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O músico sobe no palco munido apenas de seu talento. Ao piano, as primeiras notas de uma bossa nova facilmente reconhecida. Porém, um inesperado solo de saxofone invade a canção que fala sobre um falso intérprete desafinado. Esta cena, a princípio fictícia, pode muito bem ter acontecido quando a bossa nova viveu seu momento mais interessante: o encontro com o jazz.

Ainda é complicado admitir quem influenciou quem, se o jazz à bossa, ou vice-versa. Mas a música não precisa de tantas explicações. O sentimento, por vezes, caminha na direção contrária do conhecimento. É como viver o instante sem a preocupação do passado ou do futuro.

A união da bossa nova com jazz mostrou como a improvisação deste se misturou como que naturalmente com a reflexão “quase-triste” daquela. Cantar a bossa nova é lembrar daquela foto tirada com uma Rolleyflex, mas cuja imagem revelada foi não menos que a ingratidão da mulher amada. O drama bossa novista é, necessariamente, urbano; um produto da sociedade que não pode ser vendido feito outras ilusões do comércio.

Entre solos inspirados do jazzista e a cadência deste novo-samba definido pelo violão de João Gilberto, os caminhos musicais da bossa nova ainda têm fôlego de uma novidade que já completa os cinqüenta anos. Neste meio século de canções tristes ou nem tão tristes assim, jazz e bossa nova são como duas irmãs que se encontraram depois de adultas. E, como parentes que não se vêem há algum tempo, ainda têm muito para conversar. E cantar.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 31/07/2008. 

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