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Estava no alto. Ulisses, jogado sobre a cama, acordou quando se tornou mais forte que suas pálpebras. Olhos abertos, viu toda a cidade acordando com a sinfonia de carros, britadeiras & despertadores. Ali, porém, o barulho era outro. Longe daquele tumulto, num condomínio residencial fechado e cercado por uma vegetação atlântica parcialmente destruída – “Sobraram os enfeites, dizia” –, trajando um amarrotado terno, soergueu o corpo dolorido e ligou a televisão.

Estava ainda mais alto. Coberto por jornais, Moisés viu-se acordado quando a cantoria dos pardais à sua janela invadiu seus ouvidos. Algumas gotas de sangue percorreram seu pescoço quando ameaçou se levantar. O corte causado por uma bala de raspão não tinha cicatrizado. A noite fora agitada. Ligou o rádio quando, por fim, conseguiu se levantar e olhar de relance o morro e as casas de madeira dispostas feito uma colméia humana.

Ulisses e Moisés lembraram-se no mesmo instante, como que num pensamento único percebido por duas pessoas, da noite anterior. Ulisses acabara de fechar um negócio milionário com investidores estrangeiros. A polícia, no entanto, mesmo sem ser convidada, entrou no lance com tiros e bombas de gás ao bel prazer de seus fardados. Na porta, Moisés retribuía apertando o gatilho de seu fuzil AK-47. Por uma oculta saída subterrânea, Ulisses escapou deixando os desatinados policias perguntando-se como alguém poderia sair daquele local cujas paredes não apresentavam nenhuma outra entrada senão a principal. Moisés também conseguiu fugir com a sua moto que ficara escondida atrás de algumas árvores. Enquanto acelerava forte, recebeu um tiro de raspão no pescoço, o que lhe causou uma dor excruciante.

Agora, ambos precisavam sair. Ulisses esperava seu motorista Moisés para mais um dia de trabalho.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 11/09/2008.

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