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As praias aceitam as mudanças de estação porque não lhes restam outras opções. O mundo natural é feito de alterações, coisas típicas de um planeta que gira ao redor do astro rei e sobre seu próprio eixo. Esse tempo humano que inventamos algures é um reflexo do universo palpável, um sonho estranho que não tem por onde vazar, salvo através da mente humana e, por que não?, urbana.

Como filhos da cidade móvel, navegamos pelo cosmos na companhia do frio, agora que a estação assumiu certas facetas do outono. Os dias quentes, pelo menos em sua essência, ficaram para trás, noutra estação que agora jaz. A Ilha desperta com seus cobertores recém tirados do armário. Comprimidos anti-gripe estão à vista, remédios de situação para amenizar dores de garganta, febres chatas e outros desvios de saúde. Somos máquinas adaptáveis que exigem certos cuidados; engrenagens delicadas e cientes de suas complicações existenciais. Na Ilha, nos portamos qual aprendizes de simbiontes, procurando vantagens tanto para nós quanto para nosso imenso lar cercado pelo Atlântico.

O que vem com a nova estação não é só aquilo que se sente na pele, como quando os pêlos se eriçam num arrepio de filme de suspense. Mais que as sensações substantivas, são aquelas que qualificamos em estados de espírito, numa zona cerebral indefinida e misteriosa. Mesmo os fazeres cotidianos se escondem no concreto da cidade, tanto em bairros tipicamente residenciais, como Santa Mônica, Itacorubi, Saco dos Limões, quanto em regiões de trânsito (humano e veicular) constante, como o Centro, a Trindade ou a Lagoa da Conceição. Viver o frio na Ilha é curtir um ritmo próprio, qualquer coisa que lembre uma chuva no final do longo feriado, um pouco de paz que pinta cores gris no céu e nas faces das pessoas. Se os dias quentes são explícitos, os dias frios são misteriosos.

Prazer invernal não tão divulgado pelos órgãos turísticos, o caminhar na praia sob o vento frio requer uma boa dose de sintonia entre as vestimentas que aquecem o corpo e as ideias que agitam o nosso interior. E, assim, também aceitamos o revezamento das estações, porque sempre estaremos em boa companhia se tudo o mais se der nesta Ilha.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 23/04/2009.

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