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Tenho certa simpatia para com os derrotados, Que fique claro, pois, que não se trata de um sentimento de pena ou qualquer coisa do gênero. Pelo contrário, penso nas suas qualidades que transpiram e naquelas que transparecem nos momentos pós-derrota: a reconstrução tijolo por tijolo.

Quando da determinação de Floriano Peixoto em pôr fim nos revoltosos catarinenses sob a vista grossa das frágeis edificações histórico-militares da Ilha de Anhatomirim, o mundo se acabou feito Fênix para aqueles familiares que perderam os seus. Mas é próprio da ave mitológica ressurgir das cinzas. Evidentemente, os derrotados em questão ainda tiveram de amargar a mudança de nome da então Desterro para Florianópolis – uma equivocada homenagem ao marechal mão de ferro. Mesmo que a cidade tenha sido turisticamente batizada de Floripa, as marcas do passado não se apagam feito mágica, quer seja de magos que visitam a cidade em eventos internacionais, quer seja das travessas bruxas nativas de Franklin Cascaes. O que fica sempre é a antítese daquilo que se sonhara.

Há que se diferenciar derrotados de perdedores. Numa guerra perdida que jamais teve aprovação popular, apenas as lideranças terminam como perdedores. Todos os demais são derrotados, gente comum que se deve querer bem e que, não por acaso, também deseja o mesmo a outrem. Situação não tão extrema quanto uma guerra, alguns eventos de família padecem do mesmo mal quando as diferenças individuais se exaltam muito mais que o necessário. É um caminho sem volta; laços que nunca se quebram totalmente em virtude do DNA, mas que se tornam frágeis qual cristal. Nem mesmo o almoço do fim de semana é capaz de dar vazão aos sentimentos negativos que hão de permanecer no ar. O inferno dos derrotados são os outros.

Que se aprende na derrota é sabido por todos nós. É da natureza social humana tentar para acertar; cair e levantar. Entrementes, a sabedoria de vitoriosos e vencidos é a mesma quando se quer uma mente aberta, disposta a ser feliz na hora certa e franzir o rosto com seriedade quando necessário. A vitória da derrota é enxergar o novo com os olhos de uma criança; tornar visível o que até então era apenas sentimento. São esses os derrotados por quem tenho minha dose de simpatia.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 19/03/2009.

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