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Era tal e qual um café da manhã. Sentava-se no balaústre à cabeceira da ponte. Mirava a estrutura de aço, sentia o leve frêmito das árvores que se agitavam ante o vento sul. E desenhava o que lhe ocorresse. Tratava-se tão somente de fixar no papel o que a ponta do lápis sugeria, quase como se aquele pequeno pedaço de madeira indicasse o caminho a seguir por entre as curvas da imagem que se formava.

Àquela hora da manhã, os carros ainda eram poucos; mesmo assim, gostava de ouvir o ronco dos motores que lhe avivava a idéia de que morava numa metrópole. Quando criança, a lúgubre vida no campo deixara marcas inefáveis em seus sentimentos pueris. Os sinais do passado sempre estariam presentes, enquanto o futuro lhe abriria as portas necessárias para abandonar parte de si mesmo. E assim o fez.

Naquele dia, esquecera a garrafa térmica que sempre trazia consigo. Era a primeira vez que lhe acontecia tal circunstância. O aroma do café era tão imprescindível quanto a paisagem que se lhe apresentava. Pegara o hábito da bebida com a esposa que outrora lhe deixara para ter com os anjos. E os dias só não eram vazios por causa dos desenhos. Desde criança uma vontade natural de colocar imagens no papel. Apenas imagens. Tentara escrever uma ou duas vezes; perdia a vontade tão logo começava.

E, sem a garrafa de café, teve uma idéia que co-habitava em seu inconsciente há anos, mesmo que não soubesse.

Voltou para seu apartamento no mesmo instante. Os passos numa cadência agitada. Em outros tempos, um cavaleiro frenético extraindo a força plena de seu cavalo para chegar ao castelo e proteger sua Rainha. No baralho, o Ás de espadas sob a manga. Tinha um trunfo para com a vida e apenas agora se dera conta disso. Os pulmões no auge da atividade. O hotel não ficava longe. Subiu e, da janela, avistou o local em que sentara todas as manhãs do último ano de sua vida. Era o mesmo lugar onde conhecera sua mulher.

Sentou na velha cadeira de palha e desenhou o primeiro encontro com sua amada imortal. Estavam lado a lado novamente. E viveu o resto de suas manhãs naquele mundo de sonho que desenhara. Como poderia saber a diferença entre o real e o imaginado se estava absorto em felicidade?

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 12/03/2009.

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