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Um céu rosado baixou sobre as duas baías sem que ninguém identificasse o responsável por aquele efeito especial, digno das produções virtuais mais elaboradas, ausente de ficção nas vivas cores da natureza. Porque o mundo é feito de átomos e aquarelas, moléculas e matizes, sombras e saudades.

Por entre as nuvens, furando o algodão doce, desceu um gigante alado, sorrindo para a multidão que se aglomerava às margens das baías. Ele apoiou os pés cuidadosamente entre as pontes Hercílio Luz e Colombo Salles. As sandálias rústicas, da dimensão de dois automóveis cada, traziam consigo um brilho azul festivo qual bandeirinha de festa junina. O vento sul, típico da estação, cedeu lugar a uma brisa suave que se espalhou do centro para as extremidades da Ilha e cobriu toda a superfície terrestre. O anjo colossal começou a falar e todos se calaram.

– Vim para fazer uma visita rápida. Quero saber como vocês estão se virando.

E não foi preciso que qualquer pessoa falasse em voz alta. Todas as respostas partiram diretamente dos corações humanos para o estranho visitante. Da Ilha, emoções vazaram junto com preocupações essenciais. Todos estavam ansiosos pelo futuro, receosos pelo conceito atual da palavra “progresso”, temendo as mudanças como é típico a todos que gostam daquilo que possuem, ‘inda que ninguém seja dono de coisa alguma.

– Vocês perguntam: Que vai ser de tudo isso?, disse o anjo.

E aquela era a dúvida primeira, a conversa passageira, o papo filosófico da academia e do botequim. Florianópolis deixou de ser lugar da natureza para se transformar em campo de batalha (social, política…); a alternância de mandos e desmandos recortou as características dessa cidade e, de certa maneira, colou-as totalmente regurgitadas em seus muitos aterros.

Quando o anjo dava sinal de subir aos céus, uma criança ousou perguntar se ele voltaria amanhã. E, mais uma vez, o anjo sorriu. Agora, porém, demonstrara certa surpresa. Afinal, sua chegada não fora programada e nem significava uma alteração da ordem. O livre arbítrio ainda estava valendo e todos continuavam condenados à liberdade.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 04/06/2009.

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