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Fenômeno típico das cidades brasileiras, os cinemas de bairro foram engolidos por igrejas evangélicas, lojas de departamentos e outros estabelecimentos assim não muito voltados à sétima arte. Na Ilha de Santa Catarina, não aconteceu de forma diferente. Os shoppings, estes sim em avanço contínuo, aglutinaram salas e salas de cinema no mesmo lugar; formigueiro dirigido ao entretenimento acompanhado de pipoca tamanho grande e um copo de refrigerante. Mas ir ao cinema não é só isso.

Quando um filme está em cartaz, é uma nova oportunidade de entrar num mundo desconhecido. Única chance de ausentar-se de si mesmo e esquecer vestígios de fumaça das fábricas, impostos incoerentes e toda sorte (ou azar) de dramas reais. Por duas horas, somos cúmplices da versão do diretor, do estúdio, do ator, do roteirista e dezenas de envolvidos naquilo que resulta num filme.

A magia que sempre acompanhou o cinema, desde aquele primeiro trem em movimento projetado pelos irmãos Lumière, nunca esteve exclusivamente do lado de lá da tela. É justamente o que vaza do retângulo branco que faz as conexões do cérebro mais felizes ou tristes, mais completas ou vazias, mais agitadas ou serenas.

Ir ao cinema é, ainda para uns poucos, um ritual tão ou mais importante quanto para os religiosos é imprescindível ir à igreja. Afinal, é preciso saber com alguma antecedência que se assistirá uma obra cinematográfica e que obra será essa. É preciso comprar o ingresso antes que a sala fique lotada. É preciso desligar o celular e pedir que seus amigos esqueçam de você por pelo menos enquanto o filme dura.

A vida, em muitas ocasiões, coloca mulheres e homens como atores de um filme real, com princípio e fim num roteiro que se escreve a cada momento. O cinema, porém, inverte a pergunta como apresentasse um outro universo possível: que são vocês se não meros espectadores num mundo cercado de mar já sem mais tantos cinemas de bairro?

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 29/05/2008.

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