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Em todos os cantos do mundo, há aqueles que vão e aqueles que fincam pé numa terra até então desconhecida. Sentir a chão estranho, seja com os pés, toque com as mãos, é um prazer único dos que migram. Mesmo aqueles que ainda vivem em sua terra natal trazem no sangue a história dos antepassados desbravadores. Que somos nós se não poeira de estrelas que viajaram por milhões ou bilhões de anos?

Na história recente, algumas décadas antes da chegada da família real portuguesa ao Brasil, casais de açorianos vieram à Ilha de Santa Catarina numa clara campanha de povoação da coroa. Os novos brasileiros oriundos do Arquipélago dos Açores trouxeram seus costumes e tradições enfrentando três meses de viagem. Muitos padeceram pelo caminho e outros tantos aportaram em condições de saúde lastimáveis. Todos, como sempre, buscavam dias melhores.

Um dos aspectos da cultura açoriana que mais impressiona até os dias atuais é o casario, com suas casinhas grudadas remetendo a um passado no qual todos se conheciam pelo nome. Muitas ainda estão de pé, quase como um puxão de orelha naqueles que confundem progresso com indiferença. Cada casinha açoriana é um poema (talvez um pão-por-deus) fincado no coração de uma terra já não mais desconhecida.

É da natureza do homem a migração e a exploração. Busca-se cada caverna escondida, cada centímetro não visto do fundo do oceano. E quando a Terra já não é o bastante, procura-se gelo em Marte. Mas de que vale tanto conhecimento se os dias melhores (aqueles mesmos, procurados pelos açorianos) custam a chegar? Talvez a resposta esteja naquelas casinhas grudadas que desafiam arranha-céus e vazem valer a poesia que a humanidade ainda não encontrou em si mesma.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 26/06/2008.

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