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Essa não é propriamente uma história de amor. Não envolve dois amantes, tampouco um casal enamorado. Nada disso. Para não faltar com a verdade, essa não é nem mesmo uma história, ao menos, não no sentido em que todos conhecemos.

Os carros dele e dela pararam um ao lado do outro. Os rádios de ambos os veículos estavam sintonizados na mesma estação. Sorriram, então, quando se flagraram cantando juntos uma canção em inglês. Foi sorte estarem naquele mesmo local? Afinal, o que se pode esperar quando se está na fila no fim de tarde da ponte que sai da Ilha? Talvez, sempre passassem pelo mesmo local quase ao mesmo tempo. O destino poderia atrasar ora um, ora outro. Mas, daquela vez, tudo combinara. Assim que se olharam, perceberam que não era mera coincidência, até porque a coincidência é uma questão de estatística. Basta fazer as contas.

Mas algo haveria de dar errado. Não tivesse o destino, ou melhor, o trânsito sido traiçoeiro com eles, eu não teria motivo para escrever estas mal traçadas. Uma fila acelerou mais que a outra e um desvio feito pela polícia rodoviária separou ambos para todo o sempre. Sequer puderam anotar as placas dos carros que transportavam oásis no meio de um deserto urbano movido a petróleo.

Imagino-lhes, qualquer um dos dois, num futuro: o tempo já teria apagado a imagem nítida que tinham um do outro, mas inesquecível se tornara a música que tocava no rádio de seus carros naquele momento. Love me tender, cantava Elvis nalguma gravação antiga. E sempre que ouviam essa música, era como se pudessem voltar no tempo e sentir mais uma vez aqueles olhos e lábios sorridentes de um futuro que jamais aconteceu. E sempre pediam, por favor, love me tender, outra vez.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 27/11/2008.

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