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Qualquer ser humano possui uma ou duas verdades absolutas. São quaisquer certezas capazes de lhe tirar o sono, mesmo após uma longa noite de amor ou de um filme clássico e raro nas altas horas da madrugada. Ciente dessa verdade, a pessoa em questão jamais pedirá conselho algum no que se refere a outra possibilidade. Nunca. Só existe um caminho, como quando o poeta encontra a única palavra-descoberta para o seu verso. Não sendo propriamente um poeta, eis minha verdade: a chuva não combina com as metrópoles.

A cena é do cotidiano, tão corriqueira em determinadas estações que a cidade não lhe tem em boa conta. Trata-se do fluxo sem cadência, do ir e vir sem sair do lugar, da pilhéria refeita em dias chuvosos quando os carros vão ter uns com os outros num trânsito tão estático quanto caótico. E não deixamos de registrar, seja em boletins de ocorrência ou câmeras de celulares, o que acontece com os apressadinhos: uma pista molhada, um pneu careca e mais outro acidente para as estatísticas.

O humor das cidades grandes não combina com a chuva. Um rosto fechado dentro do carro ou na mesa apertada do escritório são alheios aos possíveis prazeres que a água das nuvens oferece aos que vivem em terra. Quem trabalha na rua não gosta de chuva (a exceção, talvez, dos vendedores de sombrinhas e guarda-chuvas que surgem dalgum lugar tão logo os primeiros pingos do céu se apresentam).

As metrópoles só querem saber do sol e dos seus raios UV, estes últimos nunca em demasia. Poucos na cidade gostam da chuva. São aqueles que sabem que apreciar a chuva é uma arte guardada na mente desde criança.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 30/04/2008.

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