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Em outras conversas, dessas sem compromisso, tergiversantes sobre as questões centrais da sociedade, deparamo-nos com as idéias mais incomuns, prosas que fazem rir ou chorar, desabafos sinceros em forma de medo. Ninguém sabe ser feliz sozinho, mas a maioria quer compartilhar suas tristezas para com a cidade. E, assim, estão colocadas as peças de xadrez no tabuleiro urbano, como se ainda as pessoas estivessem comprometidas ora com “Ave, César” (pão e circo), ora com “Ave, Maria” (fé cega e extra-terrena). De um ou de outro modo, uma cidade paralela é sonhada e projetada diariamente, num à parte qual solilóquio teatral; conversas com os próprios botões sobre interesses pessoais e de partidos (políticos ou não).

Na Ilha de Santa Catarina, essa criatura terrestre de recortes vários e formas sinuosas, um pescador pode ter de se afastar ainda mais do mar, dependendo dos aterros que, vez por outra, costumam descaracterizar a cidade. É como se a sustentabilidade fosse uma mera expressão política, feito tantas outras que ilustram demagogicamente os discursos de nossos representantes (?) nos três poderes. Qual a representatividade de um governo que não ouve aos seus, de um pai que não dá o braço a torcer quando o filho está certo, de um sistema mutante que se reinventa para permanecer sempre o mesmo? A cidade paralela, ocasionalmente, ganha um sentido de realização por vias tortas, sejam estas de concreto ou conceituais. Versos e valas com um fim não justificado pelo meio.

Quiçá exista em progresso um movimento urbano-sentimental que apeteça os corações erguidos com argamassa extraforte. Não há mais lugar para estas sem razões que desfiguram a cidade, um pouco por falta de espaço físico mesmo, outro tanto por ausência de uma sensibilidade mais apurada. Se a Ilha não possui uma regularidade em suas configurações geográficas e geológicas, convém encarar tal situação como um desafio da natureza. Eis o momento de deixar a pequenez humana de lado, posicionando-nos como gigantes tanto na cidade paralela quanto na cidade que está ao nosso alcance.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 16/04/2009.

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