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Deixem-me contar uma história que há muito nos foi legada. Viviam naquela cidade dois jovens de famílias rivais que, um dia, viriam a trocar beijos e juras de amor sob a noite de inconstante lua. Ele, desgostoso com uma desilusão amorosa e com aquela guerra odiosa entre as duas casas inimigas, entrou no baile mascarado. Ela, tão jovem e inocente, sabia que quando o amor chegasse não seriam necessárias máscaras ou quaisquer enfeites, porque o cupido não desempenha seu papel pela metade.

Encontraram-se como quem descobre um tesouro a que não se procura, pois o destino tratou de lhes pregar uma peça tão bem engendrada quanto traiçoeira. Mesmo o frei, ouvidor constante dos sentimentos daquele jovem, primeiro viu certa inconformidade na recém chegada paixão. Os jovens, pensava o religioso, mudam de amores como as árvores perdem suas folhas. No entanto, aquela união inesperada poderia aquecer corações hostis e selar de vez a paz desejosa até mesmo pelo príncipe guardião da cidade.

Em segredo, casaram-se. O frei realizou a sagrada cerimônia confiante no fim daqueles pesares sem cabimento. Mas eis que o drama humano ganha ares de tragédia, quando o ódio fala mais alto que o amor. A morte alheia, então, bane o jovem da cidade em que ele tanto adora viver. Sua esposa finge-se de morta para ir ter ao seu encontro, mas a falta de comunicação entre os amantes principia o final infeliz.

Assim, o jovem Romeu bebe o veneno mais poderoso que existe na esperança de reencontrar sua amada Julieta. Ao acordar do sono profundo que lhe trazia os falsos ares da morte, Julieta percebe seu marido sem vida e não titubeia em cravar em sua própria carne o punhal que seu amado trazia consigo. Nunca houve história tão triste quanto esta de Julieta e do seu Romeu. Nunca houve inspiração maior aos namorados como esta dos jovens que trocaram juras e beijos de amor sob a lua inconstante e que jamais serão esquecidos.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 12/06/2008.

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