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Até que ponto a internet teria conseqüências relevantes na vida dos escritores e, mesmo, todos os artistas de outras épocas? Escrever é ato solitário, na maioria das vezes. As ferramentas dest’ arte evoluíram sobremaneira desde que a palavra se firmou: a pena, a máquina de escrever, o computador. É sabido que, para o artista das palavras, o meio físico que utiliza pode ter sérias influências na sua obra, tanto no que diz respeito a sua realização quanto no que concerne ao seu legado.

Neste 2008 que tão breve nos acenará com seu adeus histórico mas jamais definitivo (pois não é só 1968 que nunca acaba), está em processo a transposição para o meio virtual de toda a obra conhecida do maior nome das letras nacionais: Machado de Assis. O autor carioca que nos deixou há cem anos possivelmente olharia com seu olhar atencioso este processo que deixa o papel de lado para consagrar a tela dos computadores de todo o mundo ligado na rede de computadores. Talvez o próprio Bruxo do Cosme Velho não imaginasse que seria possível estar próximo de um número tão grande de leitores.

Para o Machado que acompanhou o nascer do século 20, tais revoluções tecnológicas não lhe passariam incólume, tendo por fineza “… catar o mínimo e o escondido” e, assim, divagar “… com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto”. O autor que viveu a mesma época do nascimento do cinema, qua presenciou a troca dos bondes puxados por burros para os movidos com eletricidade, identificaria os muitos aspectos de nossa brasilidade e, principalmente, que implicações nos desvios de humanidade a internet possibilitaria. Com muita ironia e munido de seu olhar antropológico , o próprio Machado de Assis poderia colocar um vídeo qualquer no You Tube, site da internet de conteúdo audiovisual tão bem afamado na internet entre os jovens. Talvez aparasse melhor a barba cor de palha seca que tanto lhe imprimia um ar austero e, com o rosto limpo, diria que toda essa onda já começara desde a invenção do humano por William Shakespare. Maktub, reiteraria Machado, fazendo mais uma de suas muitas citaçãos. Agora, porém, seria na internet.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 12/12/2008.

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