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Acordou. Onde estava? Paralelo aos paralelepípedos, sobre a grama retilínea cortada com dinheiro público. Foi enxotado dali. Não lera a placa? Proibido pisar na grama, dizia em letras maiúsculas. Já não se lembrava das palavras escritas, as letras tornaram-se desenhos cujo sentido não fazia mais parte do arcabouço de sua memória.

Saiu, cambaleando. Faixa sim, faixa não, caminhou desviando-se dos carros que não paravam. Havia cheiro de pressa no ar. A cidade descortinava-se sob seus olhos rápida e incessantemente. Urgia sair dali. Entrou num ônibus; o cobrador olhou desconfiado. Viajar de graça, nem pensar. Desceu sentindo a alma lhe escapar pela boca. Era fome.

Instantes depois, sentado à mesa de um bar, apontou ao atendente que lhe trouxesse um daqueles. Bem grande, mostrou abrindo suas mãos. E veio o lanche. Devorou-o ansiosamente. Recebeu um copo de água gelada e tomou seu conteúdo de uma só vez. O líquido escorreu cortante. E, assim mesmo, a sensação de alívio invadiu o interior de seu corpo.

Permaneceu sentado ainda alguns instantes. O atendente então foi ter com ele. Pagar? Então deu-se um qüiproquó dentro do bar. Os ânimos exaltados, as cadeiras voadoras, palavras bravias rebatendo nas paredes. Conseguiu sair numa fuga que lhe tirou por completo o ar de seus pulmões. Sorte?

Não compreendia o que estava acontecendo. Como chegara até ali? Como sobrevivera daquele jeito por tantos e tantos anos? Ainda que não soubesse sua idade, havia a estranha sensação de que os caminhos foram sempre tortos, esburacados e longos. E perguntava-se para que tudo aquilo. Para quê?

Enquanto imergia naquele oceano de indagações, um garoto, segurando a bola de futebol e o sonho furados, veio em sua direção e lhe perguntou se poderia devolver o livro que pegara emprestado há tantos anos. Acordou, pois, naquele dia, pela segunda vez. Retirou uma edição gasta de “O Capital” do bolso do paletó.

– Perdoe-me pela demora, cavalheiro. Li e reli esse livro em suas mais profundas nuances, mas hoje sei que Marx não me serve de álibi, disse ao garoto ao mesmo tempo em que uma lágrima escorria vagarosamente o seu rosto triste.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 18/12/2008.

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