Comissão parlamentar

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Não é que ela não o queira muito, mas, justamente, por bem querer. Uma etapa na entressafra, uma vontade surpreendida pela própria ausência de dúvida. O atraso tende a ser suportável na medida em que o desejo vem acompanhado da boa esperança. É o hábito que lhe sufoca, ainda que não se deixe abater pela repetição. O uso da gravata, felizmente, não se faz obrigatório para ela. Porque os dias também são cinza, o lago da esplanada sangra prata. Nos corredores, o murmúrio d’algumas vítimas apontam o caminho. Ela segue, solidária, abraçando forte quem se deixa comover. Como sempre, o tempo é hoje. O futuro esmorece à primeira lembrança. Foram-se os dias sem prestar contas. A poltrona confortável custa mais do que o salário mínimo. A realidade capital é outra. Quando tem início a comissão parlamentar, ela abre os trabalhos com sua dignidade característica. Não pisca. O olhar sério. Não titubeia. O inquirido é ministro de estado; enfim, uma pessoa. Merece o respeito no que lhe é inerente à espécie humana. Mesmo atrasado, ele foi bem recebido. O país há de suportar essa ligeira demora. Ela não o fere, nem com palavras, tampouco com a ausência destas. Suas dúvidas – as dúvidas dela – são aquilo que há de mais legítimo em todo o auditório. A sessão acaba, enquanto a responsabilidade dos atos de cada um continuará eterna e efetivamente. Afinal, todos os dias são agora.

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O dia em que o teclado brilhou rosa

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O dia 3 de janeiro de 1988, um domingo, foi uma data estranha na casa de Edward Lindqvist, um recluso bibliotecário de Estocolmo. Às 10h da manhã o dia mal havia clareado. Em sua sala de estar, que também fazia o papel de um pequeno escritório, a lareira estalava sob o fogo, que era suficiente para aquecer a casa inteira. Lindqvist veio lentamente da cozinha segurando uma xícara de café, com as duas mãos. Parou diante da janela, que era o único obstáculo entre o ele e a neve. Tomou um gole e ficou com o olhar perdido no horizonte, com o pensamento atolado em memórias.

Fazia cerca de 1 ano e meio que a grande nuvem radioativa soviética havia chovido de maneira delicada e imprevisível sobre a capital do país escandinavo, durante a primavera. No começo a população não deu muita importância ao fato. Era uma chuva normal, como qualquer outra. Porém, aos poucos, perceberam que havia algo estranho. Não era bem o cheiro. Não era o gosto. Também não era o toque. As pessoas definitivamente não sabiam explicar o que havia de errado. Mas algo não estava certo com aquelas gotas de água que vinham do céu.

De qualquer forma, a chuva passou. As semanas e os meses transcorreram normalmente na Suécia. Depois do pânico inicial, a serenidade voltou a cravar seus dentes afiados sobre o cotidiano. Ninguém mais esperava o fim do mundo. A Terceira Guerra Mundial, caso ocorresse, certamente pouparia o norte da Europa de maiores estragos. E ela parecia uma distopia cada vez mais distante da realidade. O Tratado de Forças Nucleares, entre Reagan e Gorbachev, parecia estar prestes a sair do papel. Os povos caminhavam para a congratulação geral.

Este era o sentimento na sociedade. Mas não para o bibliotecário, contudo. Sua mente borbulhava de pensamentos ácidos agora, principalmente sobre tudo que estava acontecendo no mundo, em seu país e em sua vida. Seu emprego na Biblioteca Municipal, apesar da estabilidade aparente, estava por um fio, devido a sua notória resistência em abandonar a máquina de escrever elétrica e finalmente começar a operar no sistema de informática da instituição – que já estava em uso há 5 anos, mesmo sob o desdém de Edward.

Para contornar a situação –  e os olhares maldosos de Rosa, a gestora de Tecnologia da Informação na repartição pública –  Lindqvist comprou um computador para a sua casa, com o qual estava determinado a aprender a lidar. O modelo era um Commodore Amiga 500, um lançamento recente do mercado, com interface gráfica colorida e simpática, mouse, entrada para disquetes e visual moderno. O técnico da loja havia montado o computador na casa do bibliotecário no dia anterior, e tudo parecia estar funcionando dentro da normalidade, após os primeiros testes. Agora era hora de trabalhar, a todo o vapor.

Ao ligar o aparelho naquela manhã congelante de domingo, a aparência era de normalidade. Edward deixou seu café sobre a mesa e ficou de braços cruzados, em pé, apenas observando a inicialização da máquina digital. Ao fundo, com o canto dos olhos, observou sua antiga máquina analógica – uma máquina de escrever portátil, na verdade, que estava repousando sobre o sofá, aguardando um destino. A Amiga 500 era agora a melhor parceria que o bibliotecário poderia ter, e nada mais iria bloquear o caminho entre ele e o mundo moderno. O lixo obsoleto do passado que tomasse seu rumo, sem Lindqvist.

Todavia, após o ligamento, o aparelho da Commodore começou a emitir sinais estranhos. Algo não estava bem em suas engrenagens. O Sistema Operacional parecia fora de uso. O bibliotecário sentou na cadeira. Mexeu no mouse diversas vezes. O cursor na tela seguia suas ordens, porém, ao clicar em qualquer janela, nada acontecia. Sons de outro planeta eram perceptíveis dentro da Amiga, e Lindqvist encostou seus ouvidos no hardware, para escutar melhor. Era como se dentro da maquinaria pesada houvesse um ser distante, diminuto e trancado em um mundo à parte. Um gênio da lâmpada pedindo socorro, devorado por partículas subatômicas de silício e nuvens eletrônicas de solidão.

O que estava acontecendo com ele?

Mas ele quem?

O teclado. Talvez o problema estivesse apenas no mouse, e o teclado do Commodore pudesse oferecer soluções práticas para a falta de sintonia entre homem e tecnologia. Se Edward sentia-se à vontade diante de uma máquina de escrever, das teclas mecânicas de um aparelho dedicado unicamente à arte da escrita, era bem possível que o teclado, que flutuava diante de si com um brilho rosa metálico, fosse o portador de palavras mais amigáveis que aquelas recitadas no interior do Amiga, como numa oração ao Deus ex Machina.

Era isso. Iria colocar sua teoria à prova. Sorriu. Com movimentos lentos, esticou seus braços para o alto e agarrou o teclado no ar. Recolocou o periférico sobre a mesinha. Permaneceu alguns minutos olhando para o monitor, ainda indeciso, pensando no que escrever. Seus globos oculares incharam e estouraram para fora de suas órbitas. Estalou os dedos, como se estivesse se preparando para tocar piano. Na tela diante de si, a partitura de bits e bytes fez uma rolagem infinita, através dos programas e aplicativos mais avançados, utilizando-se de toda a potência dos 7 MHz e 512 KB de RAM. Tanta abstração para objetivos tão singelos.

Pare!

Dentro do Commodore algo gritou com força. Uma voz robótica suave, porém imperativamente programada. Soava mais como alguns apitos aleatórios, mas Lindqvist percebeu claramente o comando, em sua linguagem materna, a Assembly. Pare. O que sua Amiga estava querendo dizer com isto? Ele não deveria avançar rumo ao domínio da informática? Não era esse seu propósito como homem de fin de siècle? Para onde ir agora, se nem mesmo os deuses do Vale do Silício permitiam sua entrada no paraíso do código binário, onde lutaria eternamente pela atenção de Rosa, sua amada gestora de TI da Biblioteca Municipal?

Quem é você? – perguntou Edward, ousadamente.

Eu sou você – apitou a máquina, que tinha cara de poucos amigos.

Eu sou você. Que raio de algoritmo dava uma resposta desta? Onde os programadores do AmigaOS estavam com o processador quando escreveram esse código? Eu sou você. Homem-Máquina. Homem-Amiga. Homem dentro da amiga. Não. Não era possível. Sim… A gestora de TI. Isto era obra dela, estava cristalino como neve sobre as flores. O que a Amiga ela estava pensando?

O que Rosa queria comigo? Encontros furtivos no fundo da seção de Literatura Russa? Carícias não programadas no setor de livros raros? Ou, quem sabe, uma mãozinha providencial para desembaralhar um punhado de fios soltos em sua cabeça? O coração do bibliotecário Edward, entusiasta adormecido das Ciências da Informação, dava fortes sinais de travamento e erro no sistema. Uma xícara de café. Ela lhe acordaria do mergulho profundo nos mares revoltos dos dados. Devolveria-lhe, como uma náufrago da espuma de zeros e uns, às praias do sujeito homem.

Altivo, indomável, animalesco.

Sem dor. Sem periféricos de entrada ou saída. Apenas homem mente. Somente máquina sente.

Deus. Amiga. Rosa. Metálica. Eu.

Aqui estou eu.

***

C:\>encerra o computador.exe

***

Obituário:

Edward Lindqvist. Solteiro. 36 anos. Foi encontrado congelado sobre o teclado, com o fogo interno apagado; uma rosa na mão e o rosto sujo de café seco. Morreu de amor por sua Amiga. Não deixou programas abertos.

 

commodore

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Pela fresta dos olhos


Inebriados que só eles, particulares donos de um mundo ainda a ser descoberto. Mais do que um encontro; a fissão nuclear, o enigma de uma bomba estelar. O beijo que supera o vácuo contínuo transforma neutrinos em pura energia. Uma solução enigmática criada em tubos de ensaio. São dois ou mais e todos porque sempre estiveram por aí, no aguardo de um cometa ou uma chance de eclodir. O lápis no lapso temporal escorrega à força da gravidade. O poema dele é todo dela. Acariciam a pele e o pelo se eriça por vias lácteas e outras nem tanto. Partículas subatômicas vêm à tona. É suor, saliva morna. Mãos, unhas sangrando o tórax em sadismo sedento. Buraco negro; matéria escura. Dos que resistem dão com lugares impenetráveis. Lascívia e cosmogonia. Um peso e nenhuma medida. A mordida se revela ainda mais forte. A não-contenção da própria experiência do ser e renascer. Pela fresta dos olhos, uma nebulosa dá a dica final: amar também pode ser uma palavra exagerada. O tempo não poupa sequer os amigos. Vastidão; nada. Eles se engolem qual o desabrochar do cosmos. Outra flor despetalada.

Clímax, de Bruna Lombardi

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Flanar entre contraditórios de si ou de mim; porque não há fuga possível – pelo contrário, há sim. Uma hora ela se faz poetisa, outra poeta. Por vezes, romantiza. Noutras, decreta: o amor não tem estado definido. É bruto, é leve, é sexual e também hígido. Quem nasceu para comandar também pode se dar ao luxo de dar. Receber e brincar com a palavra, seduzir como quem o coito sucede à lavra. J’ai travaillé au max. Imagina em francês o livro Clímax! Bruna Lombardi, autora e atriz, e muito mais. Destila sensações proféticas quais gritos de “ais”. A obra é ficção, mas se completa na realidade. E se um não é não, também pode ser outra coisa dependendo da idade. O pudor contempla a si mesmo tramando receber um beijo. Os versos são inversos conforme o ensejo. Wait a little. Espere um pouco. São Paulo or Seatlle? Ser são ou louco? Agradecer aos céus, retribuir os dias idos em Paris. Desabrochar feito rosa do povo ou nobre flor de lis. Sua rede é de felicidade, sua gente é de expressão. Em todas as sertanidades, nem Diadorim é exceção. Personagem de seu próprio enredo, quiçá adorável iconoclasta? Oras, bela porque se lhe cabe, mas não lhe basta. Ela olhou para dentro, viu uma luz e deu o melhor de si. Sua escala poético-musical não começa em dó e tampouco termina em si.

> Clímax. Escrito por Bruna Lombardi. Editora Sextante, 2017.

climaxdabruna

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o que o sol faz com as flores, de rupi kaur

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mulheres e homens trafegam por um mesmo espectro de dramas e tramas. por venturas e circunstâncias, existem questões de gêneros que se acumularam ao longo dos séculos e vieram ter entre si no alvorecer do segundo milênio. não é qual explosão de um vesúvio, tampouco uma sensação de alívio: ao contrário! tal encontro é quase um desvio nos caminhos, um convívio de pergaminhos. sim, a literatura, como todas as artes, une a todos. algumas nuanças apenas nos exaltam, despetalando ideias que surgem com o tempo. rupi kaur, em o que o sol faz com as flores, tem a seu favor toda essa estranheza típica de uma era que prefere o empoderamento possível ao temível poder. seu momento permite uma discussão libertária sobre temas tão antigos quanto ainda longe dos consensos. o amor, o sexo, o feminismo, o feminino, a imigração, o corpo, a alma, a natureza… tudo o que toca, tudo o que sente… e mais… porque a poesia tem das suas e explicar seus versos tão somente enseja uma possibilidade dentro de um universo sem fim. assim, entre ações e contradições, homens e mulheres se encontram porque não têm por onde. o girassol procura o astro-mor ou a si mesmo?

> O que o sol faz com as flores. Escrito por Rupi Kaur. Editora Planeta, 2018.

solfazflores

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Revolucionários

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Era um grupinho pequeno, discreto. Surgiu quase por acaso, como um poema numa noite fria. Três pessoas, no início. Depois, quase dez. Batizaram a formação à chegada da décima alma a distribuir suas palavras. O nome oficial dos confidentes, no entanto, ainda é desconhecido pelos não iniciados e tampouco posso revelar. As reuniões eram sempre de madrugada, quando a cidade cala e se refresca – mesmo no verão! Cabeças quentes não tinham vez ali. Cada encontro era marcado por decisões acaloradas, todas contrárias ao sistema. Proativos, intuitivos. A transformação como objetivo comum. Algum tempo depois, cansaram dos discursos. Partiram à ação. Planejaram a revolução com sigilo absoluto e tamanha maestria. Os atos teriam vez em lugares estratégicos. A intenção era clara: conclamar o povo ao hoje; retomar e compartilhar o que lhes fora usurpado. O dia chegou em si mesmo, rasgando aqui e acolá sem pedir licença. A nação acordou espantada. Os noticiários só falavam disso. As autoridades completamente perdidas, desnecessárias à iminência de um novo mundo. Ninguém entendera como, mas era real. Em cada bairro da nação, uma biblioteca surgira de um dia para o outro. E quem se meteria com eles a partir de agora?

Planetinha outrora azul

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Podemos modificar seu bebê por um preço justo. Talvez essa frase pudesse ser o título de um conto de Philip K. Dick, um dos maiores escritores de Ficção Científica do séc. XX. Mas a realidade é que a manipulação genética já está batendo à nossa porta. Sem alarde, um suposto cientista chinês acaba modificar, em laboratório, os genes de duas garotas gêmeas. Elas nasceram há poucas semanas, em perfeito estado de saúde, após terem sido concebidas através de inseminação artificial.

O anúncio, muito apropriado para os nossos tempos, foi feito através da plataforma de vídeos You Tube. Dizem que os bebês são imunes ao vírus da Aids. Não há confirmação da notícia pela comunidade científica internacional. Não foram escritos artigos para revisão por pares. Ainda não sabemos se a história irá se confirmar. Mas não importa. De acordo com Foucault, são as próprias relações de poder que legitimam o conhecimento.

E, hoje, todo o poder às redes sociais!

O que esperar do futuro que se está configurando, nas entrelinhas, debaixo de nossos olhos, sem notas de rodapé, sem gemidos, sem cara de nojo? Tal qual comida enlatada, tal qual nossas preferências políticas ou nossas séries favoritas, agora o próprio ser humano pode ser objeto de manipulação. Não apenas sua mente, mas todo o seu ser, todo o seu aparato orgânico. Seu algoritmo interno, escrito através de bilhões de anos de feedbacks positivos e negativos da natureza, agora pode ser reescrito. Não por mãos divinas.

Mãos de barro.

Agora, em vez da mão de Deus procurar tocar os dedos humanos – como bem representado no teto da Capela Sistina – é a mão dos homens e das mulheres que puxa a mão oferecida por Deus com toda a força, em atitude de desespero, derrubando o Senhor com a cara no chão. Jeová levanta-se com a face e as vestes brancas sujas de lama.

João de Barro.

Tal qual um passarinho, de levinho. Construindo uma casa para seus filhotes. Tentando se proteger da chuva e das intempéries. O filhote do João de Barro, dos desenhos do Pica Pau, do humano cara de pau, é agora um bichinho forte, resistente à doenças mais variadas. Em breve, poderemos ir ao site da Amazon e encomendar componentes separados; um Baby Kit para montar em casa: olhos, boca, nariz, cérebro, pernas. E até orgão sexual! Quem gritar mais, leva. Ou melhor, quem pagar mais, leva mais.

K. Dick previu isso, de alguma forma, em várias obras. Mas lembro de uma em particular, Os Três Estigmas de Palmer Eldritch. Neste livro, algumas pessoas se submetem a um melhoramento genético, chamado Terapia E, no qual o cérebro – especialmente o lóbulo frontal – cresce de forma acima do normal, entregando ao seu portador muito mais inteligência que o comum. Esses consumidores do amanhã são chamados de Cabeças de Bolha.

Poderiam também ser denominados de Homens de Lata.
Caras de Lata.
Humanidade insensível. Humanidade invisível.

O que resta de humano em nós hoje? O que sobrará de verdadeiro na realidade daqui a 100 anos? Não é feitiçaria, é tecnologia. Muito em breve, humanos dotados de melhoramento genético avançado poderão adquirir uma vantagem competitiva avassaladora sobre as pessoas pobres. Os ricos, é claro, serão os primeiros a fazer esse tipo de tratamento, seja para embelezar ou turbinar seus filhos, seja para derrubar seus competidores no mercado de ações. A farinha é pouca? Meu feijão primeiro.

Darwin demonstrou que o mecanismo básico da evolução na natureza é a competição por recursos e a sobrevivência. Os mais adaptados ao meio ambiente podem deixar a miséria de seu legado à posteridade. Eu? Nada tenho, nada deixarei. Mas será que os ricos vão querer ter filhos? A tendência nos gráficos demonstra que as pessoas mais abonadas têm mais coisas a fazer da vida que os proletários. Estes, coitados! Só possuem a própria prole para deixar como herança ao planeta Terra.

Para os pobres, uma herança feita de sangue, suor e lágrimas. Sem manipulação barata. Para os 99% que gemem e fazem cara de nojo, aquele 1% do andar de cima sorri com desdém e mostra aquela cara linguaruda de Albert Einstein, em sua mais famosa fotografia. Os ricos, como borboletas, poderão sair do casulo e voar para longe desse planetinha outrora azul. Por aqui, voltaremos a ser o bom e velho planeta dos macacos.

Uma banana pra vocês!

sistina

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Surfista Prateado: Parábola, de Stan Lee e Moebius

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Assim como Stan Lee, não acredito em heróis perfeitos. A antiguidade clássica nos ensina sobre a falibilidade dos mitos; porque, sob nosso ponto de vista, não existe outra narrativa que não a humana. O cosmo pode até estar aí desde sempre, mas é nossa presença nele que desperta essa coisa chamada história. Por excelência, Stan Lee era um contador de histórias. Com drama, intuição e objetividade, criou personagens que se parecem com a gente mesmo, mas a quem coisas inacreditáveis aconteceram… como ser picado por uma aranha radioativa ou ser atingido por raios gama. A genialidade, no entanto, não está no absurdo das tramas, e sim na relação pessoal para com estes desafios surpreendentes. A vida, por si só, é esta coisa sem explicação, com tantos sentidos possíveis que fazem o destino nos escapar das mãos. As grandes histórias em quadrinhos partem dessa perplexidade existencial – e o Surfista Prateado (concebido por Jack Kirby, outro mestre da nona arte, e desenvolvido dramaticamente por Lee) talvez seja um dos maiores veículos para discutir quem somos e para onde vamos. Além disso, pasmem!, ele surfa no ar. Quando Stan Lee e o também genial ilustrador francês Moebius se reuniram para produzir uma graphic novel, pareceu inevitável que um fenômeno singular na arte contemporânea despontasse no final da década de 1980. Surfista Prateado: Parábola é menos a propósito de escolhas e mais sobre consequências. O poder (mimetizado por Galactus) e sua fascinação inerente contam a história humana do passado ao futuro. O olhar decepcionado do Surfista para com as pessoas talvez seja o resultado de sua vida solitária, ainda que urdido na miséria de nossa espécie. E ninguém escapa dessa parábola.

> Surfista Prateado: Parábola. Texto de Stan Lee, arte de Moebius, cores de Mark Chiarello e John Wellington. Abril Jovem, 1989.

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A origem da desigualdade entre os homens, de Jean-Jacques Rousseau

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Ainda que seja uma sátira originada de uma competição, o Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, escrito pelo filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, levanta um inevitável pensamento “au modeTostines: A sociedade é corrompida pelos homens ou os homens são corrompidos pela sociedade? O texto, publicado em 1755, imagina um estado de natureza, algo instintivo, não poluído por definições sociais. Mas se a natureza é divina e a divindade é uma criação humana, no final das contas, o princípio natural colocado desta maneira também é social. Uma ideia, como outras tantas. E uma ideia não morre, mas pode se modificar. É o que acontece com homens e mulheres. Só a desigualdade parece ser sempre a mesma.

> Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Escrito por Jean-Jacques Rousseau. Penguin & Companhia das Letras, 2017.

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Constituição Federal de 1988, de Todos os Brasileiros

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Desde crianças que somos/fomos, dizem-nos para separar a política das outras esferas da vida comum. “Não misturem com futebol, com religião, com nada que cause algum incômodo”. Dizem-nos ainda para não discutir política. “Não perca amizades, parentes ou amores”. São ditos que se repetem ao longo de gerações justamente para nos ausentar de um debate que integra todos os dias de nossas vidas. A política, como a cultura, o afeto e outras incontáveis formas de socialização, tem a ver com tudo que diz respeito a nossa forma de ser humano. Querer afastá-la do nosso convívio é tão inútil quanto esperar que alguém deixe de sentir por vontade própria. Os que gostamos da boa política (aquela sem vícios de dominação) e dos grandes livros temos de aumentar nossa intimidade para com um dos textos mais importantes que nos diz respeito. A Constituição Federal de 1988 é o resultado de muitas vontades somadas; exemplo dos mais relevantes quando da inclusão social e da preservação da dignidade dos brasileiros. Desde a Constituição dos Estados Unidos (1787-1789), passando pela Constituição francesa de 1781 (que incorporou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão), os direitos e deveres de cada um de nós se ampliam para nos lembrar do quanto somos brilhantes como espécie, mas também seres finitos. Carecemos de um entendimento maior, possibilidade que, ao que tudo indica, jamais virá a ser. Ainda assim, há beleza no mistério. O parágrafo único do Artigo 1º da Constituição de 1988 determina: “Todo o poder emana do povo”. A frase é simples, direta e, até mesmo, nada poética. Mas coloca uma responsabilidade sobre nossos ombros do tamanho da história. E nos lembra de que a política está para todos nós como o amor está para o poeta: é impossível terminar esta relação!

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X-Men: Deus Ama, o Homem Mata, de Chris Claremont

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Na construção do preconceito há sempre uma raiz de covardia. É preciso colocar no outro a própria insignificância para se sentir vitorioso, fortalecido em meio ao caos que é a vida. Raramente, quem se concentra no caos vê a poesia que se esconde entre as diferenças. Há tantas oportunidades no desconhecido que talvez seja assustador saber-se fora do controle. Desde sua origem, os X-Men lidam com a ideia de alteridade. Uma existência depende da outra e nela encontra sentido. Na graphic novel X-Men: Deus Ama, o Homem Mata, o roteirista Chris Claremont não transige com os intolerantes e parte logo para o confronto. O pensamento obscurantista e alarmante não se dá por meio de vilões superpoderosos, mas do cidadão comum que se unge de um ódio ancestral para ditar o que pode ser correto. Religiosidade cega, poderio militar e perseguição política culminam em extremos que se devoram um ao outro, não sem antes fazer vítimas inocentes. Sim, há sempre uma ou mais soluções. Mas o amor também tem seu contrário.

> X-Men: Deus Ama, o Homem Mata. Roteiro de Chris Claremont. Arte de Brent Anderson. Cores de Steve Oliff. Panini Books, 2014.

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Hamlet: Poema Ilimitado, de Harold Bloom

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A peça teatral A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca, escrita pelo dramaturgo inglês William Shakespeare provavelmente entre 1599 e 1601, foi urdida por temas universais. Conquanto do ponto de vista ocidental, o texto como que define o imaginário e, para além deste, a própria consciência humana em suas dores e humores. O professor e crítico literário Harold Bloom, um dos maiores estudiosos e entusiastas da obra shakespeareana, busca sentidos e significados históricos neste texto que parece renascer qual fênix a cada nova leitura. E porque a humanidade ainda não encontrou sua possibilidade de convivência, parece ser mais do que legítima esta sentença: a ficção que mais se aproxima da experiência humana é, inevitavelmente, uma tragédia – no sentido da catarse apontada por Aristóteles. Ler ou reler?, eis a questão!

> Hamlet: Poema Ilimitado. Livro de Harold Bloom. Editora Objetiva, 2004.

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República e política

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Pai, aproxima de mim este cálice do conhecimento. Em tempos de irresponsabilidade política-eleitoral, quando o fascismo se aproveita da desesperança para pregar sua peça de ódio e ressentimento… Em tempos de desdém para com o significado de uma república, quando a solução mais fácil é sempre a pior… Em tempos de ausência de amor para com o próximo, quando a empatia é do que mais necessitamos… Em tempos assim, sempre voltamos ao passado em busca de nós mesmos e de nossa espécie. Somos o que sempre fomos, com uma chance inequívoca à evolução, mas titubeando em convicções miseráveis e enganosas. Porque não há qualquer sentido sem a existência e a felicidade do outro. Podemos, outra vez, deixar o medo das sombras de lado e sair da caverna para beber de tão nobre cálice.

> A República, de Platão. Martin Claret, 2002. Política, de Aristóteles. Martin Claret, 2004.

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Turma da Mônica: Lições, de Lu e Vitor Cafaggi

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É impossível definir as proporções com precisão numérica, mas uma boa parte da vida são oportunidades e outro bom tanto são consequências. No contexto, os erros aparecerem como que impondo lições inescapáveis. E aí voltamos para aquele paradigma sartreano: “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”. Na infância, as descobertas são decisivas. A turma de amigos revela algum tipo de identidade própria, como quando nos refletimos em amizades-espelhos que também estão em transformação. Turma da Mônica: Lições, dos irmãos Lu e Vitor Cafaggi, gira ao redor de uma delicada ideia de punição enquanto formadora de uma percepção da realidade. Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão têm de lidar com essa coisa emergencial chamada tristeza. Mas ela, assim como a vida, também passa.

> Turma da Mônica: LiçõesLu Cafaggi e Vitor Cafaggi. Panini Comics, 2015.

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Chaves: a história oficial ilustrada

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Bons humoristas existem aos borbotões. Já artistas completos cuja linguagem do humor é a possibilidade dramática preferida são raros. De talento extraordinário, então, fiquemos com três: em português, Chico Anysio; em inglês, Charles Chaplin; em espanhol, Roberto Goméz Bolaños, também conhecido como Chespirito (o pequeno Shakespeare, como lhe batizou o diretor de cinema Augustín Delgado). Por fazer cinema, Chaplin se arrebatou com dramas mundanos, mesmo que situados na América do Norte. O nobre vagabundo Carlitos, sua criação mais famosa, está presente em praticamente todas as culturas, com as devidas variações e adaptações culturais. Já Chico e Chespirito são essencialmente televisivos e arraigadamente fenômenos nacionais do Brasil e do México, respectivamente. Chico Anysio foi vários, alguma centenas – provavelmente o maior criador de personagens na história da dramaturgia mundial. Chespirito foi poucos, quase todos com trejeitos muito próximos. Há semelhanças corporais e de expressão muito evidentes tanto em Chaves e Chapolin (suas criações mais famosas) como em Chompiras e Dr. Chapatin, entre outros menos reprisados. Ainda assim, a qualidade do humor de suas personagens mantém quase sempre um nível alto. Como acontece com os gênios, e não só com eles, a vida traz passagens amargas. Chaplin teve de partir para um autoexílio na fase final de sua vida. Chico foi colocado de lado pela emissora que tinha seu contrato. Chespirito se viu numa trama de intrigas com seus ex-colegas de elenco, principalmente Carlos Villagrán e María Antonieta de las Nieves, por causa dos direitos de suas personagens no seriado Chaves. O livro Chaves: a história oficial ilustrada não é sobre o órfão da vila explorada pelo Senhor Barriga, mas sim sobre Bolaños. No original, o título é outro: Chespirito – Vida y magia del comediante más popular de América. Produzido pela segmento editorial da Televisa (emissora que por tantos anos sediou seus programas), a obra passa longe das polêmicas e traça um perfil biográfico de um escritor por excelência e que tendo mais de quarenta anos de idade se descobriu um astro de televisão. Coisas de mestre.

> Chaves: a história oficial ilustrada, livro produzido pela Editorial Televisa. Tradução de Mauricio Tamboni. Editora Universo dos Livros, 2012.

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O Astronauta sem Regime, de Jô Soares

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O primeiro livro de Jô Soares, publicado originalmente em 1985, reúne crônicas de humor que flertam e/ou vão além do surrealismo, mas sempre mantendo aquele sorriso no canto da boca. É a união do humor com a loucura, da fome com a vontade de não engordar, do anarquismo com o fim do regime – aqui, evidentemente, a palavra tem duplo sentido. No ano chave para a reconstrução de um país democrático pós o regime ditatorial, parte para o non sense e a fina ironia rebelde ao tocar em temas espinhosos, quais sejam a moral e os valores tradicionais que podem ser subvertidos quando funcionam na anedota. Seus textos são pequenos ensaios sobre como quebrar as regras sem perder a graça.

> O Astronauta Sem Regime. Jô Soares. Círculo do Livro, 1985.

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Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder

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O que mais chama atenção em Crepúsculo dos Deuses, dirigido pelo mestre Billy Wilder, é o quanto a arte pode ser pretexto para as maiores nulidades. Aproveitadores baratos (Joe Gillis) ou de alta classe (Norma Desmond) são não mais que seus próprios vilões. Anti-heróis de si mesmos na grande ilusão que foi Hollywood da primeira metade do século XX, quando longe das telas. A genialidade de Billy Wilder está justamente no que se chamaria de um “sarcasmo honesto”. Buster Keaton é o epicentro coadjuvante deste humour sem graça. O resultado é uma espécie de gag moral aplicada pelo diretor na qual o jogo de bridge (Keaton é um jogador no filme) sintetiza as qualidades de uma indústria que é, ao mesmo tempo, divina e cruel. Gloria Swanson, descendo as escadas em busca da glória, personifica essa crueldade dos deuses em fim de festa, com o rosto de uma Greta Garbo maquiavélica desfocando no último plano da película. Já William Holden é o modelo do que seria George Peppard anos depois em Bonequinha de Luxo (1961). Todos são aproveitadores, vivendo em um circo armado por Wilder – talvez o único que entendeu a piada à época.

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Coringa, de Brian Azzarelo

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A humanidade é definida por um sorriso amargo: sabendo-se vilã neste planeta, corre em desatino sufocando qualquer um em busca de poder – como os heróis. Não há cura, porque o desejo de sabotagem e destruição sempre tergiversou sobre seus pares. O heroísmo é tão insano porque não permite uma leitura altiva da realidade. O mais psicótico dos vilões encontra seu reflexo no espelho porque esta é a mesma história desde o começo do tempo. Caos, catástrofe, tragédia, drama. O Coringa é a chaga inevitável que explode feito combustão espontânea. O Batman é seu reverso num oceano de lágrimas, sangue e dor. Criador e criatura se compreendem e se detestam. Por isso, o universo é infinito. Por isso, não há sentido algum. É somente a possibilidade o que faz valer a pena.

> Coringa. Roteiro de Brian Azzarelo, arte de Lee Bermejo. Colaboração de Mick Gray (arte-final) e Patricia Mulvihill (cores). Panini Comics, 2011.

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Na tarca do tempo cultuamos o futuro

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Quem vive na região sul do Brasil ou, pelo menos, tem algum contato ou origem com a cultura gaúcha – que espalha-se do centro da Argentina até o Mato Grosso do Sul – certamente já viu ou experimentou uma cuia de chimarrão. Gostando ou não da erva-mate, é relevante pensar o quanto o hábito de tomar essa bebida quente, uma espécie de chá dos índios, faz parte de uma tradição compartilhada por milhões de pessoas.

O conceito de tradição assemelha-se ao de cultura. É um termo escorregadio; mas podemos, de algum modo, dizer que ela é justamente o conjunto de hábitos que várias pessoas têm em comum, seja numa família, numa vizinhança, numa cidade, num continente inteiro e, hoje em dia, em “tribos” – não ligadas por uma localização geográfica, mas unidas por gostos pessoais que espalham-se pelo mundo inteiro.

Na praça central da cidade de Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná, existe um inusitado monumento, no qual está inscrita a seguinte frase: “Na tarca do tempo cultuamos a tradição”. Desde o primeiro momento fiquei curioso em saber o que significava a palavra “tarca”, da qual nunca havia recebido notícia. – Que diabo é uma tarca?, pensei.

Aqui seria oportuno informar ao leitor que o tal monumento é uma cuia gigante?

Não sei o porquê da enormidade do objeto, talvez só Jung explique; mas sempre ficou bem claro que ali era lugar de gaúchos e descendentes, seduzidos pela promessa de terra e vida nova oferecida pela companhia colonizadora. Depois que os indígenas foram expulsos ou morreram, era a vez dos colonizadores, dos tradicionalistas, terem seu novo lugar. E, olha só, caras pintadas: a erva de vocês fica.

Bem, a tal tarca, de acordo com o dicionário, é um pedaço de madeira onde se entalham pequenos riscos para a soma de animais escravizados na pecuária, ou para a contabilidade de objetos. Na tarca do tempo. Na madeira do tempo. Um pedaço de madeira onde se marca o tempo. Um calendário entalhado em madeira. O tempo registrado de forma contundente, como uma escultura. Um molde do tempo.

Cultuar também significa venerar, reverenciar, ter admiração e respeito. No calendário entalhado reverenciamos a tradição. A cultura, aquilo que é compartilhado entre muitos. A tradição, a cultura entregue de geração em geração. Aquilo que recebemos de nossos pais. Honra.

É estranho pensar em cultura no séc. XXI. As mentalidades estão se transformando, rapidamente. Saímos de um mundo multicultural, onde era admitida a convivência entre várias culturas diferentes que não se confundiam, ligadas por um passado histórico comum, para outro mundo, intercultural, onde as diferentes culturas misturam-se e não parecem mais estar ligadas pela tradição, mas sim por ideias, pelo futuro.

Como pensa a nova geração? Quando olho para meu enteado, muitas vezes penso no que sente em relação à região onde vive e ao passado. Sendo um nascido após o impactante evento de 11 de setembro, como lida com uma realidade em que a internet sempre existiu e sempre foi onipresente? Acredito que, para ele, pouco importa a cidade onde mora ou o que ocorreu na época de seus pais e avós.

Nós já não transmitimos a ele uma tradição compartilhada há muitas gerações. Para a minha geração, que cresceu bombardeada por videocassetes e videogames, a região de vivência já era pouco relevante. Agora, tudo está ainda mais diluído. Em nuvens de bits e bytes, o passado está sempre presente no You Tube, na palma da mão. Está gravado, entalhado na tarca, nunca vai embora. Para que cronistas? Para que disciplina histórica? Os vídeos não mentem, não podem ser manipulados. Deixem-me fazer minha própria interpretação dos fatos.

Será?

Sempre haverá um narrador, um olhar, uma ênfase. Observador e objeto são um só apenas no mundo espiritual. Por aqui, as deep fakes, os vídeos altamente manipulados, editados e enviesados, prometem virar as ideias de pernas para o ar, fazem vítimas, agitando os mais calmos e nocauteando os mais incautos.

A idealização do futuro e a rejeição dos estudos do passado. O culto ao presente. O agora. O historiador Jacques Le Goff dizia que havia uma dualidade nas mentalidades, que dividiam-se entre Antigo e Moderno, Progresso e Reação. Para um homem medieval típico, o mundo tendia sempre à desordem, ao fim dos tempos. Já para um filho médio do séc. XX, o futuro era a promessa de prosperidade tecnológica – caso evitássemos a bomba atômica, é claro.

Bem, para onde vamos? O aqui e agora. Procuramos não deixar nada aos nossos filhos, a não ser valores de harmonia e respeito por si mesmo e seus semelhantes, desde plantas e animais, até a toda ecosfera. A imensa iconosfera virtual onde sua mente habita é fortemente agitada pelos ventos dos tweets, memes e comentários – mas seus pés são como raízes no chão da realidade, onde as pessoas ainda precisam estudar e trabalhar para crescer ao sol.

Eu vi minha mãe bebendo chimarrão durante toda minha infância e juventude, mas nunca havia tomado. Apenas observei. E resolvi fazer o mesmo depois de adulto. Uma ideia que foi cultivada e floresceu muito tempo depois. Não cultuo a tradição, mas tenho respeito por ela, assim como tenho respeito pelos seres humanos e seus devaneios.

Espero, de verdade, que minha prole não nos reverencie. Que minha descendência afetiva, e efetiva, encontre ocupação e realização, apesar do poder sem fronteiras do capital digital sobre o trabalho precarizado. Que não nos cultue. Mas que sua geração aprenda com nossos erros e nos perdoe por não termos deixado um mundo melhor. Daqui a 30 ou 40 anos, espero que ainda possamos dividir uma cuia; eu e meu enteado, sem compromisso, olhando as nuvens…

escultura

> Esta postagem foi uma colaboração do escritor Tiago Masutti. Para conferir outros conteúdos deste autor, confira seu blog Ficção Paranoica ou siga-o no Facebook, Twitter, Instagram e LinkedIn.