Charlize Theron. Não se trata de uma personagem que rouba a cena; o filme é dela. Max e a Imperatriz são cúmplices dos mesmos sentimentos, ainda que suas origens sejam distintas.  E o caminho da redenção é o único que importa, mesmo que a travessia seja dolorosa.

Não é por acaso que este seja um road movie muito mais essencial que seus antecessores Mad Max (1979), Mad Max 2: A Caçada Continua (1981) ou Mad Max – Além da Cúpula do Trovão (1985). Nesta Estrada da Fúria, os motoristas não pedem passagem porque todos sabem os riscos antes mesmo de começar.

Desde que Max entra no carro, logo na abertura, a narrativa acelera com o pé fundo de um diretor preciso em cada corte. Suas cenas trazem às telas um gênero de ação característico dos anos 1980, mas que ultrapassa os limites estabelecidos até então, muitos dos quais definidos pelo próprio Miller.

faroeste futurista de Mad Max é um saboroso deleite artístico e artesanal feito dentro de uma indústria cada vez mais banal. Loucos são os outros que não veem a beleza destes tempos furiosos.

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A Mensageira das Violetas, de Florbela Espanca


Se o nome da poetisa já é violentamente poético, suas poesias trazem a intimidade que se desabrocha para si mesma. Há uma sensualidade que parece jamais se completar. O desejo ardente do que nunca será. A acidez íntima, qual uma taça de vinho agridoce compartilhada na vontade quase desesperada, mas ciente de que a embriaguez será curta e poderosa. Florbela escreve: “Que importa o mundo e as ilusões defuntas?… | Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?… | O mundo, amor?… As nossas bocas juntas!…”. Sonetista de mão cheia e vida curta. Decide partir de mundo por conta própria aos 36 anos em 1930. Seus versos e suas violetas, porém, ficaram para sempre.

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As Américas do Capitão

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O século XXI ainda é uma imagem indefinida. Apesar de identificarmos as características principais, não compreendemos o cenário como um todo. Política e culturalmente, porém, há ainda o agravo das dúvidas provocadas pela revolução tecnológica e seus reflexos econômicos. Daí que os registros do presente, feitos por jornalistas e historiadores, são um tanto vampirescos, quais o vilão que jamais se vê no espelho: a sutileza do Drácula de Bram Stoker é a metáfora de uma sociedade que não consegue ver a si mesma.

E sem passar verniz na realidade, a Marvel Comics encontrou duas maneiras distintas de lidar com os extremos nos anos 2000. Para tanto, direta e indiretamente, utilizou-se de seu personagem menos popular para fora da nação estadunidense: o Capitão América. Entre mortes, renascimentos e outros maus bocados, o Capitão ganhou uma notoriedade sem precedentes com os filmes do Universo Cinematográfico Marvel (UCM), iniciado em 2008 com Homem de Ferro, dirigido por John Favreau. Steve Rogers, o homem por trás do uniforme do Capitão, passou de personagem sisudo e essencialmente militar para um cidadão contemporâneo que esbanja carisma.

Antes das películas, existiam somente possibilidades para o milênio que se desnudava ainda sob o impacto do terrorismo, capitaneado pelos atentados de 11/09/2001. E, somado ao processo criativo, também a própria Marvel estava se recompondo após uma grave crise financeira.

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Assim, em 2005, como ninguém esperasse, o outrora falecido ajudante mirim do herói, James Buchanan “Bucky” Barnes, volta à vida num arco de histórias intitulado Soldado Invernal. Bucky, então, não morrera na Segunda Grande Guerra como se pensava. Pior: fora recrutado e recondicionado mentalmente pelos russos para cometer assassinatos políticos durante a Guerra Fria. Mesmo que o reaparecimento de Barnes ocorra após um ataque terrorista na Filadélfia, os roteiros de Ed Brubaker claramente se distanciam do presente, como que remontando aos acontecimentos que poderiam explicar o cenário atual. Os vínculos afetivos entre Steve Rogers e Bucky Barnes correm em páginas que não querem tocar nas feridas abertas no Ocidente – muitas, aliás, quase autoimpingidas pela agressiva política externa norte-americana.

capguerraPara além de si mesmo, e ainda antes do aparecimento do UCM, Steve Rogers está no centro de uma imprescindível minissérie da primeira década do século. Guerra Civil, escrita por Mark Millar e publicada em sete partes entre junho de 2006 e janeiro de 2007, discute essencialmente a polarização. É ainda uma hecatombe o que dispara o enredo (qualquer semelhança com O Reino do Amanhã, lançada em 1996 pela DC Comics, parece ser mera e evidente inspiração), mas aqui a pauta se fecha na própria nação. A Lei de Registro de Super-Humanos se confunde com as próprias expectativas de uma população cansada do caos e da própria miséria, temendo por um futuro incerto e disposta a renegar alguns de seus valores mais caros em troca de garantias. E, sabemos todos, garantias nunca são 100%. Enquanto o lado heroico pesa para o Capitão América e aqueles que o apoiam, há uma preocupação sincera de Tony Stark e, claro, do “time Homem de Ferro” em regulamentar a atividade super-humana. “Quem vigia os vigilantes”?, perguntaria Alan Moore se estivesse minimamente interessado nessa história.

Há uma ideia recorrente de que os quadrinhos de super-heróis só fazem sentido pela força de seus vilões. É um pensamento interessante, principalmente quando contrastamos Batman e Coringa, Homem-Aranha e Dr. Octopus, Superman e Lex Luthor, Professor Xavier e Magneto. Ainda assim, esta parece ser uma noção um tanto quanto preguiçosa. As histórias e as personagens que se destacam falam, evidentemente, do bem e do mal, mas não apenas deles. Às artes legamos essa heroica responsabilidade de não nos convencer que há apenas um caminho correto. Luz e trevas, amor e ódio, guerra e paz moldam a sociedade para além do bem e do mal, dando relevância e complexidade à experiência humana. Tanto é assim que até mesmo um super-herói das revistas em quadrinhos chamado Capitão América, cujo uniforme e o escudo traz as cores da bandeira estadunidense, pode nos mostrar diferentes Américas e, quiçá, surpreender-nos quando nós mesmos darmos com o nosso reflexo no espelho.

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The Wall, de Pink Floyd

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Numa época não tão longínqua assim, álbuns musicais eram o cerne do cenário fonográfico. Shows, clipes e outras variações na forma de ouvir/consumir música eram relevantes, mas não possuíam o peso de um disco (long play, fita k7 ou, mais recentemente, cd) composto tendo sobre si o peso de um conceito. Diferente das coletâneas, os álbuns conceituais quase sempre traziam uma ideia unificada concatenando os diversos elementos das canções. Ainda assim, claro, era possível falar de amor e política, de tristeza e de educação, de guerra e de solidão. Em The Wall, décimo primeiro álbum de estúdio da banda britânica de rock Pink Floyd, são justamente as barreiras e os muros que ligam uma experiência pessoal e mundana. Muros mentais estão lá com Nobody Home: a casa vazia de quem não atende ao telefone em contraparte ao desespero solitário do autor. Muros da repressão que não deixam crianças em paz nas três partes de Another Brick in the Wall: professores despejando escárnio porque os alunos não precisam desse tipo de educação. Muros fronteiriços que entorpecem a visão do horizonte com Comfortably Numb: o navio distante (ou apenas a sua fumaça) num vislumbre passageiro de quem deixou-se crescer sem dar por isso. Lançado em 1979, The Wall nunca perdeu o vigor tanto pela virtuose de seus músicos, quanto pela sensação de permanência dos problemas ancestrais da sociedade. Porque desde sempre há os donos do muro e aqueles que são apenas outros tijolos.

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Leite Derramado, de Chico Buarque

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Quando saíram as primeiras críticas sobre Leite Derramado de Chico Buarque, frequentemente compararam-no ao texto de Machado de Assis. As semelhanças do tom íntimo e pessoal com Memórias Póstumas de Brás Cubas, bem como a narrativa em primeira pessoa que revê a própria vida propositadamente de forma desordenada podem até mesmo convidar à comparação, ainda que os textos em si caminhem por vias inteiramente distintas. Brás Cubas é o cínico bon vivant, irônico para com a vida, aquele que não perdoa coxa e bela, que reclama daquela que o amou durante quinze meses e onze contos de réis. Já Eulálio d’Assumpção regozija-se de seu passado nobre, condescendente com a história do país e com as tramas particulares que então lhe confundem a memória; a mente a lhe pregar peças constantemente – coisa que para um morto feito Cubas é praticamente impossível. Brás Cubas é um defunto autor, ciente do que viveu e de como percebeu o mundo; Eulálio é um enfermo centenário a lidar com o peso da idade e que sente particularmente os inglórios dias idos e vividos. Ambos, porém, são aristocratas que se inserem num mundo de aparências e pequenas vaidades, coisa “suptil” como o “p” d’Assumpção. Não obstante a contemporaneidade de Leite Derramado, Chico Buarque também se aproveita de uma estrutura coloquial, posto que seu alter ego literário está a falar com aqueles a seu redor, seja sua filha, as enfermeiras ou outros funcionários do hospital no qual se encontra. Há uma distância salutar entre Chico Buarque e Machado de Assis evidenciada nas respectivas épocas de seus escritos. Memórias Póstumas de Brás Cubas foi publicado em livro no ano de 1881, oito anos antes da Proclamação da República, quando o realismo despertava nas artes brasileiras. Já Leite Derramado está mergulhado na mal chamada pós-modernidade (ou modernidade líquida), quando tudo se torna tão duvidoso quanto a memória revivida por um ancião.

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A Cultura no Mundo Líquido Moderno, de Zygmunt Bauman

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A igualdade é o ponto nevrálgico desta obra de Zygmunt Bauman que destaca ainda a possibilidade de consumir cultura sem elitismos, mas de forma profundamente empática. N’A Cultura no Mundo Líquido Moderno, por sinal, está o alerta supremo de nossa época: o processo cultural nunca é por si ou para si, mas necessária ao entendimento do outro, à descoberta de si mesmo porque sou um, todos que me antecederam e, ainda, aqueles que me são contemporâneos. Casulos culturais devem ser implodidos até que se transformem em pura liquidez. Apropriação cultural é a maior falácia dos falsos moralistas justamente porque não terminamos em nós mesmos.

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A Mulher Mais Linda da Cidade e Outras Histórias, de Charles Bukowski

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Porque parte de nossa miséria, a poesia urbana escorre feito prosa, misturando-se à chuva na sarjeta. A história das ruas, dos sem eira nem beira, da perversidade num mundo de aparências move os escritores desde há muito. Uns, como Honoré de Balzac na sua Comédia Humana, eram ácidos sem ser cruéis; o mundo poderia ser trágico, mas, ainda assim, eloquente como o recorte de uma janela. Charles Bukowski, em seu tempo, derruba janelas e portas com um chute bem dado no queixo daqueles que se metem em seu caminho. Ficam estateladas, as personagens, entre cacos de vidro, sujeira e tudo o mais que cerca o inferno (e os inferninhos) da grande cidade – Los Angeles, para ser mais específico. A Mulher Mais Linda da Cidade é, também, a pior – e, por isso mesmo, legítimo exemplar da espécie humana –, que se envolve com o pior homem. Ao redor de ambos, os piores tipos se esbaldam, enfurnados em pocilgas fedorentas, penitenciárias que não valem nada e tantas outras ilusões perdidas, típicas de uma cidade que vive da imagem envelhecida dos filmes em preto e branco.

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Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma (1999), de George Lucas

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Se a trilogia clássica de Star Wars é sobre a jornada do herói Luke Skywalker, a segunda trilogia é claramente sobre o poder corrompendo até o mais iluminado dos seres. Já essa terceira trilogia – ainda por ser encerrada – parece ser sobre um monte de coisas e nada em específico, como o pote de um bufett de sorvetes tão misturado que não se consegue identificar nenhum sabor: é até divertido, mas sem grande interesse. Voltando aos episódios iniciais, damos com aquela sensação de uma abordagem fora de seu tempo. As questões políticas de A Ameaça Fantasma falam muito mais com o conservadorismo dos anos 1980, do que com o final dos anos 1990, quando o mundo ainda não suspeitava que o 11 de setembro de 2001 traria outros rumos nas questões internacionais e no american way of life. Não por acaso, durante o governo de Ronald Reagan (1981-89) foi criado o Projeto Guerra nas Estrelas, programa militar que previa satélites antimísseis equipados com lasers – detalhe importante: a ideia não funcionou. Anakin Skywalker, no episódio I, fora adotado por um liberal, e tudo parecia correr bem. Até mesmo os grandes sábios de seu tempo, como Yoda e Mace Windu, ignoraram os riscos. Mal sabiam eles que o garoto cresceria seduzido pelas vantagens conservadoras de um ardiloso político (Palpatine), que se transformaria de senador a imperador num intervalo de poucos anos. Ainda assim, o filme não funciona – falta aquela empatia tão significativa vista em Luke assim que o conhecemos. Nós, espectadores, deveríamos ter desconfiado: o androide C-3PO inacabado era um sinal de que a película também ficaria incompleta.

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Memórias Póstumas de Brás Cubas, escrito por Machado de Assis

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Honoré de Balzac, Alexandre Dumas, Charles Dickens e outros tantos romancistas publicaram alguns dos livros mais importantes da humanidade em folhetim, gênero que nasce na França concomitante ao aparecimento da imprensa. Ainda que o talento destes e de outros escritores seja inegável, é preciso ter em mente que a escrita e a consequente publicação em capítulos impressos diária ou semanalmente nos jornais possibilitava ao autor uma relação muito próxima com o público leitor – então, uma parcela muito pequena da sociedade. No Brasil, escritores como José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Lima Barreto, Joaquim Manuel de Macedo e, claro, Machado de Assis tiveram suas obras publicadas primeiramente em folhetim. Foi o que aconteceu com o clássico–mor da literatura realista brasileira Memórias Póstumas de Brás Cubas, que saiu em etapas de março a dezembro de 1880, na Revista Brasileira. Somente em 1881 a obra teve seu lançamento em livro pela Tipografia Nacional, órgão que antecede a Imprensa Nacional. Com sua ironia genuinamente brasileira e salutarmente inspirada por William Shakespeare, a prosa machadiana assimila ainda o vigor da literatura francesa com sua crítica de costumes e análise social forjada na estrutura do romance. O defunto autor (não confunda com um autor defunto) é, em si mesmo, a própria desventura humana, ilusão de uma aristocracia que nunca foi nada além de uma imitação ruim da tradição europeia. Eis o que sobra do país de Machado de Assis: um emplastro que não chegou a ficar pronto. Quiçá o mundo só faça algum sentido para um defunto que já não tem mais a responsabilidade de se preocupar com o legado de nossa miséria.

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O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman

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Crescer é perder o fantástico dentro de si? Não há esta pergunta, literal ou literariamente, no livro O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman, mas ela está oculta qual uma entidade tão velha quanto o tempo. A volta à casa de infância, quarenta anos após ter vivido um tempo saudoso e difícil, faz eclodir as lembranças – outra vez, e de novo. O britânico Neil Gaiman atualiza o gênero fantasia com o toque sutil e talentoso que o consagrara já em suas obras iniciais, como na série em quadrinhos Os Livros da Magia (1990-91). O Oceano no Fim do Caminho é, ainda, uma história curta que se estendeu por conta própria, como salienta o autor, e traz a engenhosidade característica de suas obras da primeira década do século XX, como a coleção de contos e poesias intitulada Coisas Frágeis (publicada em dois volumes no Brasil pela Conrad Editora). Se a Inglaterra tem a tradição de autores fantásticos – gente do naipe de Lewis Carroll, H. G. Wells, J. R. R. Tolkien e Terry Pratchett (sem contar, evidentemente, J. K. Rowling que é mais nova que o criador de Sandman) –, Gaiman sabe muito bem disso e homenageia passado, presente e futuro nas três gerações da família Hempstock.

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O Detetive de Florianópolis, de Jair Francisco Hamms

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Jornalista, colecionador de vocábulos, escritor de mão cheia, imortal da Academia Catarinense de Letras. Jair Francisco Hamms foi um dos maiores no texto curto tipicamente brasileiro. Em O Detetive de Florianópolis (1983), uma seleção de crônicas, contos e/ou cronicontos publicadas no jornal O Estado, passam personagens característicos da capital de então, com o melhor do humor sacana sem ser de mal gosto. Domingos Tertuliano Tive. Ou apenas D. T. Tive. Porque ser desempregado não era/é uma boa opção em Florianópolis. E em lugar algum.

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O Xangô de Baker Street, de Jô Soares

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Uma crônica, um conto ou um artigo impõe limitações de origem. O tamanho é o capitão-mor que grita do convés: “A navegação será curta, fique de olhe na âncora”. Vai daí que o porto seguro do cronista, por vezes, perde-se naquele gigante mar do romance. E se viagem é com humor, as águas ficam ainda mais turbulentas. Poucos conseguem. Luis Fernando Verissimo até que se saiu bem, mas sua praia continua sendo o texto curto, meticuloso, com um final quase sempre desnorteador. Jô Soares, por seu lado, escolheu sua ilha paradisíaca quando partiu de cara – e, ao que parece, em definitivo – para o romance cômico-policial. Já na estreia, com O Xangô de Baker Street, Jô ancorou seu texto combinando personagens reais e oriundas da sua imaginação cuja qualidade essencial é ser divertida. Assim o é Sherlock Holmes deste Xangô, como também o malfadado assassino Dimitri Borja Korozec em O Homem que Matou Getúlio Vargas (1998) e, ainda, o comissário Machado Machado em Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (2005). Os romances de são narrativas de ação enxutas. A base histórica é ilustrativa, o que lhe propicia o direito de ser amplo sem se alongar demasiadamente. É a história o que lhe encanta, não exatamente a reflexão sobre o passado. Sir Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes, abriu o caminho. Jô Soares apenas o deixou mais bem humorado.

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A liberdade de Hamlet

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Sem papas na língua, Hamlet não chegou ao fundo do poço por dizer o que pensava, mas sim porque já havia percorrido o topo do mundo munido de sua ferramenta mais ilustre: o pensamento. Para o príncipe da Dinamarca o resto foi silêncio, mas para nós aqui do outro lado das páginas o resto estourou como uma bomba moral; e, mesmo sem o gás lacrimejante, as lágrimas escorreram na certeza de uma caminhada humana contraproducente.

A loucura de Hamlet, criada qual o melhor disfarce detetivesco, determina uma mudança no entendimento da realidade. Essa sensação de que algo lhe escapa e de que nem mesmo a fé, o amor, a arte, o progresso ou os sonhos trarão uma satisfação tão sublime quantos as possibilidades sugerem. Rosencrantz e Guildenstern poderiam ser bons amigos, mas o príncipe não busca esperança no outro – afinal, já é muita responsabilidade ter de lidar com a morte de Ofélia, única pessoa em sua história recente por quem teve algum apreço e empatia. A dor dela, para o bem e para o mal, é a mesma daqueles para os quais os sentimentos importam contrários à razão.

Há alguma ingenuidade em acreditar que a vingança do fantasma (também chamado Hamlet e outrora pai do príncipe) se dá apenas por questões políticas ou por ciúme – afinal, seu irmão Cláudio usurpou-lhe o trono e sua mulher Gertrudes num ato vil de regicídio. Oras, o Fantasma, avistado inicialmente por simples guardas quais Marcelo e Bernardo, é o chamado nebuloso pelo qual alguém pode esperar uma vida inteira sem ter por onde. Quis o destino (ou Shakespeare, vá lá) tornar a aparição também visível aos olhos do gentil Horácio, a quem restou a difícil tarefa de relatar o estranho acontecimento ao legítimo herdeiro do trono. Vai daí que a conversa entre Hamlet e o fantasma seja também um ponto sem retorno, no qual as glórias serão deixadas de lado porque a consciência lhe será o único reinado – a digna nobreza que não tem a ver com castelos ou soberania alheia.

Ser ou não ser sugere fim e início. Se há história, sempre haverá drama – e quais de nós estarão livres no desfecho disso tudo? Hamlet, de alguma maneira trágica, descobre a liberdade na ponta de uma espada envenenada porque também não era redenção o que lhe apetecia. Sua partida serena ainda lhe permite profetizar questões menores, políticas até, como a escolha de Fortimbrás que chega da Inglaterra com notícias das quais o príncipe nunca saberá. Se Hamlet seria um grande rei como o próprio Fortimbrás aponta? O resto é imaginação.

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Thanos, em busca de si mesmo

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Dizem por aí que todas as histórias são sobre quem somos. Com Thanos, logo, não poderia ser diferente. Aquele que corteja a morte busca também seu papel na história do cosmos. A recompensa por encontrar todas as jóias do infinito, o poder absoluto do Universo, lhe trará algum conforto nem que seja com um mísero sorriso de sua amada imortal? Conhecer sua trajetória, desde seu nascimento em Titã (A Ascensão de Thanos) até o confronto derradeiro com os maiores heróis da Terra e do Universo (Trilogia do Infinito), permitirá traçar um perfil justo da personagem criada em 1973 pelo soberano dos quadrinhos cósmicos, Jim Starlin. Mas até mesmo o infinito vai acabar. Do Big Bang ao Big Crunch. Dos quadrinhos ao cinema.

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Duas novelas de Harry Laus

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Quando um santo mágico aparece na praia ou quando um típico funcionário procura a verdade em relógios idênticos, Harry Laus (1922-1992) nos faz lembrar que há um sentimento de ausência que permeia todas as histórias humanas. Como o autor escreveu no dia 1 de Fevereiro de 1952 em suas Impressões de Vida (Bernúncia, 1998), “creio que chegará um ponto em que, à força de iludir e me iludir, não mais saberei quando estou sendo sincero”. Em suas novelas essa impressão aparenta ser ainda maior tanto pelo desenvolvimento das personagens quanto pela condensação do espaço-tempo.

santomagicoAs obras O Santo Mágico e As Horas de Zenão das Chagas, novelas cujas edições publicadas na década de 1980 serviram para a realização deste texto, não apenas exemplificam esses argumentos como também elevam à máxima potência um gênero literário que fica na crítica fronteira entre a primazia do romance e o caráter conciso do conto. À literatura, convenhamos, não apetece o título de ciência exata.

Em sua incursão novelística quando o autor estava em Porto Belo, Harry Laus colocou personagens e lugares com esmerada descrição para contar o curioso caso de uma aparição na praia da cidade conhecida como O Santo Mágico (Edição do Autor, 1982). Já de início somos apresentados às personagens cujo destino em comum possui ligação com o misterioso clarão azulado que parece ter uma auréola sobre si. A fé talvez seja o questionamento central daquelas figuras literárias, como o pescador Luca (o primeiro a ver o fenômeno), o padre Anatole que se veste de maneira muito peculiar quando se encontra sozinho e o jovem Altair que encontrou a felicidade em Porto Belo junto a mulher e ao filho. E todos acabam por questionar suas próprias verdades mesmo que não se dêem conta disso.

zenaodaschagasPublicada originalmente em 1957 no suplemento dominical do Jornal do BrasilAs Horas de Zenão das Chagas (Mercado Aberto, 1987), delimita a narrativa num espaço urbano, ainda que sua paisagem seja retratada sutilmente, mantendo essa insatisfação de uma vida semi-completa, tema tão caro aos mestres da escrita; do amor não-correspondido de Dante em Vida Nova às negativas finais da personagem-título de Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas. O desprendimento da realidade de Zenão é algo tão natural quanto os seus entediantes dias: “O desleixo em que mantém o quarto talvez resulte de certo comodismo que, de forma precária, substitui o conforto que não pode desfrutar”. A história de Zenão situa-se numa região indefinida entre a parábola do cotidiano e a própria vida ordinária com a qual a maioria dos mortais se relaciona sem se dar conta. A personagem traz a inconformidade já em seu nome: O “Zé” que “não” é, ou mesmo aquele que não passa nem mesmo por homem comum. Não obstante, ainda há o sobrenome cujos sinônimos denotam extremo dissabor.

Temos, pois, histórias talhadas em madeira de lei, ainda que com estilos diferentes que as naturezas dos enredos acabam por exigir. O Santo Mágico é uma história que se abre, larva que aos poucos se transforma em borboleta. Já As Horas de Zenão das Chagas é quase como um elevador que se fecha ante os olhares claustrofóbicos do leitor; uma história sobre o tempo passada em época indefinida. Borboleta ou elevador, as novelas de Laus irrefreavelmente sobem, com destino certo às alturas dos melhores prosadores brasileiros.

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