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E se fosse possível transferir as grandes cenas de cinema para os cenários dessa Ilha, que diriam seus protagonistas de tal mudança? Ficariam eles chateados em contracenar rodeados pelo mar? Reclamariam da dureza gelada do vento sul naqueles dias em que a natureza gosta de se exibir? Ou, quiçá, deliciar-se-iam com o ir-e-vir das ondas, o vaivém dos carros e ônibus, o diz-que-me-diz de herança açoriana?

Fácil é imaginar um diretor conceituado guiando os passos e falas de sua atrizes, das mais sensíveis e delicadas como Audrey Hepburn ou Vivian Leigh, passando pelas elegantes Ingrid Bergman e Sophia Loren, chegando nos vulcões de feminilidade feito Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor. Todas poderiam dourar seus corpos nas praias de norte e sul. A Joaquina, com seu mar agitado e suas águas frias, possibilitaria um deslumbrante plano geral em Technicolor, e Scarlett O’Hara juraria que jamais passaria fome tenda a benção do Oceano Atlântico, enquanto apertava nas mãos a areia branca que o ventou ainda não tinha levado. Ilsa Lund, com seu olhar apaixonado, deixaria o aeroporto Hercílio Luz, como se estivesse em Casablanca – e todo o seu passado ficaria na Ilha, a cidade que abrigava o Rick’s Café Américain. E a saia da garota interpretada pela “blonde” Marilyn Monroe esvoaçaria ali mesmo nos arredores da praça XV de Novembro, numa tentativa pouco eficaz de ocultar suas roupas de baixo.

Mas que dizer então dos atores? Bastaria uma dica ou outra de um cineasta como Billy Wilder, Michael Curtiz ou John Ford para reinventar os clássicos da Sétima Arte numa espécie de Hollywood tupiniquim. O xerife aposentado Will Kane, disposto a matar ou morrer, transformaria o sul da Ilha no Oeste de outrora e bang-bang! E para Don Lockwood, personagem de Gene Kelly em Cantando na Chuva, não existiria tempo ruim para sair dançando pelo Largo da Alfândega, feliz por estar nesse pedacinho de terra.

E, assim, com tantos astros e estrelas desfilando por aqui, ninguém mais deixaria de ir ao cinema, mesmo que tivesse de enfrentar uma enorme fila dentro de um shopping center para isso.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 07/05/2009.

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