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O vocábulo invadiu sorrateiramente aquele texto sem que os demais elementos observassem sua presença. Estava procurando algo, mas não sabia o que era. Esta curiosa busca, inerente àquela situação, fê-lo continuar num sentido único – da esquerda para a direita. Quando chegava ao final de cada linha, retornava ao mesmo lado do qual partira e descia um degrau.

Mal começara o segundo parágrafo, teve de saltitar de linha para linha, pois encontrara um diálogo repleto de onomatopéias, o que tornava as frases muito curtas. Desviou de um “ui” e teve de pular sobre um “ai” para não machucá-lo ainda mais. Achou que o ritmo daquelas palavras mudara um pouco, mesmo assim não desanimou.

Detalhista que era, o vocábulo percebeu que a estrutura básica das frases era sempre a mesma. Um tópico, logo no início, abria o assunto para que fosse melhor explicado na seqüência. Notou ainda que não existiam contradições, tampouco incorreções gramaticais que destoassem do texto e, por que não?, do contexto.

Locuções adequadas permitiram que vocábulo identificasse claramente as três partes fundamentais do corpo textual – introdução, desenvolvimento e conclusão. Apesar de não se lembrar exatamente do título daquele texto, tinha a nítida sensação de que suas poucas palavras delineavam explícita e claramente o tema daquelas frases certas em linhas também certas.

Chegou à penúltima linha extremamente cansado. Jamais tivera que prestar tamanha atenção num simples (mas não simplório) texto. Já ia se dar por vencido quando tirou as forças restantes de suas serifas e foi para a última linha. Deveria caminhá-la por completo e assim o fez. Chegou ao ponto final e soube que, enfim, terminara sua busca: havia encontrado a COERÊNCIA.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 15/05/2008.

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