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Quando notei, estava dentro daquela que fora a misteriosa e assustadora casa de Usher. Era uma verdadeira mansão, um lugar de incomensurável beleza. Muitos enigmas e segredos jaziam entre aquelas paredes. Tudo era sobremaneira limpo. O chão alvo refletia meu corpo tal qual um espelho.

Olhei para o teto e vi os lustres cor de oliva e trabalhados com metal retorcido. Por entre as espessas paredes, espíritos de mulheres passavam com os olhos fechados, como se não quisessem ver o que as aguardava no outro lado da vida. Desviei o olhar por um breve instante e as garotas, ao menos pareciam jovens, desapareceram.

Percorri os ambientes gelados e silenciosos daquele lugar que me fascinara. O cheiro era forte, mas agradável; parecia uma mistura de frutas com flores. Nos quartos, tive outra surpresa. Fantasmas de mulheres louras dormiam tranqüilamente nas camas talhadas em marfim. Elas vestiam camisolas vermelhas, cor de sangue. Passei por aqueles recintos silenciosamente, sem acordar nenhuma das mulheres-fantasmas – se é que era possível fazê-lo.

Acelerei meu passo e percorri salas úmidas, nas quais estátuas banhadas em ouro acompanhavam com os olhos o meu caminhar. Pude notar que pisava em bronze e os meus sapatos faziam um barulho ritmado, como uma orquestra de instrumentos de percussão. Por fim, cheguei à varanda. No horizonte, a total escuridão desta noite sem luar. Aproximei-me de um quadro qualquer na parede, perdido entre tantos outros. Numa moldura prateada, li o que estava escrito: Lord Usher 1891-1918. Acima da moldura, estava a imagem de um homem com trajes de gala. E este homem era eu.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 18/09/2008.

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