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A intimidade é um mal necessário, mas não precisava ser assim. Fato que me intriga, provoca uma ligeira desconfiança e, sobretudo, muita certeza de que somos demasiado humanos, são os nossos relacionamentos para com as maravilhas do mundo. E não fico cá apenas no elenco ímpar das sete maravilhas do mundo antigo (tampouco das sete atuais, dentre as quais figura o Cristo carioca). Pelo contrário, o mundo maravilhoso, como naquela canção do Louis Armstrong, está por aí, numa esquina qualquer da Felipe Schmidt, numa casinha açoriana do Sul da Ilha, no aço que liga a cidade em forma de ponte.

O admirar cotidiano, surpresa da previsibilidade, tende a se confundir com a intimidade que se mostra inevitável. Como aquele dono de camelos que leva os turistas para um passeio nos arredores das pirâmides milenares e diz: – Lá estão as Pirâmides de Gizé, como sempre. E não o culpemos pela falta de entusiasmo, posto que toda vizinhança, em alguns momentos, sempre incomoda. Como um pescador que olha o horizonte azul das ondas e vê, principalmente, a sua fonte de renda. Ou, ainda, como uma rendeira que faz seu trançado na Lagoa da Conceição sob o olhar admirado do turista, mas tem consigo apenas a certeza de uma tradição que se perde aos poucos, feito uma nuvem que passa sem trazer sombra num dia de calor. As mãos calejadas contam uma história que, dentro de alguns anos, existirá apenas nos livros.

A descoberta possui um prazer próprio, de valor que não se consegue calcular, de amor que se quer imediato, cheio de romantismo ou poesia. Aqueles que se maravilham com o quintal dos outros têm as suas vantagens; a grama mais verde não é necessariamente a do vizinho, mas ali sempre existe algo diferente. Poucos percebem que são nas pequenas diferenças que nos encontramos como iguais, o que deveria nos aproximar ainda mais. Nem festas, nem filmes, nem peças, nem políticas: são as pessoas e as suas construções que criaram o verbo maravilhar, sinal dos prazeres que encontramos, vez por outra, em todo o mundo e, cotidianamente, na cidade.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 26/03/2009.

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