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O Brasil teve uma modernidade tardia, como fora tardio tudo o mais em nossa cultura desde a chegada da família real nestas paragens – por sinal, muito atrasada.

Sendo tardia nossa cultura ocidental, não é de se estranhar que a literatura tenha seguido pelo mesmo caminho. Daí a interessante observação recentemente lida no livro “Literatura Brasileira – Modos de Usar”, escrito por Luís Augusto Mir (L&PM Pocket). O realismo, segundo Mir, acabou determinando uma tradição em nossa literatura que perdura até os dias atuais. De Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, José de Alencar, passando por Jorge Amado, Graciliano Ramos, Erico Verissimo, chegando até Roberto Drummond, Rubem Fonseca, Ana Miranda e outros tantos. Toda essa tradição realista, ainda explica o autor, estaria originada no sentimento daqueles portugueses que nos colonizaram, que tinham a convicção do “não vale a pena”, sentimento “(…) marcado por falta de método, de previdência, por uma espécie de desleixo (…)”. Seríamos realistas, pois, por falta de perspectivas.

É claro que não são todos os autores que mergulham de cabeça no realismo. Temos sempre a aparição de um Augusto dos Anjos, de uma Clarice Lispector; esta, no íntimo psicológico, aquele, no íntimo físico. Em tempos presentes, há autores de todos os tipos, os que fazem literatura fantástica, aqueles do gênero policial, os que nem mesmo tem um estilo único (como se auto-define Millôr Fernandes), e toda sorte de talentosos ou desastrosos escritores.

A literatura brasileira acordou tarde para o banquete, mas teve a malandragem de aparecer na hora da sobremesa.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 17/07/2008. 

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