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Quando o despertador tocou naquela manhã, eu sabia que a minha vida jamais seria como antes. Tinha seis anos e, em algumas horas, colocaria os meus pés pela primeira vez dentro de uma sala de aula. Assim como numa viagem de trem, eu estava prestes a embarcar no vagão que me levaria ao conhecimento e que seria um dos grandes prazeres destes meus dias.

Em minha infância, havia as mãos maternas quando eu as requisitava e que estavam sempre quentes – fato que jamais consegui entender. Havia também o clima de eterna brincadeira, no qual a irresponsabilidade era uma qualidade e não um problema. E, é claro, a liberdade que o mundo adulto nunca nos presenteia por completo.

Minha mãe e eu éramos muito parecidos. Os mesmos cabelos escuros como a mais negra das noites. Os sérios olhos verdes e o rosto com traços arredondados. Também éramos donos do bom humor constante e da calma para confrontar as dificuldades. Possuíamos uma sintonia de idéias e observações que poucas pessoas conseguiam notar. Aquele era um mundo sereno, com poucas regras. Ambos sabíamos que bastava ser apenas nós mesmos. Porém, já nem sei se sou mais eu ou se sou mais ela – o mais provável é que eu seja os dois.

Vivo e convivo com essas pequenas lembranças que eu tenho desta mulher tão especial que deixou de estar ao meu lado para ficar dentro de mim. São pequenos grandes momentos que passamos juntos, como o fato mais remoto de que me recordo: uma criança com a mochila nas costas pronta para ter o seu primeiro dia de aula e o rosto feliz de sua mãe dizendo “Meu filho já está ficando grande, agora vou ficar em casa sozinha”.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 03/07/2008.

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