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À terra fria do Velho Continente, o navegador dedicou alguns versos no vergastado caderno de anotações pessoais. Só lhe sobrou da terra natal a ausência mais íntima, a falta dos dias idos, a saudade dos tempos antigos marcada com facas em árvores milenares: iniciais de dois nomes que se eternizaram um no outro enquanto a relação durou. Saudade, palavra tão portuguesa quanto sua pátria natal, agora era companheira de viagem, navegando as escuras águas do Atlântico chuvoso.

Quando do término da longa temporada em mar aberto, o navegador avistou o recorte de um continente no qual se destacava uma pequena Ilha que se agigantava à medida que a distância encurtava. Os marinheiros de primeira viagem que o acompanhavam desceram primeiro, abrindo caminho para o navegador experiente. E assim, o português pisou na terra chã, colocando o nariz ao rés do chão para que os novos odores se lhe tornassem familiares. Quando deu-se por satisfeito, levantou num gesto brusco e fincou a bandeira de seu novo império.

O navegador se fez Imperador tão logo o dia começou a anoitecer. Alguns moradores da região que sofriam com um blecaute temporário (apagão de ocasião) foram ter com a tripulação à luz da pomboca. E quem é este náufrago às avessas que chega despido de ideias democráticas?, era a pergunta que não queria calar entre os nativos. Mas com algum discurso funcional, conversa cartesiana que convence através da lógica, o Imperador logo assumiu um papel de liderança efetiva, mas pouco afetiva, porque aqueles acostumados com o gelado inverno não apreciam o efervescente inferno.

E, nessa história alternativa, adivinhem o que se sucedeu? O mesmo, pois. Aterraram tudo, pintaram a cidade com o cinza dos concretos, poluíram as baías e os córregos grandes ou pequenos, tumultuaram a santíssima trindade que se avizinhara do maior mangue urbano do mundo, destruíram a história com implosões e demolições, desmataram a vegetação que se propagara por séculos e séculos. Em qualquer versão da história, na Ilha ou no Continente, a humanidade parece ter cedido à tentação de não ser salva. E o Imperador gargalhou pouco antes de se transformar em abóbora.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 18/06/2009.

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