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As letras, as palavras, as ideias estão aí. O que fazemos com elas e a forma que utilizamos é que as tornam interessantes, tais quais as obras de William Shakespeare. Se a própria convenção admite que o Renascimento surge para “resgatar” valores da Greco-Romanos, temos de supor que os argumentos de ambos os momentos são os mesmos ou muito próximos uns dos outros.

Com Shakespeare, que Harold Bloom afirma ter inventado o “humano”, não ocorre de forma diferente. O dramaturgo inglês lia as Metamorfoses de Ovídio, além do poeta Petrarca (vide Mercucio em Romeu & Julieta: “Ro sem meu tem rosto de arenque seco. Ah, carne, carne, estás peixificada. Vai deslizar em versos de Petrarca”. Escrevera sobre os Romanos, como nos é visível em Antônio & Cleópatra e os Gregos, notório em “Sonho de uma noite de verão”. E também situara suas tramas sobre as cidades italianas de Verona e Veneza (Otelo). Resumindo, sua cultura era ampla, chegando até mesmo a flertar com o Novo Mundo em Noite de Reis.

Aos que acusam-no de plágio, convém rebater que isso é no mínimo um anacronismo, posto que essa ideia de “copyright” é muito posterior aos tempos de Shakespeare. Romeu & Julieta teve alguma ou grande influência nos textos greco-romanos. Principalmente no que concerne à noção de destino. Em vários momentos da peça, as personagens têm maus presságios, ainda que tenham vaga esperança que tudo acabará bem.

A Tragédia dos Amantes de Verona, porém, fora escrita anos antes do bardo, contendo as mesmas personagens e a mesma trama, com pequenas alterações. Romeu & Julieta talvez seja a “adaptação” mais descarada que Shakespeare fez de um outro texto. Ainda que não se saiba exatamente qual a história lida pelo bardo, anteriormente já existiam versões de Luigi da Porto (Amanti Veronesi) e Matteo Bandelo com o seu Romeu & Julieta em prosa. Até mesmo os nomes das duas famílias rivais já eram conhecidos literariamente muito antes da tragédia shakespeareana.

Evidentemente que o gênio do inglês de Stratford não deixou por menos e transformou seu texto numa desconcertante obra de arte, misturando trechos rimados e prosa poética. Shakespeare também concentrou a ação em poucos dias, para que o amor desmedido dos jovens de Verona fosse ainda mais intenso.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 12/02/2009.

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