Hamlet: Poema Ilimitado, de Harold Bloom

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A peça teatral A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca, escrita pelo dramaturgo inglês William Shakespeare provavelmente entre 1599 e 1601, foi urdida temas universais. Conquanto do ponto de vista ocidental, o texto como que define o imaginário e, para além deste, a própria consciência humana em suas dores e humores. O professor e crítico literário Harold Bloom, um dos maiores estudiosos e entusiastas da obra shakespeareana, busca sentidos e significados históricos neste texto que parece renascer qual fênix a cada nova leitura. E porque a humanidade ainda não encontrou sua possibilidade de convivência, parece ser mais do que legítima esta sentença: a ficção que mais se aproxima da experiência humana é, inevitavelmente, uma tragédia – no sentido da catarse apontada por Aristóteles. Ler ou reler?, eis a questão!

> Hamlet: Poema Ilimitado. Livro de Harold Bloom. Editora Objetiva, 2004.

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República e política

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Pai, aproxima de mim este cálice do conhecimento. Em tempos de irresponsabilidade política-eleitoral, quando o fascismo se aproveita da desesperança para pregar sua peça de ódio e ressentimento… Em tempos de desdém para com o significado de uma república, quando a solução mais fácil é sempre a pior… Em tempos de ausência de amor para com o próximo, quando a empatia é do que mais necessitamos… Em tempos assim, sempre voltamos ao passado em busca de nós mesmos e de nossa espécie. Somos o que sempre fomos, com uma chance inequívoca à evolução, mas titubeando em convicções miseráveis e enganosas. Porque não há qualquer sentido sem a existência e a felicidade do outro. Podemos, outra vez, deixar o medo das sombras de lado e sair da caverna para beber de tão nobre cálice.

> A República, de Platão, e Política, de Aristóteles.

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Turma da Mônica: Lições, de Lu e Vitor Cafaggi

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É impossível definir as proporções com precisão numérica, mas uma boa parte da vida são oportunidades e outro bom tanto são consequências. No contexto, os erros aparecerem como que impondo lições inescapáveis. E aí voltamos para aquele paradigma sartreano: “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”. Na infância, as descobertas são decisivas. A turma de amigos revela algum tipo de identidade própria, como quando nos refletimos em amizades-espelhos que também estão em transformação. Turma da Mônica: Lições, dos irmãos Lu e Vitor Cafaggi, gira ao redor de uma delicada ideia de punição enquanto formadora de uma percepção da realidade. Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão têm de lidar com essa coisa emergencial chamada tristeza. Mas ela, assim como a vida, também passa.

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Chaves: a história oficial ilustrada

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Bons humoristas existem aos borbotões. Já artistas completos cuja linguagem do humor é a possibilidade dramática preferida são raros. De talento extraordinário, então, fiquemos com três: em português, Chico Anysio; em inglês, Charles Chaplin; em espanhol, Roberto Goméz Bolaños, também conhecido como Chespirito (o pequeno Shakespeare, como lhe batizou o diretor de cinema Augustín Delgado). Por fazer cinema, Chaplin se arrebatou com dramas mundanos, mesmo que situados na América do Norte. O nobre vagabundo Carlitos, sua criação mais famosa, está presente em praticamente todas as culturas, com as devidas variações e adaptações culturais. Já Chico e Chespirito são essencialmente televisivos e arraigadamente fenômenos nacionais do Brasil e do México, respectivamente. Chico Anysio foi vários, alguma centenas – provavelmente o maior criador de personagens na história da dramaturgia mundial. Chespirito foi poucos, quase todos com trejeitos muito próximos. Há semelhanças corporais e de expressão muito evidentes tanto em Chaves e Chapolin (suas criações mais famosas) como em Chompiras e Dr. Chapatin, entre outros menos reprisados. Ainda assim, a qualidade do humor de suas personagens mantém quase sempre um nível alto. Como acontece com os gênios, e não só com eles, a vida traz passagens amargas. Chaplin teve de partir para um autoexílio na fase final de sua vida. Chico foi colocado de lado pela emissora que tinha seu contrato. Chespirito se viu numa trama de intrigas com seus ex-colegas de elenco, principalmente Carlos Villagrán e María Antonieta de las Nieves, por causa dos direitos de suas personagens no seriado Chaves. O livro Chaves: a história oficial ilustrada não é sobre o órfão da vila explorada pelo Senhor Barriga, mas sim sobre Bolaños. No original, o título é outro: Chespirito – Vida y magia del comediante más popular de América. Produzido pela segmento editorial da Televisa (emissora que por tantos anos sediou seus programas), a obra passa longe das polêmicas e traça um perfil biográfico de um escritor por excelência e que tendo mais de quarenta anos de idade se descobriu um astro de televisão. Coisas de mestre.

Chaves: a história oficial ilustrada, livro produzido pela Editorial Televisa. Tradução de Mauricio Tamboni. Editora Universo dos Livros, 2012.

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O Astronauta sem Regime, de Jô Soares

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O primeiro livro de Jô Soares, publicado originalmente em 1985, reúne crônicas de humor que flertam e/ou vão além do surrealismo, mas sempre mantendo aquele sorriso no canto da boca. É a união do humor com a loucura, da fome com a vontade de não engordar, do anarquismo com o fim do regime – aqui, evidentemente, a palavra tem duplo sentido. No ano chave para a reconstrução de um país democrático pós o regime ditatorial, parte para o non sense e a fina ironia rebelde ao tocar em temas espinhosos, quais sejam a moral e os valores tradicionais que podem ser subvertidos quando funcionam na anedota. Seus textos são pequenos ensaios sobre como quebrar as regras sem perder a graça.

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Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder

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O que mais chama atenção em Crepúsculo dos Deuses, dirigido pelo mestre Billy Wilder, é o quanto a arte pode ser pretexto para as maiores nulidades. Aproveitadores baratos (Joe Gillis) ou de alta classe (Norma Desmond) são não mais que seus próprios vilões. Anti-heróis de si mesmos na grande ilusão que foi Hollywood da primeira metade do século XX, quando longe das telas. A genialidade de Billy Wilder está justamente no que se chamaria de um “sarcasmo honesto”. Buster Keaton é o epicentro coadjuvante deste humour sem graça. O resultado é uma espécie de gag moral aplicada pelo diretor na qual o jogo de bridge (Keaton é um jogador no filme) sintetiza as qualidades de uma indústria que é, ao mesmo tempo, divina e cruel. Gloria Swanson, descendo as escadas em busca da glória, personifica essa crueldade dos deuses em fim de festa, com o rosto de uma Greta Garbo maquiavélica desfocando no último plano da película. Já William Holden é o modelo do que seria George Peppard anos depois em Bonequinha de Luxo (1961). Todos são aproveitadores, vivendo em um circo armado por Wilder – talvez o único que entendeu a piada à época.

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Coringa, de Brian Azzarelo

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A humanidade é definida por um sorriso amargo: sabendo-se vilã neste planeta, corre em desatino sufocando qualquer um em busca de poder – como os heróis. Não há cura, porque o desejo de sabotagem e destruição sempre tergiversou sobre seus pares. O heroísmo é tão insano porque não permite uma leitura altiva da realidade. O mais psicótico dos vilões encontra seu reflexo no espelho porque esta é a mesma história desde o começo do tempo. Caos, catástrofe, tragédia, drama. O Coringa é a chaga inevitável que explode feito combustão espontânea. O Batman é seu reverso num oceano de lágrimas, sangue e dor. Criador e criatura se compreendem e se detestam. Por isso, o universo é infinito. Por isso, não há sentido algum. É somente a possibilidade o que faz valer a pena.

Coringa. Roteiro de Brian Azzarelo, arte de Lee Bermejo. Colaboração de Mick Gray (arte-final) e Patricia Mulvihill (cores).

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Na tarca do tempo cultuamos o futuro

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Quem vive na região sul do Brasil ou, pelo menos, tem algum contato ou origem com a cultura gaúcha – que espalha-se do centro da Argentina até o Mato Grosso do Sul – certamente já viu ou experimentou uma cuia de chimarrão. Gostando ou não da erva-mate, é relevante pensar o quanto o hábito de tomar essa bebida quente, uma espécie de chá dos índios, faz parte de uma tradição compartilhada por milhões de pessoas.

O conceito de tradição assemelha-se ao de cultura. É um termo escorregadio; mas podemos, de algum modo, dizer que ela é justamente o conjunto de hábitos que várias pessoas têm em comum, seja numa família, numa vizinhança, numa cidade, num continente inteiro e, hoje em dia, em “tribos” – não ligadas por uma localização geográfica, mas unidas por gostos pessoais que espalham-se pelo mundo inteiro.

Na praça central da cidade de Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná, existe um inusitado monumento, no qual está inscrita a seguinte frase: “Na tarca do tempo cultuamos a tradição”. Desde o primeiro momento fiquei curioso em saber o que significava a palavra “tarca”, da qual nunca havia recebido notícia. – Que diabo é uma tarca?, pensei.

Aqui seria oportuno informar ao leitor que o tal monumento é uma cuia gigante?

Não sei o porquê da enormidade do objeto, talvez só Jung explique; mas sempre ficou bem claro que ali era lugar de gaúchos e descendentes, seduzidos pela promessa de terra e vida nova oferecida pela companhia colonizadora. Depois que os indígenas foram expulsos ou morreram, era a vez dos colonizadores, dos tradicionalistas, terem seu novo lugar. E, olha só, caras pintadas: a erva de vocês fica.

Bem, a tal tarca, de acordo com o dicionário, é um pedaço de madeira onde se entalham pequenos riscos para a soma de animais escravizados na pecuária, ou para a contabilidade de objetos. Na tarca do tempo. Na madeira do tempo. Um pedaço de madeira onde se marca o tempo. Um calendário entalhado em madeira. O tempo registrado de forma contundente, como uma escultura. Um molde do tempo.

Cultuar também significa venerar, reverenciar, ter admiração e respeito. No calendário entalhado reverenciamos a tradição. A cultura, aquilo que é compartilhado entre muitos. A tradição, a cultura entregue de geração em geração. Aquilo que recebemos de nossos pais. Honra.

É estranho pensar em cultura no séc. XXI. As mentalidades estão se transformando, rapidamente. Saímos de um mundo multicultural, onde era admitida a convivência entre várias culturas diferentes que não se confundiam, ligadas por um passado histórico comum, para outro mundo, intercultural, onde as diferentes culturas misturam-se e não parecem mais estar ligadas pela tradição, mas sim por ideias, pelo futuro.

Como pensa a nova geração? Quando olho para meu enteado, muitas vezes penso no que sente em relação à região onde vive e ao passado. Sendo um nascido após o impactante evento de 11 de setembro, como lida com uma realidade em que a internet sempre existiu e sempre foi onipresente? Acredito que, para ele, pouco importa a cidade onde mora ou o que ocorreu na época de seus pais e avós.

Nós já não transmitimos a ele uma tradição compartilhada há muitas gerações. Para a minha geração, que cresceu bombardeada por videocassetes e videogames, a região de vivência já era pouco relevante. Agora, tudo está ainda mais diluído. Em nuvens de bits e bytes, o passado está sempre presente no You Tube, na palma da mão. Está gravado, entalhado na tarca, nunca vai embora. Para que cronistas? Para que disciplina histórica? Os vídeos não mentem, não podem ser manipulados. Deixem-me fazer minha própria interpretação dos fatos.

Será?

Sempre haverá um narrador, um olhar, uma ênfase. Observador e objeto são um só apenas no mundo espiritual. Por aqui, as deep fakes, os vídeos altamente manipulados, editados e enviesados, prometem virar as ideias de pernas para o ar, fazem vítimas, agitando os mais calmos e nocauteando os mais incautos.

A idealização do futuro e a rejeição dos estudos do passado. O culto ao presente. O agora. O historiador Jacques Le Goff dizia que havia uma dualidade nas mentalidades, que dividiam-se entre Antigo e Moderno, Progresso e Reação. Para um homem medieval típico, o mundo tendia sempre à desordem, ao fim dos tempos. Já para um filho médio do séc. XX, o futuro era a promessa de prosperidade tecnológica – caso evitássemos a bomba atômica, é claro.

Bem, para onde vamos? O aqui e agora. Procuramos não deixar nada aos nossos filhos, a não ser valores de harmonia e respeito por si mesmo e seus semelhantes, desde plantas e animais, até a toda ecosfera. A imensa iconosfera virtual onde sua mente habita é fortemente agitada pelos ventos dos tweets, memes e comentários – mas seus pés são como raízes no chão da realidade, onde as pessoas ainda precisam estudar e trabalhar para crescer ao sol.

Eu vi minha mãe bebendo chimarrão durante toda minha infância e juventude, mas nunca havia tomado. Apenas observei. E resolvi fazer o mesmo depois de adulto. Uma ideia que foi cultivada e floresceu muito tempo depois. Não cultuo a tradição, mas tenho respeito por ela, assim como tenho respeito pelos seres humanos e seus devaneios.

Espero, de verdade, que minha prole não nos reverencie. Que minha descendência afetiva, e efetiva, encontre ocupação e realização, apesar do poder sem fronteiras do capital digital sobre o trabalho precarizado. Que não nos cultue. Mas que sua geração aprenda com nossos erros e nos perdoe por não termos deixado um mundo melhor. Daqui a 30 ou 40 anos, espero que ainda possamos dividir uma cuia; eu e meu enteado, sem compromisso, olhando as nuvens…

escultura

> Esta postagem foi uma colaboração do escritor Tiago Masutti. Para conferir outros conteúdos deste autor, confira seu blog Ficção Paranoica ou siga-o no Facebook, Twitter, Instagram e LinkedIn.

Secos & Molhados, álbuns de 1973 e 1974

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Na década de 1970, o rock’n’roll deixou de ser apenas diversão para se tornar comunhão. Até os Beatles sacaram que não dava para continuar no iê-iê-iê. A exaltação do piscodelismo, o refinamento do progressivo, o glitter exagerado do glam e muitas outras variáveis ajudaram a difundir (e confundir) o rock como ideia para além de si mesma. Não era só rebeldia juvenil; era vida transpirando, viagens sem destino à procura de uma essência. Ou nada disso. Pelo meio do caminho, a união dos talentos de João Ricardo (vocais, violão e harmônica), Ney Matogrosso (vocais) e Gérson Conrad (vocais e violão) retumbaria na deslumbrante Secos & Molhados, uma das bandas brasileiras mais influentes na história da música. E nem vamos entrar no mérito da pintura facial do grupo anteceder aquela da banda de rock (ou loja de produtos personalizados?!) chamada Kiss. Os álbuns de 1973 e 1974, ambos chamados apenas Secos & Molhados, são os únicos que incluem o trio original e trazem o vocal-líder insubstituível de Ney. Letras curtas e viciantes somadas às harmonias elaboradas prescreviam um outro rock nacional que poderia falar de tudo: da latinidade do sangue ao homem que vira lobisomem, das terríveis consequências da bomba de Hiroshima ao verme que passeia na lua cheia. Como o melhor do rock, não há limites. Secos & Molhados foram tão geniais – um fenômeno de vendas de discos – quanto efêmeros em sua formação clássica. Dois álbuns indispensáveis para quem curte rock’n’roll no Brasil ou em qualquer lugar do mundo.

secosmolha

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Gravidade (2013), de Alfonso Cuarón

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Filmes como Gravidade, do diretor Alfonso Cuarón, projetam uma certeza de que o cinema nasceu da ciência para abraçar a arte. O exato nascimento desta sétima e última arte se dá pela benção da tecnologia. Antes da exibição, o cinema já existe na máquina. Assim como o conhecimento científico, as artes se completam através de um continuo exercício da técnica. E Gravidade é a excelência tecnológica do início ao fim.

Mas não me entendam exclusivamente pelo viés dos avanços visuais que o mundo digital legou ao cinema contemporâneo. Para fugir disso, reveja em sua coleção o trabalho de Stanley Kubrick em 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968). A ciência de um filme ambientado no espaço já estava completa lá. Mas Cuarón distancia-se do mundo épico e sensorial da obra sessentista. O diretor sintetiza a filosofia extemporânea numa situação mais do que concreta: continuar a existir. Essa constância de sua personagem central, a astronauta Ryan Stone (Sandra Bullock) também será a de seus planos, cenas e sequências indissociáveis. A poesia inevitável de uma película cósmica terá muito mais a ver com os limites do espaço ao redor do que com a infinitude do universo que se expande.

Se Alfonso Cuarón é um cineasta que contempla todas as possibilidades definindo sua arte pela técnica (ou seria o contrário?), essa mesma determinação está visível no trabalho de Sandra Bullock, tão excepcional e metódica como em A Casa do Lago (2006), de Alejandro Agresti.

Não há espaço para o solene em Gravidade: pois o tempo não faz apagar memórias. E na ausência das condições mínimas de sobrevivência, Stone (pedra, em inglês) cai com dignidade.

Afinal, se as leis da física são a favor da vida, mantendo o universo unido, também ao artista recai o peso de sua própria existência.

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Entre a Praça e o Porto, de Angelo Renato Biléssimo

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Sob a égide da liberdade, parece-nos que a faceta mais relevante da história é sua capacidade de jamais se esgotar. O recorte objetivo de uma documentação disponível (mas pouco explorada) nos permite ir além do que os dados contam na superfície. Neste Entre a praça e o porto: grandes fortunas nos inventários post mortem em Desterro (1860-1880), o historiador Angelo Renato Biléssimo lida com o passado da capital catarinense, então chamada Desterro, para discutir as relações humanas na sua complexidade de sempre, porém com um vigor pioneiro. Os inventários post mortem, que servem de eixo condutor do livro, revelam nuanças de uma elite que se estruturou na cidade e cujos desenlaces socioeconômicos ainda são presentes no cotidiano de Florianópolis. A escravidão também marca presença no livro – os cativos faziam parte do patrimônio de muitas destas famílias com grande poder na economia e na política. Porque a cidade e as pessoas nunca param no tempo.

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Superman: Entre a Foice e o Martelo

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E se aquela pequena espaçonave de Krypton tivesse caído numa fazenda coletiva na União Soviética? Aquele bebê a bordo – possivelmente o único sobrevivente de um planeta muito mais evoluído que a Terra – também se tornaria um símbolo para o mundo livre? Eis o tema de Superman: Entre a Foice e o Martelo, história em quadrinhos com texto de Mark Millar, desenho de Dave Johnson e arte-final de Andrew Robinson. Que destino teria o homem que se tornaria super? Ele deixaria de lado o intervencionismo econômico de Roosevelt com o New Deal, mais tarde teorizado por Keynes em sua Teoria geral do emprego, do juro e da moeda? Seria ele um escoteiro comunista, seguidor materialismo histórico e dialético? “A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes”, escreveram Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista. E poderíamos complementar tal ideia afirmando que a história destas mesmas sociedades também se deve a uma sucessão de acasos e coincidências – como o local de pouso de uma pequena nave lançada de um planeta prestes a explodir…

superfoice

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O tempo não é lugar

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É curioso o fato de que quase todos que se encantam pelo filme Em Algum Lugar do Passado (1980), de Jeannot Szwarc, prendem-se nos detalhes errados. O tempo é metáfora, não é lugar. O amor é situação, não é fim. Viajar no tempo, então, para esta produção, é tão inevitável quanto qualquer outra narrativa. Assim, não há nada de extraordinário na parte científica da viagem em si, mas sim nas pessoas que dela participam.

Explicar o envolvimento das duas personagens principais (Richard Collier e Elise McKenna) é achar que a filosofia pode trazer as respostas para todas as perguntas ou, ainda, acreditar que a ciência tem alguma precisão que não àquela inerente à especulação. Se existe uma sutileza na interpretação de Christopher Reeve (Richard) e Jane Seymour (Elise) tal atitude tem o mérito de equilibrar o romantismo de uma época distante com a atemporalidade do amor.

Tanto o filme quanto o livro que o inspirou, publicado em 1975 pelo escritor Richard Matheson, tratam, sobretudo, de experiência. E estamos falando aqui justamente da experiência individual de Richard, por mais que as personagens ao seu redor apareçam nas duas épocas abordadas naquele enredo: o início do século XX e o final dos anos setenta. Aqueles que lhe cruzam o caminho nos dois momentos, como a própria motivadora de sua viagem (Elise) ou o porteiro que recorda vagamente de já tê-lo conhecido são, por assim dizer, partícipes de uma engenhosa aventura romântica, com começo, meio e fim – não necessariamente nessa ordem.

São tudo sugestões que dão alguma coerência naquela sensação inerente de uma construção histórica em movimento, possibilitando a transformação imediata do factual em atemporal. Esta é a busca empregada por Richard através do tempo: aceitar que os fatos são tão essenciais em sua própria história quanto o que ele faz a partir destes.

Para quem acredita na possibilidade de universos paralelos fica compreensível aceitar que todas as decisões possíveis já foram estabelecidas e que o livre arbítrio é um navegar entre tantos destinos possíveis. Não é de todo mal pensar que o filme opta por uma narrativa convencional justamente para tratar sobre o tempo que, convenhamos, além de ser metáfora é sempre passado; nunca presente ou futuro, porque o que se vive é o que se lembra e o que se vai viver depende do ocaso – ou livre arbítrio.

Se querem crer num amor que ultrapassa as barreiras que o universo estabeleceu, tudo bem, mas que ao menos assistam ao filme com os olhos não tendenciosos, procurando a todo momento razões que a própria razão desconhece.

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A Sangue Frio, de Truman Capote

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A Sangue Frio, de Truman Capote, é possivelmente uma das maiores reportagens já feitas. Não tanto pelo triste episódio real que revela (uma família assassinada no Kansas), mas por colocar um colossal ponto de interrogação nos limites entre jornalismo e ficção/literatura. Junto com o monumental Hiroshima, de John Hersey, o livro de Capote é uma aula que faculdade alguma pode ensinar. A obra escapa aos parâmetros tradicionais e se ocupa de sentidos universais que o jornalismo por si só não daria conta.

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O Capitão para além da América

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Podemos deduzir que, em essência, o Capitão América foi criado por Jack Kirby e Joe Simon como uma arma de guerra. E tal afirmação soa ligeiramente irônica quando nos damos conta de que a sua principal ferramenta de trabalho é um escudo, símbolo máximo da proteção.

Ao longo de sua história no universo das revistas em quadrinhos, o herói deixou para trás aquele louvor à pátria amada que todo soldado deve carregar no peito e passou a questionar o papel de seu país naquilo que o mundo se tornou. Neste cenário cada vez mais globalizado, a própria ideia de um Capitão a representar a América soa, por vezes, incoerente.

Assim, atualmente, não adianta o herói se apresentar socando Hitler ou quem quer que seja repetidas vezes para se criar um vínculo de confiança. Em 1941, meses antes dos Estados Unidos entrarem oficialmente na Segunda Grande Guerra, o Capitão América / Steve Rogers inaugurava sua própria revista acertando em cheio o bigode do ditador austríaco. E bastou para o sucesso da personagem à época. Terminado o conflito, o herói não resistiu às quedas nas vendas e foi colocado de lado pela editora Timely Comics – que viria a ser Atlas Comics e, pouco depois, Marvel Comics. Somente na década de 1960, o mestre dos textos para quadrinhos e criador de dezenas de personagens, Stan Lee, viu uma oportunidade de trazer Rogers de seu congelamento. Não tardou para o Capitão liderar a lendária equipe dos Vingadores e nunca mais deixar o panteão da nona arte.

O século XXI chegou com mais perguntas sem respostas. A Marvel ressurgiu das cinzas e o caminho quase natural foi migrar a atenção para as telas de cinema. Entretanto, para um filme baseado num super-herói chamado Capitão América funcionar em todo o mundo, seria necessário adaptá-lo também dentro de um enredo global. Não por acaso, Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), de Joe Johnston, soa ligeiramente distante das outras adaptações dos Estúdios Marvel porque se passa num momento histórico no qual o cotidiano era visto em preto e branco, com a ameaça clara do nazismo e do fascismo sobre as nações auto-denominadas livres. Johnston não era estranho ao gênero de filme de super-heróis. Com Rocketeer (1991), trouxe aquela nostalgia das matinês aventureiras qual Indiana Jones fizera na década anterior. E, neste contexto, teve êxito.

Hoje, porém, os dilemas estão dispersos e vão muito além de ditadores com o ímpeto do domínio mundial. São tempos de individualidades afloradas e de globalização – é necessário proteger e atacar. Um escudo apenas não é o bastante. Uma contradição que os irmãos diretores Anthony e Joe Russo souberam explorar em Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014). Na produção, Steve Rogers (Chris Evans) enfrenta dramas pessoais para além de um soldado. Tal artimanha se transformou na principal ferramenta para ganhar a empatia dos espectadores das mais distintas nacionalidades, incluindo até mesmo nativos dos países que outrora formavam a Aliança do Eixo – um passado que se resolveu de alguma maneira. Ainda que dentro do contexto dos filmes realizados pelos Estúdios Marvel, o enredo desta sequência se sustenta tanto pela qualidade de suas personagens quanto por trazer uma relação direta com o tempo presente. Esta era tecnológica, na qual todas as nossas ações ficam registradas nas memórias de computadores, deixa o Capitão América deslocado: afinal, ele é uma figura de um tempo em que os heróis e os vilões estavam bem definidos (a saber: a Segunda Grande Guerra). Enquanto assistimos ao seu drama, lembramos que aqui mesmo no mundo real esses problemas soam familiares. Recentemente, o analista de sistemas Edward Snowden fez o mundo repensar a utilização da internet ao vazar dados da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos, confirmando que o país recolhe e monitora informações de todo o planeta, muitas vezes de forma não autorizada. Assim, trocamos a NSA pela fictícia S.H.I.E.L.D. e o cinema outra vez toma a realidade por empréstimo para contar sua própria versão dos fatos. Desta vez, até mesmo Nick Fury (Samuel L. Jackson), diretor de operações da S.H.I.E.L.D., tem de dar o braço a torcer ao se deparar no meio de uma conspiração mundial que pretende criar uma falsa liberdade originada por um massacre sem precedentes. Estes ares de thriller político é, possivelmente, o grande ponto a favor do roteiro que se comunica com as plateias atuais. E, apesar de ser uma peça chave, o Soldado Invernal do título não é maior do que os questionamentos do Capitão América / Steve Rogers sobre este Novo Mundo: como na filosofia de Nietzsche, o que é a verdade se não apenas uma ideia construída pelas pessoas que têm poder?

Com fama de personagem chato no universo dos quadrinhos, chega a ser irônico que Steve Rogers apareça como a força moral no filme Capitão América: Guerra Civil (2016), também dos irmãos Russo. Irônico, mas não inesperado. Caso parecido já se dera com Anthony Stark, alter ego do Homem de Ferro, uma personagem ríspida nas páginas e praticamente um fanfarrão na tela grande, muito em virtude da atuação descontraída de Robert Downey Jr. A reinvenção é um truque manjado do entretenimento, mas ganha nossa atenção quando feita para corroborar e surpreender expectativas históricas. Guerra Civil, a história original, foi publicada nas revistas da Marvel entre os anos de 2006 e 2007. Portanto, antes do início do Universo Cinematográfico Marvel em 2008. E talvez aí esteja a principal diferença entre as mídias: enquanto nos quadrinhos as lições sociais estão claras, no filme elas se dissipam ante o poder e o carisma de suas personagens-chave desenvolvidas para uma plateia ampla e diversificada. Ainda assim, não sejamos ingênuos ao ponto de acreditar que estas atualizações dos super-heróis não atendem aos mesmos interesses de antes. Atendem, evidentemente. Mas há uma seriedade e honestidade que a própria história faz questão de destacar. Se a Guerra Civil Americana fez dos Estados Unidos o país que conhecemos atualmente, podemos olhar dentro dos olhos de Steve Rogers para encontrar ali uma verdade que nos escapa: um futuro possível.

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Futebol à vera

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Luis Fernando Verissimo não é um camisa 10 de origem qual Pelé e tampouco almeja tal posição. Ainda assim, difícil não colocá-lo numa posição decisiva. Talvez um meia ou ponta-esquerda como Rivelino. Craque, com certeza. Entre suas paixões – para além da platônica por Luana Piovani –, Verissimo filho derrete-se pelo futebol bem jogado; aquele que, quase sempre, está muito mais na lembrança do que no presente. Tanto em Time dos Sonhos quanto em A Eterna Privação do Zagueiro Absoluto, o futebol ganha sempre, e nem importa o resultado da partida. As crônicas do autor são pequenos gols. Alguns mais bonitos que os outros, é bem verdade. Mas, contradizendo a assertiva anterior, diria o centroavante Dadá Maravilha, frasista-mor do futebol brasileiro, que “não existe gol feio, feio é não fazer gol”. 7 a 1 para o Verissimo. E contando.

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Fuga Para a Vitória (1981), de John Huston

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Justamente porque se trata do evento mais espetacular e terrível da era contemporânea, a Segunda Grande Guerra permite um infindável número de recortes e interpretações. Das batalhas épicas aos dramas de sobrevivência, escondem-se milhares de alternativas tão distintas quanto curiosas. O futebol, por exemplo, é o tema geral do filme Fuga Para a Vitória, de John Huston, ambientado na Alemanha nazista de 1943. Eis aqui uma desengonçada versão do gênero “fuga de prisão”, tendo por leitmotiv um jogo de futebol que coloca num lado do gramado os prisioneiros aliados e, do outro, um time formado por alemães. As presenças de Michael Caine, Sylvester Stallone, Max Von Sydow e Pelé – sim, o próprio Atleta do Século XX – só fazem aumentar o clima de fábula antiguerra que apenas no cinema é possível existir. Divertido como uma pelada disputada num campo de barro e lama.

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Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano

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“O jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo, que não é organizado para ser jogado, mas para impedir que se jogue. A tecnocracia do esporte profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe a ousadia”. Assim o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano descreve o futebol da virada do século XX para o XXI no livro Futebol ao sol e à sombra, publicado desde 1995 no Brasil em formato de bolso pela editora L&PM. Galeano não poupa nem mesmo o rei Pelé, ainda que engrandeça seu futebol. Comenta: “Fora das canchas, nunca doou um minuto de seu tempo e jamais uma moeda caiu de seu bolso”. Cita Shakespeare para remontar às origens da festa pagã que tem no gol seu desejado clímax. Destaca ídolos, clubes, seleções e Copas do Mundo para falar de uma paixão terrena presente em praticamente todo o globo, mas quase sempre desprezada pelos historiadores. Porque o futebol é tudo isso e muito mais.

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História de Amor

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Deixem-me contar uma história que há muito nos foi legada. Viviam naquela cidade dois jovens de famílias rivais que, um dia, viriam a trocar beijos e juras de amor sob a noite de inconstante lua. Ele, desgostoso com uma desilusão amorosa e com aquela guerra odiosa entre as duas casas inimigas, entrou no baile mascarado. Ela, tão jovem e inocente, sabia que quando o amor chegasse não seriam necessárias máscaras ou quaisquer enfeites, porque o cupido não desempenha seu papel pela metade.

Encontraram-se como quem descobre um tesouro a que não se procura, pois o destino tratou de lhes pregar uma peça tão bem engendrada quanto traiçoeira. Mesmo o frei, ouvidor constante dos sentimentos daquele jovem, primeiro viu certa inconformidade na recém chegada paixão. Os jovens, pensava o religioso, mudam de amores como as árvores perdem suas folhas. No entanto, aquela união inesperada poderia aquecer corações hostis e selar de vez a paz desejosa até mesmo pelo príncipe guardião da cidade.

Em segredo, casaram-se. O frei realizou a sagrada cerimônia confiante no fim daqueles pesares sem cabimento. Mas eis que o drama humano ganha ares de tragédia, quando o ódio fala mais alto que o amor. A morte alheia, então, bane o jovem da cidade em que ele tanto adora viver. Sua esposa finge-se de morta para ir ter ao seu encontro, mas a falta de comunicação entre os amantes principia o final infeliz.

Assim, o jovem Romeu bebe o veneno mais poderoso que existe na esperança de reencontrar sua amada Julieta. Ao acordar do sono profundo que lhe trazia os falsos ares da morte, Julieta percebe seu marido sem vida e não titubeia em cravar em sua própria carne o punhal que seu amado trazia consigo. Nunca houve história tão triste quanto esta de Julieta e do seu Romeu. Nunca houve inspiração maior aos namorados como esta dos jovens que trocaram juras e beijos de amor sob a lua inconstante e que jamais serão esquecidos.

> Repostagem de uma crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 12/06/2008.

romeus

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