O Lutador (2008), de Darren Aronofsky

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Para Randy ‘The Ram’ Robinson não há mais verdade do que aquela encontrada num ringue de uma luta planejada, na qual o vencedor se define antes do combate iniciar. E, suportando ou aceitando essa mentira, Mickey Rourke (Randy) também aprende da forma mais dolorosa de que é feito um ator, graças ao entusiasmado trabalho de Darren Aronofsky na direção de O Lutador (2008). Se a carreira de Rourke foi severamente afetada pela decisão de lutar boxe, Aronofsky tem plena consciência de que este é seu maior trunfo na película, ainda que possa contar também com a atuação dignificante de Marisa Tomei, contraponto e contraparte necessária à vida de Randy. Feito uma silhueta, Randy abre o filme seguido pela câmera que insiste em não lhe encarar. Qual os melhores atores da velha Hollywood, não é necessária expressão maior do que o próprio rosto da personagem-ator a representar tudo o que se faz mais essencial no cinema. Quando decide parar de lutar, Randy assiste uma luta e, novamente, a câmera lhe apresenta ao espectador como não mais que uma silhueta, igual aos demais. A carne, amassada ou não, iguala a todos. Cassidy (Tomei), uma stripper em fim de carreira e mãe de uma criança, gosta de ter com Randy porque lhe compreende, visto que ela mesma caiu vítima das circunstâncias. E se Cassidy não quer se envolver com Randy, seu cliente do clube noturno, traz para si a obrigação de preservar seu mundo particular. Já o lutador não quer mudar, mas precisa. O round acaba e as ilações já não lhe dizem respeito.

lutador

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Super 8 (2011), de J. J. Abrams

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Em certa medida, aquela geração de 1975-85 também foi responsável por tudo isto. Tivemos a oportunidade de assumir a culpa por nossos antepassados (estado, nação, família), ainda que rejeitando-o em quase sua totalidade. Mas negar os erros enquanto história é uma impossibilidade em si mesma. Ninguém quer para si apenas a sua própria época – tampouco isto seria divertido ou interessante. Mesmo a internet é cheia de nostalgia, de lembranças e de história. Aquelas aventuras que vivíamos na década de 1980 se tornaram objeto de desejo para alguns. Para outros, tudo aquilo virou paixão. O cinema deste início de milênio, calcado em remakes e revivals, já sacou esse filão, e está aí Super 8 (2011), de J. J. Abrams, para comprovar a tese. A produção de Steven Spielberg usa da imagem icônica que a chamada década perdida impingiu em nossa realidade – o que a série Stranger Things exploraria com muito mais entusiasmo alguns anos depois. Estão ali os elementos de uma sensibilidade juvenil marcada indelevelmente pelo cinema-e-vídeo. Há as bicicletas, a turma da escola, o medo do desconhecido, a aventura simples que toma dimensões arrasadoras. E existe ainda a vaga sensação de que o mundo ao nosso redor estava, por assim dizer, sob nosso controle, mesmo nas horas mais difíceis, mesmo nos dramas mais pessoais. Super 8 pode soar pouco empático para essa turma pós-1995 (pós-moderna, pós-tudo), mas não chega a ser distópico ou anacrônico porque o diretor é precisamente uma das peças mais características do que o cinemão hollywoodiano ainda é capaz de identificar. Em miúdos, a película ainda aponta para essa separação entre o já reconhecível e o mistério do que está para ser. Talvez por isso o acidente com o trem seja muito mais eficaz que o desfecho, quando aquele se dá pela característica do diretor enquanto este resvala numa piegas imitação oitentista. Desta feita, com alguma tristeza percebemos o quanto estas aventuras que vivemos noutros tempos permanecem, de fato, apenas numa área qualquer do cérebro, acionada vez por outra, seja através de uma música ou de um filme.

super8

Campo dos Sonhos (1989), de Phil Alden Robinson

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Ao menos dois fantasmas indagam Ray Kinsella (Kevin Costner) se o campo de baseball que o fazendeiro construiu no meio da plantação de milho é o paraíso. E Ray diz que não, que aquilo ali é Iowa. E é nessa fronteira simples entre a terra e o céu – razão e sensação! – que flutuam as personagens de Campo dos Sonhos (1989), de Phil Alden Robinson. Kevin Costner, em fase inspirada que vai até Um Mundo Perfeito (1993), de Clint Eastwood, interpreta o típico estadunidense médio, de sonhos perdidos pelo meio do caminho, gente comum que chega ao mundo adulto com a ambição desconstruída. O filme se desenvolve no ritmo de uma pseudo-fábula própria do final dos anos 1980 e começo dos 1990: tom motivacional, cadenciado por frases de efeito constantes, quase como um anúncio do que se tornaria o universo da auto-ajuda nos anos seguintes. A lamentar o fato de Phil Alden Robinson não ter pensado o filme em preto e branco, o que carregaria o simbolismo para o lado da metáfora, deixando à auto-ajuda o espaço de irrelevância que lhe cabe quando o assunto é arte.

sonhos

Um Beijo Roubado (2007), de Kar-Wai Wong

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Falar de transição num road movie pode soar redundante, mas em Um Beijo Roubado (2007), de Kar-Wai Wong, é menos a mudança de ambiente e mais a das relações pessoais que desperta o drama incontido. Elizabeth (Norah Jones) encontra o fim da transição logo no início do caminho, todavia não se permite estar pronta. Assim, viaja pelos Estados Unidos sem buscar nada de especial; talvez apenas deseje compreender em outrem como suas próprias nuanças podem ajudá-la a encarar o fim de uma relação amorosa. Ainda que o título brasileiro sugira romance, as personagens se sustentam pelo viés dramático. E Kar-Wai dirige seu interesse às ações e transições destas. Não há julgamentos porquanto das pequenas satisfações pessoais: uma jogadora de pôquer (Natalie Portman), um policial bêbado (David Strathairn), uma mulher não adaptada à vida de casada (Rachel Weisz) e/ou um dono de bar (Jude Law) descobrem alguma redenção na transitoriedade das coisas e das pessoas. Norah Jones, em sua estreia como protagonista, deixa sua Elizabeth ser levada com alguma brandura pelas qualidades e defeitos que fascinam o diretor. Por fim, mas não feito um desfecho, até mesmo as cores do filme – e elas são muitas! – transitam como mordidas de uma torta de mirtilo que nunca acaba.

mirtilo

O Homem Leopardo (1943), de Jacques Tourneur

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Gigantes de tão concisos, filmes como O Homem Leopardo (1943), de Jacques Tourneur, não raram se tornam clássicos e tendem a ter pouca repercussão no decorrer dos anos. Tal laivo antagônico teria o amparo do acaso para um diretor despretensioso. Não é o caso aqui. Tourneur traz consigo um controle acurado no que lhe é possível, garantindo a integridade tanto nos planos individuais quanto nos conjuntos. O controle reside na certeza de suas personagens, na sinceridade do roteiro que beira um ensaio científico sobre o crime – suas sementes e frutos. Até mesmo o estilo noir pode indicar o tamanho deste domínio cênico, quando luz e sombras são manipuladas sem se perder na facilidade do mundo colorido. E todas as falsas tramas paralelas são a história que deve ser contada. O leopardo-animal surge qual sintoma de um longo distúrbio a que se convencionou dar o taxativo de serial killer. Porque a sequência de assassinatos é a tendência do homem moderno – contemporâneo! – ao reencontrar o próprio passado bestial, tornando o fim justificável pelos meios. Tourneur não quer saber da evitabilidade das coisas; o imprescindível move sua câmera.

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Sangue de Um Poeta (1930), de Jean Cocteau

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O humano presente em Sangue de Um Poeta (1930), de Jean Cocteau, projeta o corpo ao mesmo tempo em que projeta no corpo: porque interessado em si mesmo torna-se objeto de sua própria arte. Assim, Cocteau altera o filme, invadindo-o com uma pergunta pessoal que surge feito uma legenda. O poeta-artista trilha na ambição não sem dúvidas e inspirações. Eis o momento do teatro de sombras a parodiar o mito da caverna. A morte em auto-reverse, como um dia que se repete indefinidamente. Os cortes bruscos da edição alteram a noção de um tempo já precário porque poético. As portas que se abrem no filme são também fruto de uma investigação pessoal sobre as artes, a filosofia e a religião. E, então, voltamos ao corpo como cerne da estrutura narrativa, que olha a si mesma qual um espelho. Legenda que se apresenta na película: “Os espelhos deviam pensar um pouco mais antes de refletir as imagens”. O que se torna inútil é todo o resto que não a procura pela arte como divagação necessária. O filme se traveste de clareza e objetividade, por mais surrealista que possa parecer. Desta feita, trata-se de uma metáfora explícita sobre o que é o homem e qual poesia ele quer para si.

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Shakespeare traduzido no multiverso

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De algum modo obtuso, porém concreto e fatídico, traduções desabrocham qual flor numa realidade paralela, perfazendo-se em interpretações. Como um estudioso ou um ator, ambos interpretam a partir de versões. William Shakespeare, como tal que era, somente o foi assim e assado em inglês. Logrou a sorte de ser traduzido e ganhou outras perspectivas à luz de um vernáculo que jamais foi seu. Destarte que traduzir um autor retumbante qual o bardo em nada diminui as possibilidades textuais. Pelo contrário, ampliam-se. Oh, multiverso infinito! ‘inda assim, adenda-se uma básica – mas fundamental – distinção entre versão traduzida e versão adaptada. Àquela convém um comprometimento intrínseco, tácito à qualidade autoral do tradutor. Enquanto esta, a adaptação, tem em si mesma um interesse menos na forma do que no conteúdo; assemelha-se a uma cortina que descerra um novo caminho – não a caminhada em si. Mais abraço formal que beijo de língua. O idioma de origem se subscreve sob a pele. Epiderme regional capaz de incluir sotaques e expressões ainda mais restritas na boca da língua-mãe. Não existe cicatriz quando da tatuagem em flor. Interprete como bem lhe aprouver.

Planeta Terror (2007), de Robert Rodriguez

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O título afirma, mas talvez não seja bem por aí. Em Planeta Terror (2007), dirigido por Robert Rodriguez, o terror como que se escamoteia para dar lugar a um tema muito mais específico: o culto ao VHS. Cineasta visivelmente calcado no imaginário da década de oitenta, Rodriguez não apenas conhece tanto as avantages quanto os désagréments du métier cinematográfico, como ainda se insere neste qual espectador privilegiado. A sintonia com o amigo Quentin Tarantino ocorre no âmbito de uma geração formada pelos filmes, assistidos nas telas de cinema ou nos aparelhos de tevê que cortavam as laterais das imagens – daí também um exercício de imaginação para completar a visão inicial de um diretor. A dupla Tarantino & Rodriguez se faz pelo exercício de espectadores que continuam a ser; as carreiras na indústria cinematográfica têm mais a ver com doses de talento (ainda que se possa questionar esse quesito em algumas ocasiões) e oportunidade. Planeta Terror também finge ser de outro gênero com fronteiras mais largas do que o terror: o filme de zumbi. Pura encenação, de fato. O que interessa são as entrelinhas nas quais o cinema é substituído pelo VHS, como aconteceu para alguns mais interessados e com menos dinheiro no bolso a partir da década de 1980. O VHS se apropriou do cinema e, inapelavelmente, veio dar no atual universo do streaming. Em determinado momento do filme, o negativo se perde na projeção. Metáfora evidente para quem também se deixa perder ao ter com o cinema reduzido. Não, não se trata de melancolia ou arrependimento; somente a constatação das diferenças e divergências entre as mídias. Robert Rodriguez se diverte fazendo o filme e a plateia lhe faz companhia a posteriori, seja procurando a melhor posição na poltrona de um cinema ou completamente à vontade no sofá da sala de casa. Convenhamos: o VHS trouxe muitos outros pequenos prazeres para além da imagem.

planetaterror

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Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles

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Tão humanos quanto divinos somos todos nós, pois que a divindade nasce do homem e o homem se faz pelo sopro d’Ela. O filme Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, ampara-se nesta perspectiva religiosa-realista que tenta explicar vagamente a fragilidade do caráter pessoal. Grosso modo, a religião implica na aprovação do que as pessoas fazem de si mesmas. Atos medidos entre oportunidades e circunstâncias. Porque também estão todos conectados, os moradores da localidade carioca já não têm por onde. Tementes a deus, à polícia corrupta, aos traficantes… certo e errado não lhes permitem fronteiras identificáveis. Sincretismo e inversão de valores acompanham a estagnação social. O exagero ganha contornos toleráveis. O humano passa a ser divino quando a única coisa que lhe importa é o poder. Não é por outro objetivo que acontece a escalada da humanidade. Se Cidade de Deus parece muito mais cru que sua contra-metade Tropa de Elite (2007), dirigido José Padilha, talvez seja em função desta perspectiva que se desconstrói sob o manto da realidade. As relações pós-modernas são regurgitadas para que novas ameaças assumam o lugar das vencidas. Lado a lado, o sagrado e o profano delimitam nossa interpretação claudicante do presente.

cidadeus

Noite Vazia (1964), de Walter Hugo Khouri

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Estruturado numa ideia icônica do outro, Noite Vazia (1964), do brasileiro Walter Hugo Khouri, dificilmente conversa com a produção cinematográfica da época. Como no cinema de Ingmar Bergman, os espaços vazios (ainda que amplos) pontuam os planos quase sistemáticos. A lente do diretor traz o foco para dentro, dando voltas neste filme-esfera. A ambiguidade marca um tipo de cinema brasileiro que nunca chegou a existir. Com Noite Vazia, a não-verdade se faz em duas cores (preto e branco) apenas porque o colorido lhe tiraria toda a ausência que lhe é inerente. Na solidez da imagem, a solidão alheia vem numa conversa sem avisos. Noutro país, alguns anos antes, teria sido a Morte jogando xadrez ou um padre sem fé: leitmotiv de um cinema gritando pela inexistência do outro. Woody Allen tentou algo semelhante com Interiores (1978), mas não logrou o mesmo êxito de Khouri. Diane Keaton não possui os olhos de amargura qual Norma Bengell.

normanoite

Prelúdio para Matar (1975), de Dario Argento

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Feito um flanar, ainda que sobre trilhos, dá-se o cinema de Dario Argento. E Prelúdio para Matar (1975), talvez sua grande obra de mestre, é evidentemente um filme que flana ou, mais ainda, desliza por si só. Dos planos detalhes até a vista panorâmica: os deslizamentos de Argento estão por toda parte. Mesmo a banda sonora, que entra e sai várias vezes numa mesma sequência, parece correr solta com uma suavidade impressionante. Há ainda uma aproximação com Hitchcock (Psicose, Disque M para Matar) no que concerne a um planejamento acurado de cada cena, cada cenário, cada movimento – tanto das personagens quanto da câmera. É um senso estético de um arquiteto agregado aos pormenores intrínsecos à psicologia. Isso porque, no decorrer da narrativa, Argento investiga as intenções dos espectadores. É o leitmotiv elevado à potência mais alta, como naquela corrida pelos telhados de Um Corpo Que Cai do diretor inglês. Quando o pianista de jazz vê uma mulher sendo morta no andar de baixo do seu apartamento, começamos a nos perguntar se esta é uma história de horror ou se é sobre o fascínio pelo horror. Afinal, tanto a pessoa que mata, quanto suas vítimas e quem a investiga, todos são fascinados pelo que se esconde naquele canto vermelho e profundo das mentes humanas. A menina que desenha a morte e extermina animais quase por brincadeira é o sinal mais evidente de que o estrago começa na infância – porque Argento não perdoa nada.

deepred

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Shakespeare romântico?

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Doce é a tristeza lida nas palavras de um amor que se ausenta. Porque trágica, sentimental e libertadora, tal frase bem poderia abrir um capítulo qualquer de um livro romântico. Enquanto estilo artístico, o romantismo ocupa um determinado período na história da arte (ainda que estas fases não sejam tão claras como naquelas perguntas de vestibular). William Shakespeare poderia ter escrito frase similar em alguma de suas obras – ainda que o fizesse com muito mais talento literário. Algo assim: “Parting is such sweet sorrow, that I shall say good night till it be morrow”. / “Toda despedida é dor… tão doce todavia, que eu te diria boa noite até que amanhecesse o dia”. Apesar dos sentimentos românticos nos textos do bardo serem abordados com seu característico esmero, o mesmo pode ser dito a favor de outros elementos, como os filosóficos, os dramáticos, os históricos, etc… Logo, não cabe ao poeta inglês a identificação qual autor romântico como pede o figurino (aqui um jogo de palavras proposital para com o teatro e a coxia). Ao mesmo tempo, os românticos se inspiraram largamente em Shakespeare para escrever suas histórias, não restam quaisquer dúvidas! Romeu & Julieta é uma obra basilar para a criação romântica, sendo referenciada em diversos momentos nas obras de escritores, pintores e toda sorte de artistas. Além disso, os românticos são responsáveis (não isoladamente, saliente-se) por um reavivamento dos textos shakespearianos. Uma hipótese definitiva: talvez tenha sido somente a partir do romantismo que Sir William se tornou um autor clássico! Por isso, melhor ficar com as palavras dele.

romeus

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Roteiro para um amor perdido

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Uma metrópole qualquer. Tarde. Junho de 2005. Uma rua antiga e decadente do centro da cidade.

Entrei num daqueles sebos escondidos, de gosto duvidoso, que se espremem em meio ao caos urbano, entre uma rede de fast food e uma loja de telefonia celular. As coisas tinham um aspecto cinza e ao mesmo tempo colorido nessa época do ano, não sei se por causa das folhas de árvore desbotadas e levadas pelo vento, ou devido ao arco-íris de outdoors fazendo sombra para as janelas do velho casario.

De qualquer forma, lembro que meu rosto parecia pesado, com olhos que insistiam em permanecer fixados no chão, ainda tentando recordar das folhas amarelas de árvore, como se de algum modo elas pudessem ser trazidas, flutuando, até aquele sebo. Quem sabe uma dessas tais folhas caísse sobre um certo livro que salvaria minha vida, ou perto de um disco de vinil menosprezado que fizesse meu coração tocar.

Finalmente levantei os olhos e percebi o espaço, as prateleiras repletas de livros e revistas antigas, a pouca luz, alguns cantos interessantes. Dei dois ou três passos indecisos ao redor do local, a mão e os dedos se arrastando pelas capas e seções mais distantes. Podia quase ouvir uma dessas cantoras de jazz no cheiro doce das publicações bem arranjadas. Os poetas ultra-românticos brindavam e cantarolavam ao lado dos futuristas, os quadrinhos festejavam com revistas pornográficas: tudo me olhando como se eu fosse talvez um tipo de anomalia.

Enfim. Começa a chover lá fora, e eu ainda nem sei bem o que faço ali. Havia perdido meu guarda-chuva semanas atrás, quem sabe era isso que eu procurava lá dentro. Volto a olhar pro chão, talvez estivesse ali, em algum lugar, sentindo minha falta. Não o vejo, e uma daquelas folhas amareladas das árvores entrou no sebo, assim com tudo, quase que por vontade própria, já meio molhada, já meio rasgada, já meio cansada.

Ela ficou ali parada um instante, junto à entrada; não me indicava nem a seção de filosofia existencialista nem a de ficção. Um par de tênis entra na loja e pisa sobre a tal folha, sem percebê-la: era um Adidas. Levantei mais uma vez os olhos: era uma garota.

A garota parecia confusa, os cabelos curtos e molhados, uma jaquetinha jeans azul e uma saia preta. Fiquei atônito, ela tentava se secar. Corria as mãos pelos cabelos pretos e o rosto branco, eu tentava decifrá-la. Devia estar em comunidades do Orkut como “Eu amo Franz Ferdinand”, “Adoro cinema europeu” ou “Casarei de All Star”. Mas isso eram conjecturas de uma mente em convulsão, numa época ainda incompreensível para seus contemporâneos.

Não sabia se deveria me aproximar. Talvez ela estivesse com meu guarda-chuva, e estivesse ali para entregá-lo e me convidar pra caminhar sobre as poças de água junto às calçadas. Fiquei por um bom tempo parado lá no fundo do velho sebo, quase na penumbra, apenas observando e tentando entender como aquela garota parecia tão colorida, naquele lugar desbotado, quanto os outdoors na rua. Ela parou diante da prateleira que carregava os livros de História, e parecia feliz folheando um deles. Naquele momento, comecei a dar alguns passos vacilantes em direção a ela.

Um passo, dois, três, olhando para o chão. Como esse chão é bonito, todo quadriculado. No quarto ou quinto passo, sem levantar os olhos, percebo que ela devolve o tal livro e sai porta afora, quase que com pressa, quase que sem vontade. Não sei ao certo se ela me viu ou não, fato é que a chuva havia diminuído um pouco. Fui para mais perto da porta de entrada. Tentei alcançá-la com os olhos, mas uma das esquinas da antiga rua já a tinha levado embora para sempre.

Olhos no chão. Folha amarelada de árvore com marcas de tênis. Sebo. Uma metrópole sombria. Noite.

> Esta postagem foi uma colaboração do escritor Tiago Masutti. Para conferir outros conteúdos deste autor, confira seu blog ou siga-o no  WattpadInstagramLinkedIn e Facebook!

Sebo e outros

O dia em que o teclado brilhou rosa

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O dia 3 de janeiro de 1988, um domingo, foi uma data estranha na casa de Edward Lindqvist, um recluso bibliotecário de Estocolmo. Às 10h da manhã o dia mal havia clareado. Em sua sala de estar, que também fazia o papel de um pequeno escritório, a lareira estalava sob o fogo, que era suficiente para aquecer a casa inteira. Lindqvist veio lentamente da cozinha segurando uma xícara de café, com as duas mãos. Parou diante da janela, que era o único obstáculo entre o ele e a neve. Tomou um gole e ficou com o olhar perdido no horizonte, com o pensamento atolado em memórias.

Fazia cerca de 1 ano e meio que a grande nuvem radioativa soviética havia chovido de maneira delicada e imprevisível sobre a capital do país escandinavo, durante a primavera. No começo a população não deu muita importância ao fato. Era uma chuva normal, como qualquer outra. Porém, aos poucos, perceberam que havia algo estranho. Não era bem o cheiro. Não era o gosto. Também não era o toque. As pessoas definitivamente não sabiam explicar o que havia de errado. Mas algo não estava certo com aquelas gotas de água que vinham do céu.

De qualquer forma, a chuva passou. As semanas e os meses transcorreram normalmente na Suécia. Depois do pânico inicial, a serenidade voltou a cravar seus dentes afiados sobre o cotidiano. Ninguém mais esperava o fim do mundo. A Terceira Guerra Mundial, caso ocorresse, certamente pouparia o norte da Europa de maiores estragos. E ela parecia uma distopia cada vez mais distante da realidade. O Tratado de Forças Nucleares, entre Reagan e Gorbachev, parecia estar prestes a sair do papel. Os povos caminhavam para a congratulação geral.

Este era o sentimento na sociedade. Mas não para o bibliotecário, contudo. Sua mente borbulhava de pensamentos ácidos agora, principalmente sobre tudo que estava acontecendo no mundo, em seu país e em sua vida. Seu emprego na Biblioteca Municipal, apesar da estabilidade aparente, estava por um fio, devido a sua notória resistência em abandonar a máquina de escrever elétrica e finalmente começar a operar no sistema de informática da instituição – que já estava em uso há 5 anos, mesmo sob o desdém de Edward.

Para contornar a situação –  e os olhares maldosos de Rosa, a gestora de Tecnologia da Informação na repartição pública –  Lindqvist comprou um computador para a sua casa, com o qual estava determinado a aprender a lidar. O modelo era um Commodore Amiga 500, um lançamento recente do mercado, com interface gráfica colorida e simpática, mouse, entrada para disquetes e visual moderno. O técnico da loja havia montado o computador na casa do bibliotecário no dia anterior, e tudo parecia estar funcionando dentro da normalidade, após os primeiros testes. Agora era hora de trabalhar, a todo o vapor.

Ao ligar o aparelho naquela manhã congelante de domingo, a aparência era de normalidade. Edward deixou seu café sobre a mesa e ficou de braços cruzados, em pé, apenas observando a inicialização da máquina digital. Ao fundo, com o canto dos olhos, observou sua antiga máquina analógica – uma máquina de escrever portátil, na verdade, que estava repousando sobre o sofá, aguardando um destino. A Amiga 500 era agora a melhor parceria que o bibliotecário poderia ter, e nada mais iria bloquear o caminho entre ele e o mundo moderno. O lixo obsoleto do passado que tomasse seu rumo, sem Lindqvist.

Todavia, após o ligamento, o aparelho da Commodore começou a emitir sinais estranhos. Algo não estava bem em suas engrenagens. O Sistema Operacional parecia fora de uso. O bibliotecário sentou na cadeira. Mexeu no mouse diversas vezes. O cursor na tela seguia suas ordens, porém, ao clicar em qualquer janela, nada acontecia. Sons de outro planeta eram perceptíveis dentro da Amiga, e Lindqvist encostou seus ouvidos no hardware, para escutar melhor. Era como se dentro da maquinaria pesada houvesse um ser distante, diminuto e trancado em um mundo à parte. Um gênio da lâmpada pedindo socorro, devorado por partículas subatômicas de silício e nuvens eletrônicas de solidão.

O que estava acontecendo com ele?

Mas ele quem?

O teclado. Talvez o problema estivesse apenas no mouse, e o teclado do Commodore pudesse oferecer soluções práticas para a falta de sintonia entre homem e tecnologia. Se Edward sentia-se à vontade diante de uma máquina de escrever, das teclas mecânicas de um aparelho dedicado unicamente à arte da escrita, era bem possível que o teclado, que flutuava diante de si com um brilho rosa metálico, fosse o portador de palavras mais amigáveis que aquelas recitadas no interior do Amiga, como numa oração ao Deus ex Machina.

Era isso. Iria colocar sua teoria à prova. Sorriu. Com movimentos lentos, esticou seus braços para o alto e agarrou o teclado no ar. Recolocou o periférico sobre a mesinha. Permaneceu alguns minutos olhando para o monitor, ainda indeciso, pensando no que escrever. Seus globos oculares incharam e estouraram para fora de suas órbitas. Estalou os dedos, como se estivesse se preparando para tocar piano. Na tela diante de si, a partitura de bits e bytes fez uma rolagem infinita, através dos programas e aplicativos mais avançados, utilizando-se de toda a potência dos 7 MHz e 512 KB de RAM. Tanta abstração para objetivos tão singelos.

Pare!

Dentro do Commodore algo gritou com força. Uma voz robótica suave, porém imperativamente programada. Soava mais como alguns apitos aleatórios, mas Lindqvist percebeu claramente o comando, em sua linguagem materna, a Assembly. Pare. O que sua Amiga estava querendo dizer com isto? Ele não deveria avançar rumo ao domínio da informática? Não era esse seu propósito como homem de fin de siècle? Para onde ir agora, se nem mesmo os deuses do Vale do Silício permitiam sua entrada no paraíso do código binário, onde lutaria eternamente pela atenção de Rosa, sua amada gestora de TI da Biblioteca Municipal?

Quem é você? – perguntou Edward, ousadamente.

Eu sou você – apitou a máquina, que tinha cara de poucos amigos.

Eu sou você. Que raio de algoritmo dava uma resposta desta? Onde os programadores do AmigaOS estavam com o processador quando escreveram esse código? Eu sou você. Homem-Máquina. Homem-Amiga. Homem dentro da amiga. Não. Não era possível. Sim… A gestora de TI. Isto era obra dela, estava cristalino como neve sobre as flores. O que a Amiga ela estava pensando?

O que Rosa queria comigo? Encontros furtivos no fundo da seção de Literatura Russa? Carícias não programadas no setor de livros raros? Ou, quem sabe, uma mãozinha providencial para desembaralhar um punhado de fios soltos em sua cabeça? O coração do bibliotecário Edward, entusiasta adormecido das Ciências da Informação, dava fortes sinais de travamento e erro no sistema. Uma xícara de café. Ela lhe acordaria do mergulho profundo nos mares revoltos dos dados. Devolveria-lhe, como uma náufrago da espuma de zeros e uns, às praias do sujeito homem.

Altivo, indomável, animalesco.

Sem dor. Sem periféricos de entrada ou saída. Apenas homem mente. Somente máquina sente.

Deus. Amiga. Rosa. Metálica. Eu.

Aqui estou eu.

***

C:\>encerra o computador.exe

***

Obituário:

Edward Lindqvist. Solteiro. 36 anos. Foi encontrado congelado sobre o teclado, com o fogo interno apagado; uma rosa na mão e o rosto sujo de café seco. Morreu de amor por sua Amiga. Não deixou programas abertos.

 

commodore

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Clímax, de Bruna Lombardi

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Flanar entre contraditórios de si ou de mim; porque não há fuga possível – pelo contrário, há sim. Uma hora ela se faz poetisa, outra poeta. Por vezes, romantiza. Noutras, decreta: o amor não tem estado definido. É bruto, é leve, é sexual e também hígido. Quem nasceu para comandar também pode se dar ao luxo de dar. Receber e brincar com a palavra, seduzir como quem o coito sucede à lavra. J’ai travaillé au max. Imagina em francês o livro Clímax! Bruna Lombardi, autora e atriz, e muito mais. Destila sensações proféticas quais gritos de “ais”. A obra é ficção, mas se completa na realidade. E se um não é não, também pode ser outra coisa dependendo da idade. O pudor contempla a si mesmo tramando receber um beijo. Os versos são inversos conforme o ensejo. Wait a little. Espere um pouco. São Paulo or Seatlle? Ser são ou louco? Agradecer aos céus, retribuir os dias idos em Paris. Desabrochar feito rosa do povo ou nobre flor de lis. Sua rede é de felicidade, sua gente é de expressão. Em todas as sertanidades, nem Diadorim é exceção. Personagem de seu próprio enredo, quiçá adorável iconoclasta? Oras, bela porque se lhe cabe, mas não lhe basta. Ela olhou para dentro, viu uma luz e deu o melhor de si. Sua escala poético-musical não começa em dó e tampouco termina em si.

> Clímax. Escrito por Bruna Lombardi. Editora Sextante, 2017.

climaxdabruna

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o que o sol faz com as flores, de rupi kaur

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mulheres e homens trafegam por um mesmo espectro de dramas e tramas. por venturas e circunstâncias, existem questões de gêneros que se acumularam ao longo dos séculos e vieram ter entre si no alvorecer do segundo milênio. não é qual explosão de um vesúvio, tampouco uma sensação de alívio: ao contrário! tal encontro é quase um desvio nos caminhos, um convívio de pergaminhos. sim, a literatura, como todas as artes, une a todos. algumas nuanças apenas nos exaltam, despetalando ideias que surgem com o tempo. rupi kaur, em o que o sol faz com as flores, tem a seu favor toda essa estranheza típica de uma era que prefere o empoderamento possível ao temível poder. seu momento permite uma discussão libertária sobre temas tão antigos quanto ainda longe dos consensos. o amor, o sexo, o feminismo, o feminino, a imigração, o corpo, a alma, a natureza… tudo o que toca, tudo o que sente… e mais… porque a poesia tem das suas e explicar seus versos tão somente enseja uma possibilidade dentro de um universo sem fim. assim, entre ações e contradições, homens e mulheres se encontram porque não têm por onde. o girassol procura o astro-mor ou a si mesmo?

> O que o sol faz com as flores. Escrito por Rupi Kaur. Editora Planeta, 2018.

solfazflores

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Planetinha outrora azul

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Podemos modificar seu bebê por um preço justo. Talvez essa frase pudesse ser o título de um conto de Philip K. Dick, um dos maiores escritores de Ficção Científica do séc. XX. Mas a realidade é que a manipulação genética já está batendo à nossa porta. Sem alarde, um suposto cientista chinês acaba modificar, em laboratório, os genes de duas garotas gêmeas. Elas nasceram há poucas semanas, em perfeito estado de saúde, após terem sido concebidas através de inseminação artificial.

O anúncio, muito apropriado para os nossos tempos, foi feito através da plataforma de vídeos You Tube. Dizem que os bebês são imunes ao vírus da Aids. Não há confirmação da notícia pela comunidade científica internacional. Não foram escritos artigos para revisão por pares. Ainda não sabemos se a história irá se confirmar. Mas não importa. De acordo com Foucault, são as próprias relações de poder que legitimam o conhecimento.

E, hoje, todo o poder às redes sociais!

O que esperar do futuro que se está configurando, nas entrelinhas, debaixo de nossos olhos, sem notas de rodapé, sem gemidos, sem cara de nojo? Tal qual comida enlatada, tal qual nossas preferências políticas ou nossas séries favoritas, agora o próprio ser humano pode ser objeto de manipulação. Não apenas sua mente, mas todo o seu ser, todo o seu aparato orgânico. Seu algoritmo interno, escrito através de bilhões de anos de feedbacks positivos e negativos da natureza, agora pode ser reescrito. Não por mãos divinas.

Mãos de barro.

Agora, em vez da mão de Deus procurar tocar os dedos humanos – como bem representado no teto da Capela Sistina – é a mão dos homens e das mulheres que puxa a mão oferecida por Deus com toda a força, em atitude de desespero, derrubando o Senhor com a cara no chão. Jeová levanta-se com a face e as vestes brancas sujas de lama.

João de Barro.

Tal qual um passarinho, de levinho. Construindo uma casa para seus filhotes. Tentando se proteger da chuva e das intempéries. O filhote do João de Barro, dos desenhos do Pica Pau, do humano cara de pau, é agora um bichinho forte, resistente à doenças mais variadas. Em breve, poderemos ir ao site da Amazon e encomendar componentes separados; um Baby Kit para montar em casa: olhos, boca, nariz, cérebro, pernas. E até orgão sexual! Quem gritar mais, leva. Ou melhor, quem pagar mais, leva mais.

K. Dick previu isso, de alguma forma, em várias obras. Mas lembro de uma em particular, Os Três Estigmas de Palmer Eldritch. Neste livro, algumas pessoas se submetem a um melhoramento genético, chamado Terapia E, no qual o cérebro – especialmente o lóbulo frontal – cresce de forma acima do normal, entregando ao seu portador muito mais inteligência que o comum. Esses consumidores do amanhã são chamados de Cabeças de Bolha.

Poderiam também ser denominados de Homens de Lata.
Caras de Lata.
Humanidade insensível. Humanidade invisível.

O que resta de humano em nós hoje? O que sobrará de verdadeiro na realidade daqui a 100 anos? Não é feitiçaria, é tecnologia. Muito em breve, humanos dotados de melhoramento genético avançado poderão adquirir uma vantagem competitiva avassaladora sobre as pessoas pobres. Os ricos, é claro, serão os primeiros a fazer esse tipo de tratamento, seja para embelezar ou turbinar seus filhos, seja para derrubar seus competidores no mercado de ações. A farinha é pouca? Meu feijão primeiro.

Darwin demonstrou que o mecanismo básico da evolução na natureza é a competição por recursos e a sobrevivência. Os mais adaptados ao meio ambiente podem deixar a miséria de seu legado à posteridade. Eu? Nada tenho, nada deixarei. Mas será que os ricos vão querer ter filhos? A tendência nos gráficos demonstra que as pessoas mais abonadas têm mais coisas a fazer da vida que os proletários. Estes, coitados! Só possuem a própria prole para deixar como herança ao planeta Terra.

Para os pobres, uma herança feita de sangue, suor e lágrimas. Sem manipulação barata. Para os 99% que gemem e fazem cara de nojo, aquele 1% do andar de cima sorri com desdém e mostra aquela cara linguaruda de Albert Einstein, em sua mais famosa fotografia. Os ricos, como borboletas, poderão sair do casulo e voar para longe desse planetinha outrora azul. Por aqui, voltaremos a ser o bom e velho planeta dos macacos.

Uma banana pra vocês!

sistina

> Esta postagem foi uma colaboração do escritor Tiago Masutti. Para conferir outros conteúdos deste autor, confira seu blog ou siga-o no  WattpadInstagramLinkedIn e Facebook!

Surfista Prateado: Parábola, de Stan Lee e Moebius

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Assim como Stan Lee, não acredito em heróis perfeitos. A antiguidade clássica nos ensina sobre a falibilidade dos mitos; porque, sob nosso ponto de vista, não existe outra narrativa que não a humana. O cosmo pode até estar aí desde sempre, mas é nossa presença nele que desperta essa coisa chamada história. Por excelência, Stan Lee era um contador de histórias. Com drama, intuição e objetividade, criou personagens que se parecem com a gente mesmo, mas a quem coisas inacreditáveis aconteceram… como ser picado por uma aranha radioativa ou ser atingido por raios gama. A genialidade, no entanto, não está no absurdo das tramas, e sim na relação pessoal para com estes desafios surpreendentes. A vida, por si só, é esta coisa sem explicação, com tantos sentidos possíveis que fazem o destino nos escapar das mãos. As grandes histórias em quadrinhos partem dessa perplexidade existencial – e o Surfista Prateado (concebido por Jack Kirby, outro mestre da nona arte, e desenvolvido dramaticamente por Lee) talvez seja um dos maiores veículos para discutir quem somos e para onde vamos. Além disso, pasmem!, ele surfa no ar. Quando Stan Lee e o também genial ilustrador francês Moebius se reuniram para produzir uma graphic novel, pareceu inevitável que um fenômeno singular na arte contemporânea despontasse no final da década de 1980. Surfista Prateado: Parábola é menos a propósito de escolhas e mais sobre consequências. O poder (mimetizado por Galactus) e sua fascinação inerente contam a história humana do passado ao futuro. O olhar decepcionado do Surfista para com as pessoas talvez seja o resultado de sua vida solitária, ainda que urdido na miséria de nossa espécie. E ninguém escapa dessa parábola.

> Surfista Prateado: Parábola. Texto de Stan Lee, arte de Moebius, cores de Mark Chiarello e John Wellington. Abril Jovem, 1989.

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A origem da desigualdade entre os homens, de Jean-Jacques Rousseau

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Ainda que seja uma sátira originada de uma competição, o Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, escrito pelo filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, levanta um inevitável pensamento “au modeTostines: A sociedade é corrompida pelos homens ou os homens são corrompidos pela sociedade? O texto, publicado em 1755, imagina um estado de natureza, algo instintivo, não poluído por definições sociais. Mas se a natureza é divina e a divindade é uma criação humana, no final das contas, o princípio natural colocado desta maneira também é social. Uma ideia, como outras tantas. E uma ideia não morre, mas pode se modificar. É o que acontece com homens e mulheres. Só a desigualdade parece ser sempre a mesma.

> Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Escrito por Jean-Jacques Rousseau. Penguin & Companhia das Letras, 2017.

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Constituição Federal de 1988, de Todos os Brasileiros

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Desde crianças que somos/fomos, dizem-nos para separar a política das outras esferas da vida comum. “Não misturem com futebol, com religião, com nada que cause algum incômodo”. Dizem-nos ainda para não discutir política. “Não perca amizades, parentes ou amores”. São ditos que se repetem ao longo de gerações justamente para nos ausentar de um debate que integra todos os dias de nossas vidas. A política, como a cultura, o afeto e outras incontáveis formas de socialização, tem a ver com tudo que diz respeito a nossa forma de ser humano. Querer afastá-la do nosso convívio é tão inútil quanto esperar que alguém deixe de sentir por vontade própria. Os que gostamos da boa política (aquela sem vícios de dominação) e dos grandes livros temos de aumentar nossa intimidade para com um dos textos mais importantes que nos diz respeito. A Constituição Federal de 1988 é o resultado de muitas vontades somadas; exemplo dos mais relevantes quando da inclusão social e da preservação da dignidade dos brasileiros. Desde a Constituição dos Estados Unidos (1787-1789), passando pela Constituição francesa de 1781 (que incorporou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão), os direitos e deveres de cada um de nós se ampliam para nos lembrar do quanto somos brilhantes como espécie, mas também seres finitos. Carecemos de um entendimento maior, possibilidade que, ao que tudo indica, jamais virá a ser. Ainda assim, há beleza no mistério. O parágrafo único do Artigo 1º da Constituição de 1988 determina: “Todo o poder emana do povo”. A frase é simples, direta e, até mesmo, nada poética. Mas coloca uma responsabilidade sobre nossos ombros do tamanho da história. E nos lembra de que a política está para todos nós como o amor está para o poeta: é impossível terminar esta relação!

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