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Quando as pernas começaram a doer, percebeu que já não era o mesmo de outros tempos. Deu consigo mesmo diante do espelho; a barba já se ia grande. Ainda que alguns traços lhe recordassem certas memórias, não se reconheceu de imediato. Caminhou até a sacada coberta de neve (era dezembro no Norte) e contemplou o mundo, como fazia todas as manhãs. E até mesmo o mundo estava mudado.

Que teimosa essa história que não pára!, pensou enquanto coçava a barba branca com a mão direita. Não pôde conter uma pequena lágrima que saltava dos olhos azuis contra sua vontade. Era uma lágrima de 2008 anos, datada desde aquele dia no qual os três magos vieram ter com os pais do recém nascido mais famoso da Galiléia. Mas era também uma lágrima ambígua: sabores e dissabores destes muitos e muitos anos.

Já estavam nos livros os tempos dos imperadores do mundo, aqueles que do centro de Roma pensavam ter toda a antiguidade ao seu alcance. Aqueles dias medievos, de cavaleiros e príncipes, também tornaram-se tão demodè. E que dizer da industrialização do mundo, dividindo ainda mais as classes que, um outro barbudo nascido na Alemanha, dizia existir desde que os humanos pisaram neste planeta?

Mas o que mais lhe tirava as noites de sono eram as lembranças daquele último século. Duas grandes guerras que atravessaram o Atlântico; aproximações poucas e demasiados recuos do Ocidente para com o Oriente (ou vice-versa); uma guerra que não saiu das intenções e, mesmo assim, assustou a todos. Tantas mudanças ou – neologismo indispensável – “mundanças” que deixaram marcas tão díspares quanto um muro de concreto separando uma cidade em dois universos ou uma simples ponte de ferro que uniu a pequena Ilha de Santa Catarina com o continente. Fora um século de construções, tempos em que o bicho inventor (nas palavras de Monteiro Lobato) mostrou a sua face mais bela e, ao mesmo tempo, mais vil.

Será que ainda tem espaço para mim neste mundo?, indagou-se Noel enquanto vestia suas roupas vermelhas. Sem obter resposta, deixou a dor nas pernas de lado e caminhou na direção do trenó que lhe aguardava ao lado da sua casa. Quase ao sair, deu alguns passos para trás. Já ia esquecendo o gorro vermelho que, assim como a sua barba, as crianças insistiam em puxar.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 24 e 25/12/2008.

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