Entre a Praça e o Porto, de Angelo Renato Biléssimo

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Sob a égide da liberdade, parece-nos que a faceta mais relevante da história é sua capacidade de jamais se esgotar. O recorte objetivo de uma documentação disponível (mas pouco explorada) nos permite ir além do que os dados contam na superfície. Neste Entre a praça e o porto: grandes fortunas nos inventários post mortem em Desterro (1860-1880), o historiador Angelo Renato Biléssimo lida com o passado da capital catarinense, então chamada Desterro, para discutir as relações humanas na sua complexidade de sempre, porém com um vigor pioneiro. Os inventários post mortem, que servem de eixo condutor do livro, revelam nuanças de uma elite que se estruturou na cidade e cujos desenlaces socioeconômicos ainda são presentes no cotidiano de Florianópolis. A escravidão também marca presença no livro – os cativos faziam parte do patrimônio de muitas destas famílias com grande poder na economia e na política. Porque a cidade e as pessoas nunca param no tempo.

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Superman: Entre a Foice e o Martelo

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E se aquela pequena espaçonave de Krypton tivesse caído numa fazenda coletiva na União Soviética? Aquele bebê a bordo – possivelmente o único sobrevivente de um planeta muito mais evoluído que a Terra – também se tornaria um símbolo para o mundo livre? Eis o tema de Superman: Entre a Foice e o Martelo, história em quadrinhos com texto de Mark Millar, desenho de Dave Johnson e arte-final de Andrew Robinson. Que destino teria o homem que se tornaria super? Ele deixaria de lado o intervencionismo econômico de Roosevelt com o New Deal, mais tarde teorizado por Keynes em sua Teoria geral do emprego, do juro e da moeda? Seria ele um escoteiro comunista, seguidor materialismo histórico e dialético? “A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes”, escreveram Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista. E poderíamos complementar tal ideia afirmando que a história destas mesmas sociedades também se deve a uma sucessão de acasos e coincidências – como o local de pouso de uma pequena nave lançada de um planeta prestes a explodir…

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O tempo não é lugar

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É curioso o fato de que quase todos que se encantam pelo filme Em Algum Lugar do Passado (1980), de Jeannot Szwarc, prendem-se nos detalhes errados. O tempo é metáfora, não é lugar. O amor é situação, não é fim. Viajar no tempo, então, para esta produção, é tão inevitável quanto qualquer outra narrativa. Assim, não há nada de extraordinário na parte científica da viagem em si, mas sim nas pessoas que dela participam.

Explicar o envolvimento das duas personagens principais (Richard Collier e Elise McKenna) é achar que a filosofia pode trazer as respostas para todas as perguntas ou, ainda, acreditar que a ciência tem alguma precisão que não àquela inerente à especulação. Se existe uma sutileza na interpretação de Christopher Reeve (Richard) e Jane Seymour (Elise) tal atitude tem o mérito de equilibrar o romantismo de uma época distante com a atemporalidade do amor.

Tanto o filme quanto o livro que o inspirou, publicado em 1975 pelo escritor Richard Matheson, tratam, sobretudo, de experiência. E estamos falando aqui justamente da experiência individual de Richard, por mais que as personagens ao seu redor apareçam nas duas épocas abordadas naquele enredo: o início do século XX e o final dos anos setenta. Aqueles que lhe cruzam o caminho nos dois momentos, como a própria motivadora de sua viagem (Elise) ou o porteiro que recorda vagamente de já tê-lo conhecido são, por assim dizer, partícipes de uma engenhosa aventura romântica, com começo, meio e fim – não necessariamente nessa ordem.

São tudo sugestões que dão alguma coerência naquela sensação inerente de uma construção histórica em movimento, possibilitando a transformação imediata do factual em atemporal. Esta é a busca empregada por Richard através do tempo: aceitar que os fatos são tão essenciais em sua própria história quanto o que ele faz a partir destes.

Para quem acredita na possibilidade de universos paralelos fica compreensível aceitar que todas as decisões possíveis já foram estabelecidas e que o livre arbítrio é um navegar entre tantos destinos possíveis. Não é de todo mal pensar que o filme opta por uma narrativa convencional justamente para tratar sobre o tempo que, convenhamos, além de ser metáfora é sempre passado; nunca presente ou futuro, porque o que se vive é o que se lembra e o que se vai viver depende do ocaso – ou livre arbítrio.

Se querem crer num amor que ultrapassa as barreiras que o universo estabeleceu, tudo bem, mas que ao menos assistam ao filme com os olhos não tendenciosos, procurando a todo momento razões que a própria razão desconhece.

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A Sangue Frio, de Truman Capote

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A Sangue Frio, de Truman Capote, é possivelmente uma das maiores reportagens já feitas. Não tanto pelo triste episódio real que revela (uma família assassinada no Kansas), mas por colocar um colossal ponto de interrogação nos limites entre jornalismo e ficção/literatura. Junto com o monumental Hiroshima, de John Hersey, o livro de Capote é uma aula que faculdade alguma pode ensinar. A obra escapa aos parâmetros tradicionais e se ocupa de sentidos universais que o jornalismo por si só não daria conta.

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O Capitão para além da América

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Podemos deduzir que, em essência, o Capitão América foi criado por Jack Kirby e Joe Simon como uma arma de guerra. E tal afirmação soa ligeiramente irônica quando nos damos conta de que a sua principal ferramenta de trabalho é um escudo, símbolo máximo da proteção.

Ao longo de sua história no universo das revistas em quadrinhos, o herói deixou para trás aquele louvor à pátria amada que todo soldado deve carregar no peito e passou a questionar o papel de seu país naquilo que o mundo se tornou. Neste cenário cada vez mais globalizado, a própria ideia de um Capitão a representar a América soa, por vezes, incoerente.

Assim, atualmente, não adianta o herói se apresentar socando Hitler ou quem quer que seja repetidas vezes para se criar um vínculo de confiança. Em 1941, meses antes dos Estados Unidos entrarem oficialmente na Segunda Grande Guerra, o Capitão América / Steve Rogers inaugurava sua própria revista acertando em cheio o bigode do ditador austríaco. E bastou para o sucesso da personagem à época. Terminado o conflito, o herói não resistiu às quedas nas vendas e foi colocado de lado pela editora Timely Comics – que viria a ser Atlas Comics e, pouco depois, Marvel Comics. Somente na década de 1960, o mestre dos textos para quadrinhos e criador de dezenas de personagens, Stan Lee, viu uma oportunidade de trazer Rogers de seu congelamento. Não tardou para o Capitão liderar a lendária equipe dos Vingadores e nunca mais deixar o panteão da nona arte.

O século XXI chegou com mais perguntas sem respostas. A Marvel ressurgiu das cinzas e o caminho quase natural foi migrar a atenção para as telas de cinema. Entretanto, para um filme baseado num super-herói chamado Capitão América funcionar em todo o mundo, seria necessário adaptá-lo também dentro de um enredo global. Não por acaso, Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), de Joe Johnston, soa ligeiramente distante das outras adaptações dos Estúdios Marvel porque se passa num momento histórico no qual o cotidiano era visto em preto e branco, com a ameaça clara do nazismo e do fascismo sobre as nações auto-denominadas livres. Johnston não era estranho ao gênero de filme de super-heróis. Com Rocketeer (1991), trouxe aquela nostalgia das matinês aventureiras qual Indiana Jones fizera na década anterior. E, neste contexto, teve êxito.

Hoje, porém, os dilemas estão dispersos e vão muito além de ditadores com o ímpeto do domínio mundial. São tempos de individualidades afloradas e de globalização – é necessário proteger e atacar. Um escudo apenas não é o bastante. Uma contradição que os irmãos diretores Anthony e Joe Russo souberam explorar em Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014). Na produção, Steve Rogers (Chris Evans) enfrenta dramas pessoais para além de um soldado. Tal artimanha se transformou na principal ferramenta para ganhar a empatia dos espectadores das mais distintas nacionalidades, incluindo até mesmo nativos dos países que outrora formavam a Aliança do Eixo – um passado que se resolveu de alguma maneira. Ainda que dentro do contexto dos filmes realizados pelos Estúdios Marvel, o enredo desta sequência se sustenta tanto pela qualidade de suas personagens quanto por trazer uma relação direta com o tempo presente. Esta era tecnológica, na qual todas as nossas ações ficam registradas nas memórias de computadores, deixa o Capitão América deslocado: afinal, ele é uma figura de um tempo em que os heróis e os vilões estavam bem definidos (a saber: a Segunda Grande Guerra). Enquanto assistimos ao seu drama, lembramos que aqui mesmo no mundo real esses problemas soam familiares. Recentemente, o analista de sistemas Edward Snowden fez o mundo repensar a utilização da internet ao vazar dados da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos, confirmando que o país recolhe e monitora informações de todo o planeta, muitas vezes de forma não autorizada. Assim, trocamos a NSA pela fictícia S.H.I.E.L.D. e o cinema outra vez toma a realidade por empréstimo para contar sua própria versão dos fatos. Desta vez, até mesmo Nick Fury (Samuel L. Jackson), diretor de operações da S.H.I.E.L.D., tem de dar o braço a torcer ao se deparar no meio de uma conspiração mundial que pretende criar uma falsa liberdade originada por um massacre sem precedentes. Estes ares de thriller político é, possivelmente, o grande ponto a favor do roteiro que se comunica com as plateias atuais. E, apesar de ser uma peça chave, o Soldado Invernal do título não é maior do que os questionamentos do Capitão América / Steve Rogers sobre este Novo Mundo: como na filosofia de Nietzsche, o que é a verdade se não apenas uma ideia construída pelas pessoas que têm poder?

Com fama de personagem chato no universo dos quadrinhos, chega a ser irônico que Steve Rogers apareça como a força moral no filme Capitão América: Guerra Civil (2016), também dos irmãos Russo. Irônico, mas não inesperado. Caso parecido já se dera com Anthony Stark, alter ego do Homem de Ferro, uma personagem ríspida nas páginas e praticamente um fanfarrão na tela grande, muito em virtude da atuação descontraída de Robert Downey Jr. A reinvenção é um truque manjado do entretenimento, mas ganha nossa atenção quando feita para corroborar e surpreender expectativas históricas. Guerra Civil, a história original, foi publicada nas revistas da Marvel entre os anos de 2006 e 2007. Portanto, antes do início do Universo Cinematográfico Marvel em 2008. E talvez aí esteja a principal diferença entre as mídias: enquanto nos quadrinhos as lições sociais estão claras, no filme elas se dissipam ante o poder e o carisma de suas personagens-chave desenvolvidas para uma plateia ampla e diversificada. Ainda assim, não sejamos ingênuos ao ponto de acreditar que estas atualizações dos super-heróis não atendem aos mesmos interesses de antes. Atendem, evidentemente. Mas há uma seriedade e honestidade que a própria história faz questão de destacar. Se a Guerra Civil Americana fez dos Estados Unidos o país que conhecemos atualmente, podemos olhar dentro dos olhos de Steve Rogers para encontrar ali uma verdade que nos escapa: um futuro possível.

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Futebol à vera

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Luis Fernando Verissimo não é um camisa 10 de origem qual Pelé e tampouco almeja tal posição. Ainda assim, difícil não colocá-lo numa posição decisiva. Talvez um meia ou ponta-esquerda como Rivelino. Craque, com certeza. Entre suas paixões – para além da platônica por Luana Piovani –, Verissimo filho derrete-se pelo futebol bem jogado; aquele que, quase sempre, está muito mais na lembrança do que no presente. Tanto em Time dos Sonhos quanto em A Eterna Privação do Zagueiro Absoluto, o futebol ganha sempre, e nem importa o resultado da partida. As crônicas do autor são pequenos gols. Alguns mais bonitos que os outros, é bem verdade. Mas, contradizendo a assertiva anterior, diria o centroavante Dadá Maravilha, frasista-mor do futebol brasileiro, que “não existe gol feio, feio é não fazer gol”. 7 a 1 para o Verissimo. E contando.

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Fuga Para a Vitória (1981), de John Huston

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Justamente porque se trata do evento mais espetacular e terrível da era contemporânea, a Segunda Grande Guerra permite um infindável número de recortes e interpretações. Das batalhas épicas aos dramas de sobrevivência, escondem-se milhares de alternativas tão distintas quanto curiosas. O futebol, por exemplo, é o tema geral do filme Fuga Para a Vitória, de John Huston, ambientado na Alemanha nazista de 1943. Eis aqui uma desengonçada versão do gênero “fuga de prisão”, tendo por leitmotiv um jogo de futebol que coloca num lado do gramado os prisioneiros aliados e, do outro, um time formado por alemães. As presenças de Michael Caine, Sylvester Stallone, Max Von Sydow e Pelé – sim, o próprio Atleta do Século XX – só fazem aumentar o clima de fábula antiguerra que apenas no cinema é possível existir. Divertido como uma pelada disputada num campo de barro e lama.

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Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano

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“O jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo, que não é organizado para ser jogado, mas para impedir que se jogue. A tecnocracia do esporte profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe a ousadia”. Assim o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano descreve o futebol da virada do século XX para o XXI no livro Futebol ao sol e à sombra, publicado desde 1995 no Brasil em formato de bolso pela editora L&PM. Galeano não poupa nem mesmo o rei Pelé, ainda que engrandeça seu futebol. Comenta: “Fora das canchas, nunca doou um minuto de seu tempo e jamais uma moeda caiu de seu bolso”. Cita Shakespeare para remontar às origens da festa pagã que tem no gol seu desejado clímax. Destaca ídolos, clubes, seleções e Copas do Mundo para falar de uma paixão terrena presente em praticamente todo o globo, mas quase sempre desprezada pelos historiadores. Porque o futebol é tudo isso e muito mais.

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História de Amor

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Deixem-me contar uma história que há muito nos foi legada. Viviam naquela cidade dois jovens de famílias rivais que, um dia, viriam a trocar beijos e juras de amor sob a noite de inconstante lua. Ele, desgostoso com uma desilusão amorosa e com aquela guerra odiosa entre as duas casas inimigas, entrou no baile mascarado. Ela, tão jovem e inocente, sabia que quando o amor chegasse não seriam necessárias máscaras ou quaisquer enfeites, porque o cupido não desempenha seu papel pela metade.

Encontraram-se como quem descobre um tesouro a que não se procura, pois o destino tratou de lhes pregar uma peça tão bem engendrada quanto traiçoeira. Mesmo o frei, ouvidor constante dos sentimentos daquele jovem, primeiro viu certa inconformidade na recém chegada paixão. Os jovens, pensava o religioso, mudam de amores como as árvores perdem suas folhas. No entanto, aquela união inesperada poderia aquecer corações hostis e selar de vez a paz desejosa até mesmo pelo príncipe guardião da cidade.

Em segredo, casaram-se. O frei realizou a sagrada cerimônia confiante no fim daqueles pesares sem cabimento. Mas eis que o drama humano ganha ares de tragédia, quando o ódio fala mais alto que o amor. A morte alheia, então, bane o jovem da cidade em que ele tanto adora viver. Sua esposa finge-se de morta para ir ter ao seu encontro, mas a falta de comunicação entre os amantes principia o final infeliz.

Assim, o jovem Romeu bebe o veneno mais poderoso que existe na esperança de reencontrar sua amada Julieta. Ao acordar do sono profundo que lhe trazia os falsos ares da morte, Julieta percebe seu marido sem vida e não titubeia em cravar em sua própria carne o punhal que seu amado trazia consigo. Nunca houve história tão triste quanto esta de Julieta e do seu Romeu. Nunca houve inspiração maior aos namorados como esta dos jovens que trocaram juras e beijos de amor sob a lua inconstante e que jamais serão esquecidos.

> Repostagem de uma crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 12/06/2008.

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Blow-Up – Depois Daquele Beijo (1966), de Michelangelo Antonioni

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A dignidade de um filme como este Blow-Up – Depois Daquele Beijo (1966), de Michelangelo Antonioni, faz repensar uma série de argumentos um tanto esquecidos pela indústria cinematográfica. Plano, sequência, caractere, transição: tão digna performance restitui a cada nova exibição as condições determinantes do cinema enquanto arte por excelência. O que não falta ao filme de Antonioni são essencialidades arraigadas naqueles 24 quadros por segundo. Como as melhores obras de arte, Blow-Up não é injusto com o mundo justamente porque o retoma por meio de seus aspectos elementares e, por isso mesmo, transformadores.

Há tanta ação na narrativa ambientada em Londres nos anos 1960 que ganhamos outras sugestões de realidade a cada novo ato – como numa peça teatral cheia de som e fúria. Ao mesmo tempo, entrementes, damos com a criação livre, praticamente vanguardista como as linhas retas de um quadro do Picasso ou o lirismo de um poeta pop/rock. Assim, o estúdio do fotógrafo Thomas, assumido auspiciosamente pelo excelente David Hemmings, possui os recortes lineares semelhantes à própria vida do protagonista, um bon vivant nostálgico, mas inserido até a raiz de seus cabelos naquela época de medos inventados e de paixões tão avassaladoras quanto efêmeras. São estas transições curtas e, em algumas oportunidades, um tanto ingênuas por parte das personagens aquilo que há de mais forte na mise-en-scène de Antonioni – e, tragicamente, o que acabou se perdendo quando das recentes gerações de diretores.

Mais do que filmar a cena contemporânea londrina, o cineasta italiano confidencia com seu espectador que tal obra não se encerra quando completa. Sabemos (Antonioni e nós) que os interesses mais sutis também podem ser os mais inevitáveis e, até mesmo, um possível assassinato – como se houvesse qualquer coisa de concreto! – permanece como uma fotografia imprecisa e ampliada muitas vezes. Não por acaso, o estúdio de Thomas é repleto de portas, acessos e espaços-limites, condicionando a arte às possibilidades da criação humana. E Jane, numa elegante e perturbada atuação de Vanessa Redgrave, faz-se personagem vivaz apenas quando está naquele ambiente fictício repleto de figurinos da moda, cenários que se alternam, spots de luzes e máquinas fotográficas fazendo as vezes do que é típico à sétima arte: se no estúdio as imagens têm de ser reveladas, também será assim com as pessoas e suas histórias.

Sugestivamente vago e insinuantemente atual, a película de Antonioni tem aquela humildade presente apenas nas obras de arte digna dos grandes criadores. Blow-Up é criação; Blow-Up é cinema.

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O Doador, de Lois Lowry

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Esta é uma história de aproximação. O doador se aproxima do recebedor, a criança se aproxima do conhecimento, o passado se aproxima do futuro. E o futuro é, pois, o presente distópico de Jonas, uma criança de doze anos num mundo sem contrastes. Quando o garoto encontra uma versão desconhecida do passado, o desejo de mudança é inevitável, como fosse possível reviver um mundo repleto de agruras, mas, também, cheio de possibilidades.

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Mad Max: Estrada da Fúria (2015), de George Miller

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O futuro indefinido que se apresenta em Mad Max: Estrada da Fúria (2015), de George Miller, é um prolongamento natural dos dramas presentes, simbolizado pela escassez do petróleo e pela esterilização da terra. Estes dois temas estão tão intimamente ligados que é até mesmo uma tarefa quase impossível pensar num sem lembrar-se do outro.

Na película, estes são os ingredientes de um mundo apocalíptico no qual sobreviver é o grande exercício diário. E os sobreviventes estão por toda a parte, seja como súditos de líderes autoritários, ou como peregrinos que fazem da estrada a única companhia suportável – caso  de Max Rockatansky, personagem clássico que já foi interpretado por Mel Gibson entre 1979-85 e, então, assume os traços expressivo de Tom Hardy.

O diretor George Miller enaltece seu herói de longa data, pois que ele também esteve por trás das câmeras nos filmes estrelados por Gibson. Mas, desta vez, a história que arde no deserto tem uma protagonista ainda mais impacto: a Imperatriz Furiosa que ganha beleza e técnica na quase sempre excelente atuação de Charlize Theron. Não se trata de uma personagem que rouba a cena; o filme é dela. Max e a Imperatriz são cúmplices dos mesmos sentimentos, ainda que suas origens sejam distintas.  E o caminho da redenção é o único que importa, mesmo que a travessia seja dolorosa.

Não é por acaso que este seja um road movie muito mais essencial que seus antecessores Mad Max (1979), Mad Max 2: A Caçada Continua (1981) ou Mad Max – Além da Cúpula do Trovão (1985). Nesta Estrada da Fúria, os motoristas não pedem passagem porque todos sabem os riscos antes mesmo de começar.

Desde que Max entra no carro, logo na abertura, a narrativa acelera com o pé fundo de um diretor preciso em cada corte. Suas cenas trazem às telas um gênero de ação característico dos anos 1980, mas que ultrapassa os limites estabelecidos até então, muitos dos quais definidos pelo próprio Miller.

faroeste futurista de Mad Max é um saboroso deleite artístico e artesanal feito dentro de uma indústria cada vez mais banal. Loucos são os outros que não veem a beleza destes tempos furiosos.

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A Mensageira das Violetas, de Florbela Espanca


Se o nome da poetisa já é violentamente poético, suas poesias trazem a intimidade que se desabrocha para si mesma. Há uma sensualidade que parece jamais se completar. O desejo ardente do que nunca será. A acidez íntima, qual uma taça de vinho agridoce compartilhada na vontade quase desesperada, mas ciente de que a embriaguez será curta e poderosa. Florbela escreve: “Que importa o mundo e as ilusões defuntas?… | Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?… | O mundo, amor?… As nossas bocas juntas!…”. Sonetista de mão cheia e vida curta. Decide partir de mundo por conta própria aos 36 anos em 1930. Seus versos e suas violetas, porém, ficaram para sempre.

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As Américas do Capitão

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O século XXI ainda é uma imagem indefinida. Apesar de identificarmos as características principais, não compreendemos o cenário como um todo. Política e culturalmente, porém, há ainda o agravo das dúvidas provocadas pela revolução tecnológica e seus reflexos econômicos. Daí que os registros do presente, feitos por jornalistas e historiadores, são um tanto vampirescos, quais o vilão que jamais se vê no espelho: a sutileza do Drácula de Bram Stoker é a metáfora de uma sociedade que não consegue ver a si mesma.

E sem passar verniz na realidade, a Marvel Comics encontrou duas maneiras distintas de lidar com os extremos nos anos 2000. Para tanto, direta e indiretamente, utilizou-se de seu personagem menos popular para fora da nação estadunidense: o Capitão América. Entre mortes, renascimentos e outros maus bocados, o Capitão ganhou uma notoriedade sem precedentes com os filmes do Universo Cinematográfico Marvel (UCM), iniciado em 2008 com Homem de Ferro, dirigido por John Favreau. Steve Rogers, o homem por trás do uniforme do Capitão, passou de personagem sisudo e essencialmente militar para um cidadão contemporâneo que esbanja carisma.

Antes das películas, existiam somente possibilidades para o milênio que se desnudava ainda sob o impacto do terrorismo, capitaneado pelos atentados de 11/09/2001. E, somado ao processo criativo, também a própria Marvel estava se recompondo após uma grave crise financeira.

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Assim, em 2005, como ninguém esperasse, o outrora falecido ajudante mirim do herói, James Buchanan “Bucky” Barnes, volta à vida num arco de histórias intitulado Soldado Invernal. Bucky, então, não morrera na Segunda Grande Guerra como se pensava. Pior: fora recrutado e recondicionado mentalmente pelos russos para cometer assassinatos políticos durante a Guerra Fria. Mesmo que o reaparecimento de Barnes ocorra após um ataque terrorista na Filadélfia, os roteiros de Ed Brubaker claramente se distanciam do presente, como que remontando aos acontecimentos que poderiam explicar o cenário atual. Os vínculos afetivos entre Steve Rogers e Bucky Barnes correm em páginas que não querem tocar nas feridas abertas no Ocidente – muitas, aliás, quase autoimpingidas pela agressiva política externa norte-americana.

capguerraPara além de si mesmo, e ainda antes do aparecimento do UCM, Steve Rogers está no centro de uma imprescindível minissérie da primeira década do século. Guerra Civil, escrita por Mark Millar e publicada em sete partes entre junho de 2006 e janeiro de 2007, discute essencialmente a polarização. É ainda uma hecatombe o que dispara o enredo (qualquer semelhança com O Reino do Amanhã, lançada em 1996 pela DC Comics, parece ser mera e evidente inspiração), mas aqui a pauta se fecha na própria nação. A Lei de Registro de Super-Humanos se confunde com as próprias expectativas de uma população cansada do caos e da própria miséria, temendo por um futuro incerto e disposta a renegar alguns de seus valores mais caros em troca de garantias. E, sabemos todos, garantias nunca são 100%. Enquanto o lado heroico pesa para o Capitão América e aqueles que o apoiam, há uma preocupação sincera de Tony Stark e, claro, do “time Homem de Ferro” em regulamentar a atividade super-humana. “Quem vigia os vigilantes”?, perguntaria Alan Moore se estivesse minimamente interessado nessa história.

Há uma ideia recorrente de que os quadrinhos de super-heróis só fazem sentido pela força de seus vilões. É um pensamento interessante, principalmente quando contrastamos Batman e Coringa, Homem-Aranha e Dr. Octopus, Superman e Lex Luthor, Professor Xavier e Magneto. Ainda assim, esta parece ser uma noção um tanto quanto preguiçosa. As histórias e as personagens que se destacam falam, evidentemente, do bem e do mal, mas não apenas deles. Às artes legamos essa heroica responsabilidade de não nos convencer que há apenas um caminho correto. Luz e trevas, amor e ódio, guerra e paz moldam a sociedade para além do bem e do mal, dando relevância e complexidade à experiência humana. Tanto é assim que até mesmo um super-herói das revistas em quadrinhos chamado Capitão América, cujo uniforme e o escudo traz as cores da bandeira estadunidense, pode nos mostrar diferentes Américas e, quiçá, surpreender-nos quando nós mesmos darmos com o nosso reflexo no espelho.

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The Wall, de Pink Floyd

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Numa época não tão longínqua assim, álbuns musicais eram o cerne do cenário fonográfico. Shows, clipes e outras variações na forma de ouvir/consumir música eram relevantes, mas não possuíam o peso de um disco (long play, fita k7 ou, mais recentemente, cd) composto tendo sobre si o peso de um conceito. Diferente das coletâneas, os álbuns conceituais quase sempre traziam uma ideia unificada concatenando os diversos elementos das canções. Ainda assim, claro, era possível falar de amor e política, de tristeza e de educação, de guerra e de solidão. Em The Wall, décimo primeiro álbum de estúdio da banda britânica de rock Pink Floyd, são justamente as barreiras e os muros que ligam uma experiência pessoal e mundana. Muros mentais estão lá com Nobody Home: a casa vazia de quem não atende ao telefone em contraparte ao desespero solitário do autor. Muros da repressão que não deixam crianças em paz nas três partes de Another Brick in the Wall: professores despejando escárnio porque os alunos não precisam desse tipo de educação. Muros fronteiriços que entorpecem a visão do horizonte com Comfortably Numb: o navio distante (ou apenas a sua fumaça) num vislumbre passageiro de quem deixou-se crescer sem dar por isso. Lançado em 1979, The Wall nunca perdeu o vigor tanto pela virtuose de seus músicos, quanto pela sensação de permanência dos problemas ancestrais da sociedade. Porque desde sempre há os donos do muro e aqueles que são apenas outros tijolos.

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Leite Derramado, de Chico Buarque

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Quando saíram as primeiras críticas sobre Leite Derramado de Chico Buarque, frequentemente compararam-no ao texto de Machado de Assis. As semelhanças do tom íntimo e pessoal com Memórias Póstumas de Brás Cubas, bem como a narrativa em primeira pessoa que revê a própria vida propositadamente de forma desordenada podem até mesmo convidar à comparação, ainda que os textos em si caminhem por vias inteiramente distintas. Brás Cubas é o cínico bon vivant, irônico para com a vida, aquele que não perdoa coxa e bela, que reclama daquela que o amou durante quinze meses e onze contos de réis. Já Eulálio d’Assumpção regozija-se de seu passado nobre, condescendente com a história do país e com as tramas particulares que então lhe confundem a memória; a mente a lhe pregar peças constantemente – coisa que para um morto feito Cubas é praticamente impossível. Brás Cubas é um defunto autor, ciente do que viveu e de como percebeu o mundo; Eulálio é um enfermo centenário a lidar com o peso da idade e que sente particularmente os inglórios dias idos e vividos. Ambos, porém, são aristocratas que se inserem num mundo de aparências e pequenas vaidades, coisa “suptil” como o “p” d’Assumpção. Não obstante a contemporaneidade de Leite Derramado, Chico Buarque também se aproveita de uma estrutura coloquial, posto que seu alter ego literário está a falar com aqueles a seu redor, seja sua filha, as enfermeiras ou outros funcionários do hospital no qual se encontra. Há uma distância salutar entre Chico Buarque e Machado de Assis evidenciada nas respectivas épocas de seus escritos. Memórias Póstumas de Brás Cubas foi publicado em livro no ano de 1881, oito anos antes da Proclamação da República, quando o realismo despertava nas artes brasileiras. Já Leite Derramado está mergulhado na mal chamada pós-modernidade (ou modernidade líquida), quando tudo se torna tão duvidoso quanto a memória revivida por um ancião.

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A Cultura no Mundo Líquido Moderno, de Zygmunt Bauman

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A igualdade é o ponto nevrálgico desta obra de Zygmunt Bauman que destaca ainda a possibilidade de consumir cultura sem elitismos, mas de forma profundamente empática. N’A Cultura no Mundo Líquido Moderno, por sinal, está o alerta supremo de nossa época: o processo cultural nunca é por si ou para si, mas necessária ao entendimento do outro, à descoberta de si mesmo porque sou um, todos que me antecederam e, ainda, aqueles que me são contemporâneos. Casulos culturais devem ser implodidos até que se transformem em pura liquidez. Apropriação cultural é a maior falácia dos falsos moralistas justamente porque não terminamos em nós mesmos.

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A Mulher Mais Linda da Cidade e Outras Histórias, de Charles Bukowski

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Porque parte de nossa miséria, a poesia urbana escorre feito prosa, misturando-se à chuva na sarjeta. A história das ruas, dos sem eira nem beira, da perversidade num mundo de aparências move os escritores desde há muito. Uns, como Honoré de Balzac na sua Comédia Humana, eram ácidos sem ser cruéis; o mundo poderia ser trágico, mas, ainda assim, eloquente como o recorte de uma janela. Charles Bukowski, em seu tempo, derruba janelas e portas com um chute bem dado no queixo daqueles que se metem em seu caminho. Ficam estateladas, as personagens, entre cacos de vidro, sujeira e tudo o mais que cerca o inferno (e os inferninhos) da grande cidade – Los Angeles, para ser mais específico. A Mulher Mais Linda da Cidade é, também, a pior – e, por isso mesmo, legítimo exemplar da espécie humana –, que se envolve com o pior homem. Ao redor de ambos, os piores tipos se esbaldam, enfurnados em pocilgas fedorentas, penitenciárias que não valem nada e tantas outras ilusões perdidas, típicas de uma cidade que vive da imagem envelhecida dos filmes em preto e branco.

bukowski

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Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma (1999), de George Lucas

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Se a trilogia clássica de Star Wars é sobre a jornada do herói Luke Skywalker, a segunda trilogia é claramente sobre o poder corrompendo até o mais iluminado dos seres. Já essa terceira trilogia – ainda por ser encerrada – parece ser sobre um monte de coisas e nada em específico, como o pote de um bufett de sorvetes tão misturado que não se consegue identificar nenhum sabor: é até divertido, mas sem grande interesse. Voltando aos episódios iniciais, damos com aquela sensação de uma abordagem fora de seu tempo. As questões políticas de A Ameaça Fantasma falam muito mais com o conservadorismo dos anos 1980, do que com o final dos anos 1990, quando o mundo ainda não suspeitava que o 11 de setembro de 2001 traria outros rumos nas questões internacionais e no american way of life. Não por acaso, durante o governo de Ronald Reagan (1981-89) foi criado o Projeto Guerra nas Estrelas, programa militar que previa satélites antimísseis equipados com lasers – detalhe importante: a ideia não funcionou. Anakin Skywalker, no episódio I, fora adotado por um liberal, e tudo parecia correr bem. Até mesmo os grandes sábios de seu tempo, como Yoda e Mace Windu, ignoraram os riscos. Mal sabiam eles que o garoto cresceria seduzido pelas vantagens conservadoras de um ardiloso político (Palpatine), que se transformaria de senador a imperador num intervalo de poucos anos. Ainda assim, o filme não funciona – falta aquela empatia tão significativa vista em Luke assim que o conhecemos. Nós, espectadores, deveríamos ter desconfiado: o androide C-3PO inacabado era um sinal de que a película também ficaria incompleta.

ameaca

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Memórias Póstumas de Brás Cubas, escrito por Machado de Assis

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Honoré de Balzac, Alexandre Dumas, Charles Dickens e outros tantos romancistas publicaram alguns dos livros mais importantes da humanidade em folhetim, gênero que nasce na França concomitante ao aparecimento da imprensa. Ainda que o talento destes e de outros escritores seja inegável, é preciso ter em mente que a escrita e a consequente publicação em capítulos impressos diária ou semanalmente nos jornais possibilitava ao autor uma relação muito próxima com o público leitor – então, uma parcela muito pequena da sociedade. No Brasil, escritores como José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Lima Barreto, Joaquim Manuel de Macedo e, claro, Machado de Assis tiveram suas obras publicadas primeiramente em folhetim. Foi o que aconteceu com o clássico–mor da literatura realista brasileira Memórias Póstumas de Brás Cubas, que saiu em etapas de março a dezembro de 1880, na Revista Brasileira. Somente em 1881 a obra teve seu lançamento em livro pela Tipografia Nacional, órgão que antecede a Imprensa Nacional. Com sua ironia genuinamente brasileira e salutarmente inspirada por William Shakespeare, a prosa machadiana assimila ainda o vigor da literatura francesa com sua crítica de costumes e análise social forjada na estrutura do romance. O defunto autor (não confunda com um autor defunto) é, em si mesmo, a própria desventura humana, ilusão de uma aristocracia que nunca foi nada além de uma imitação ruim da tradição europeia. Eis o que sobra do país de Machado de Assis: um emplastro que não chegou a ficar pronto. Quiçá o mundo só faça algum sentido para um defunto que já não tem mais a responsabilidade de se preocupar com o legado de nossa miséria.

MEMORIAS

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