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A história é simples: típica conversa debar. Antônio, camisa listrada de mangas compridas, 32 anos, pediu uma cervejapreta. Era inverno. Luana, nome escolhido pela mãe devido ao nascimento em Luacheia, óculos escuros mesmo de noite, sentou ao seu lado e pediu uma soda.Naquele bar de Copacabana, a música era tocada pelo próprio Tom Jobim, anosantes de ser maestro. Mas quem iniciou o papo foi outro Antônio.

Antônio: Tudo bem?

Luana: Oi. Eu já te vi antes por aqui… Lembro que achei curioso o seu jeito.

Antônio: É? E chegamos a nos falar? Bem, é que faz muito tempo que não venho aqui, meses, aí não lembro… És de onde?

Luana: Moro no morro. Entre a zona norte e a zona sul. Como que no meio do Novo Mundo.

Antônio: Eu moro em Ipanema, mas fico a maior parte do tempo no Leblon, num flat que tenho ali. Chamo o local de Mansão Machado de Assis, 137. O escritor, sabe Luana?

Luana: Antônio, como sabes meu nome?

Antônio: Da mesma forma que és ciente de como me chamam. Você mesma disse que já nos vimos… É aquele ditado: “Quem só vê cara, às vezes, fica na solidão”.

Luana: A solidão é para os loucos. Ou para os que nada sabem da experiência.

Antônio: Se somos um único mistério, eu te aceito como parte de mim.

Luana: Entendo. Vejamos os fatos antes de mais nada, diz-nos a filosofia da vida. “Paciência, Iracema, paciência”, cantavam nalgum samba antigo.

Antônio: A frase a qual me ludibriei em dizer assim que sentou ao meu lado foi: “Vamos sair deste lugar abafado e conhecer a natureza do mundo”?

Luana: E eu diria não, como já o fiz para outros com melhor conversa. Diria não porque tudo tem um fim, mesmo o amor.

Antônio: Se tenho o direito de encerrar essa conversa, quero deixar em teus olhos uma simples mensagem: tudo o que eu queria de você, não poderias me dar jamais! Pudera eu ter em minhas mãos o segredo dessa caixa de Pandora, pois que a culpa primeira, e a primazia de tudo, do fogo, devemos aos atos loucos dePrometeu. Boa noite e adeus, Luana. Leva o que sobrou do meu amor contigo!

E nunca mais se encontraram. Ou se encontraram, mas sempre viravam o rosto para que não precisassem enfrentar a crueza do mundo e a certeza de não saber absolutamente nada sobre as sem razões do amor.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 19/02/2009.

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