Tags

, , , ,


Aos turistas, a cidade dos monumentos, das praias agitadas, da praça XV de Novembro, da Ponte Hercílio Luz (um dia, quem sabe). A nós, nativos, moradores ou trabalhadores, visitantes diários e filhos adotivos desta cidade, as nuanças de uma Ilha sempre a ser redescoberta. Em praças escondidas, em becos de consumo ligeiro, em travessas e vilas convidativas à admiração encontram-se os momentos de um deleite urbano, como quem diz “hummm” após a refeição.

Lugar de rápida travessia (e não por acaso seu nome é praticamente uma derivação disto), a Travessa Ratclif no centro da Capital é um desses lugares simbólicos pela pequenez de seus metros, mas de enormes insinuações sociais no seio da urbe. Como não se assanhar com a beleza destes dias em que as horas voam ao som das conversas filosóficas de botequim? Então, alguém aparece com um violão, uma pasta de elástico repleta de músicas antigas – Nelson Gonçalves, Adoniran Barbosa – e a boêmia está feita. Manda avisar lá em casa que não me esperem para dormir, outro diz enrolando uma ou duas palavras. Sem pressa, a senhorita com olhos de tigresa, percebe sua presa municiada de uma simpatia inata e de alguns trocados necessários para comprar seus brincos, anéis e pulseiras de fabricação caseira.

E há os eventos culturais, gente que se diverte quando pensa nas artes de forma atenciosa, diferente destas políticas de ocasião mal geridas por governos passageiros. Em certa medida, à cultura caberia a mesma atenção do turismo – porque lucro não é somente bens materiais. E aquela travessa, esquecida numa paradoxal frequência cotidiana, é um sintoma de que essas grandes ideias de pequenos grupos, como as agitações culturais, não podem ser caladas com leis ou proibições infantis que, por vezes, já tentaram inutilizar a rua para as coisas mais divertidas da vida. Contação de histórias, varais literários, música ao vivo, projeção de filmes: há um ilimitado número de possibilidades que não permitem o esfacelamento dessa urbanidade presente em todos nós, citadinos que só conhecem o campo nas viagens do fim do mês.

Que mundo é esse escondido nas Travessas da cidade?, pergunta o filósofo de botequim, enquanto pede a saideira.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 05/02/2009.

Anúncios