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A bala passou raspando sobre o capacete. O jovem soldado não entendia exatamente o porquê de estar naquele lugar, mas sabia que, durante o tiroteio, não deveria fazer a si mesmo tais questionamentos.

Os momentos de tensão se agravavam ainda mais quando um companheiro do seu pelotão era atingido fatalmente. Foi então que, munido de toda coragem e raiva que jamais sentira em sua vida, pegou o rifle e saiu correndo na direção do inimigo. Os tiros, certeiros, abatiam os soldados rivais, um por um. Por ínfimos instantes, soube que era um herói de uma guerra perdida. O coração batendo desenfreada e violentamente, tal qual uma metralhadora.

Com o desabrochar total da chuva, ficava cada vez mais difícil enxergar o alvo com precisão. Completamente afastado, o soldado viu-se sozinho. Sem inimigos ou amigos, sem munição no seu rifle e sem nenhuma outra arma no uniforme. A solidão, então, tomou-lhe corpo e mente, absorvendo os desejos e medos mais profundos. Esperou em silêncio absoluto o temporal passar. Seus pensamentos voaram para longe. “Volte vivo, meu filho”. A voz de sua mãe ressoava suavemente em sua cabeça. Jurara a si mesmo que cumpriria a vontade da mulher que o gerou e fê-lo um homem valente.

Destruindo por completo aquela aparente calmaria, uma luz inebriante ofuscou seus olhos. Sentiu a terra molhada tremer como se o chão fosse se dividir em milhares de pedaços. Quando voltou a enxergar, seus olhos depararam-se com uma mulher deitada na sombra de uma árvore. Os pés descalços deixavam-na com uma aparência inocente, nua das impurezas humanas. Os olhos verdes daquela pessoa que surgira na sua frente lembravam os de sua mãe. Assim, o soldado soube que perdera a guerra, mas finalmente voltara para casa.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 13/11/2008.

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