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O ilhéu urbano não tem raízes locais, mas é, em troca, cidadão do mundo; quase não possui traços dos Açores ou de qualquer cultura lusitana, ao mesmo tempo em que se contagia pela alegria do boi-de-mamão e pelo delicado trançado difícil da rendeira.

O ilhéu urbano é poeta de versos primeiros, admirado com as belezas naturais das praias de Norte a Sul, da lagoa preservada e da lagoa agitada, dos altos e baixos do relevo sinuoso, das estações chuvosas ou secas, mas sempre próximas ao mar.

O ilhéu urbano é cidadão do centro, seja ele de que bairro for, mas isso não é novidade, pois em 1950 a população urbana era de 51.300 enquanto a rural constava de 16.515 pessoas; a boemia salutar lhe é opção premente, ainda que aceite recusa.

O ilhéu urbano conhece a história da Ilha, mas faz questão de não entendê-la diariamente para ter um novo sabor a cada caminhada; as luzes tradicionais da cidade também lhe atraem sobremaneira, desde a pomboca de outros fins-de-tarde até a noturna Hercílio Luz.

O ilhéu urbano pode até ter um time da região, seja da Ilha em si ou do continente, mas sua maior torcida é para que os ânimos não se exaltem ao ponto da violência; e por falar em violência, o ilhéu urbano acompanha desgostoso seu crescimento nas páginas dos jornais, como que assimilando a paz definitivamente na utopia.

O ilhéu urbano é, antes de mais nada, um apaixonado pela sua cidade, pela complexidade inerente de uma Ilha outrora chamada de paraíso, mas consumida em boa parte pelo concreto; o ilhéu urbano somos muitos, andando anonimamente pela natureza de Meiembipe, encantado pelo céu da Ilha dos Patos, curioso pelas tradições de Desterro e, sabendo-se deliciado, cidadão de todas essas cidades chamadas Florianópolis.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 30/10/2008.

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