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Orson Welles foi um poeta que fez cinema. Fernando Pessoa, que não fez cinema e sim poesia, confirmou que “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. E quais os limites entre a realidade e o fingimento?

No filme “F for Fake – Verdades e Mentiras”, de 1973, o diretor, ator e roteirista usa e abusa das linguagens cinematográfica e poética para contar uma história farsesca com elementos de realidade construída. Falsários e falsificadores apresentam relatos conflitantes e, na maioria das vezes, desconfiáveis. E tudo se dá em ritmo de documentário. Ao espectador, resta crer no que mais lhe convém ou, em caso extremo, duvidar de tudo e de todos.

A obra de mestre, Cidadão Kane, de 1941, antecipava o mundo de hoje, deslumbrado em si e por si mesmo. Verdades e Mentiras inverte essa idéia, quase como uma metáfora destes tempos pós-modernos. O final do século XX e este início do XXI trouxeram de forma abrupta a pós-modernidade como postura cultural. O que vivemos agora é uma convergência de idéias que provocam as mais variadas divergências no campo cultural. A pós-modernidade não nos trouxe uma idéia de conjunto da obra e, pelo contrário, fragmentou ainda mais as pessoas da já má distribuída sociedade do capital.

Ainda que “F for Fake” aborde essencialmente o mundo da pintura, o contexto das verdades e mentiras pode ser aplicado à sociedade moderna. Quando o mundo real é desconstruído ficcionalmente por Orson Welles, temos um dos grandes momentos do diretor. Ele monta, recorta, edita e oferece um filme que não pode ser apenas rotulado como documentário, posto que vai além, ficando numa difusa fronteira entre ficção e realidade. Tudo recheado com poesia, é claro.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 04/09/2008.

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