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Se chove, o local fica cheio de gente. Se não chove, também. Se é véspera de Carnaval, todos se encontram por ali. Se não é natal, dá-se o mesmo. Porque aquelas paredes em tons amarelados são uma parte da cidade na qual as épocas se confundem, feito passado e presente num só dia, feito netos e avós conversando sobre as mesmas coisas, de igual para igual, respeitando as diferenças. O Mercado Público de Florianópolis é mais um desses paradoxos contemporâneos: lugar fixo e absoluto, frequentado por cidadãos de passagem em busca de necessidades e prazeres efêmeros.

Entre as alas, o vão central é sempre musical, mesmo quando não há nenhum músico ou cantor em atividade. Aquela música urbana por companhia feita por tudo e todos. Batidas ritmadas de sapatos e tamancos que levam corações mais ou menos experientes. Uma síncope inesperada de vendedores de loterias ou de pipoca. Convites (ou intimações) dos lojistas como versos de um poema repetido indefinidamente – Pronto, moço? Tarefa praticamente impossível (e é fácil conferir): passar olhando os produtos à venda sem que algum vendedor faça tal pergunta. Eis o som do Mercado: mistura fina de ritmos vários.

Que dizer, então, do cheiro de peixe íntimo da ala sul? O mar, que banhava o local em outros tempos, tornou-se um vizinho distante. Mesmo assim, os frutos do oceano continuam em exposição nos balcões de vidro, como uma oferenda aos populares – aos deuses, convém admirar suas criações se esbaldando com tainhas, camarões e ostras. O bicho homem, sempre a alterar a natureza, também altera a si mesmo quando deixa as compras (gastronômicas ou não) de lado e finca âncora num dos muitos bares que fazem a fama do Mercado Público. Puxar o banquinho, descansar o corpo e pedir um chopp em plena região central faz parte de uma tradição inventada, missão de turista e integração social – uma rede urbana, com uma porção de marisco e outra de batata frita.

Não existe Mercado sem histórias, assim como não existe romance sem palavras. Ilhéus ou não, artistas e anônimos, ricos e aqueles que compram fiado: estas são as personagens desta trama diária, armada sob sol ou chuva, aquarelando a paisagem da Ilha a partir do amarelo de suas paredes.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 21/05/2009.

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