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Corações acelerados em dias de amor e armas ou as intimidades do público e do privado nos tempos de agitações sócio-políticas sempre marcaram os livros e, em alguns casos, boletins de ocorrência de nossa cidade à beira mar. Sejamos mandatários da coisa pública, sejamos meros espectadores de nossa época: um mundo vasto se esconde nas intersecções dos espaços do povo e povoados de gente.

De uma casa qualquer, norte ou sul da Ilha, uma conversa se transforma em fato nalguns poucos minutos – telefone sem fio ou maldade –, ideia de ação agregando a vontade daqueles que não dormem ao acaso. Outrora, quando o museu Cruz e Sousa ainda não atendia por esse nome, a edificação recebia os despachos diários dos governadores (isso, até a primeira metade da década 1980). Que há naquela construção que a difere das demais? Não o material usado em sua estrutura básica, aquele que deixa firme suas paredes e sustenta seus andares. Dentro, evidentemente, há mais luxo que noutras casas, mesmo na região central. Um chão de madeira montado peça por peça, várias camadas de pintura e, principalmente, a memória de tudo o que se lhe apresenta como bem imaterial. Era ali que os rumos do Estado eram decididos; seus moradores, porém, eram como todos os outros, feitos de sangue e sensibilidades – uns mais, outros menos.

Mesma intenção dramática reside na Catedral Metropolitana, berço da segunda colonização desta cidade – a primeira, evidentemente, deu-se com os índios. Munidos de fé ou não, é inegável a presença moral de suas linhas antigas numa região cada vez mais moderna. E ali também se confundem os sentimentos pessoais de homens e mulheres que por lá passaram; uns pedem por ajuda, outros saem casados, alguns entram apenas para meditar. Além de tudo, é em seu Largo que a cidade ainda se enxerga humilde, com a feira popular nas quartas e sextas-feiras, o gingado da capoeira aos sábados, os protestos e anúncios dos alto-falantes sem horário marcado. Democracia dividindo espaço com a religião.

A grande aventura humana é qualquer coisa deste pseudo-conflito entre o público e o privado, com seus heróis e gente comum morando lado a lado, não sabendo quem é quem.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 05/03/2009.

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