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I

Ela acabara de sair do banho. O frescor invadia o quarto. Ele deixou o livro de lado.

– Esse cheiro.

– Que foi?

– Lembra-me…

– Uma mulher?

– Sim?

– E essa mulher não seria eu mesma? Afinal, uso este perfume todas as noites.

Mas havia algo de diferente. Ele podia jurar que havia alguma coisa errada.

– Mona Lisa, ele disse.

– Como?

– Lembra-me o cheiro da Mona Lisa!

A mulher não entendeu nada. Tudo bem que seu marido era um curador e conhecia museus do mundo inteiro. No entanto, por que o olfato lhe dizia agora que sua mulher possuía o cheiro de um quadro pintado há mais de 500 anos? Apagou a luz e quando estava quase dormindo, ele confessou:

– Ainda te amo, mas eu tenho outra. Ela se chama Mona Lisa e…

Morreu. Deixou uma herança para cada, mas a sua mulher queimara todos os indícios para que a outra jamais soubesse daquilo. Estava até querendo ir ao Louvre: tinha de eliminar todas as pistas.

II

Inicialmente, pintara a mulher nua. Os cabelos morenos escorridos cobrindo-lhe os seios. Considerava-a uma amiga como poucas. Na verdade, era a mais especial delas, ainda que não soubesse muito bem o porquê. Cortesã, não era bem vista aos olhos da sociedade. A Itália, mais do que qualquer outra nação, sempre levou aos extremos a dualidade amor/prazer. Amava-se de dia, gozava-se de noite. Novamente, voltou suas atenções para a mulher e pediu-lhe a opinião quanto a deixá-la nua e manter o quadro sob sigilo ou dar-lhe vestes e tornar público aquele sorriso indecifrável.

– Achava que os grandes mestres jamais caíam em dúvidas.

– O artista que não duvida, consegue pouco, cara mia.

E pintou as vestes sobre o corpo desnudo naquela que seria a última vez em que a veria. Os outros e o mundo a lembrariam ad eternum pelo seu rosto. Ele, porém, guardaria o seu suave cheiro. Nas outras ocasiões, sempre a tratara por Madame. Daquela vez, no entanto, perguntara seu nome. E, de novo, aquele sorriso em seu rosto ao responder-lhe.

– Meu amigo Leonardo, eu já tive muitos nomes, mas se você quiser pode me chamar de Mona Lisa.

III

Em verdade, não há provas de que I e II tenham quaisquer relações.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 29/01/2009.

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