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Na vida de Henrique, dois acontecimentos aparentemente distintos tiveram grande importância numa mesma sexta-feira. O primeiro foi de manhã, mais precisamente no intervalo do curso pré-vestibular. Alice, sua namorada, foi ter com ele assim que ambos saíram da sala de aula. O rosto da jovem era tal e qual o dos notívagos que se distraem com qualquer filme bobo nas altas horas televisivas. Direta, disse-lhe que estava grávida de dois meses. Ontem fizera o teste ao lado da melhor amiga. E repetiram mais duas vezes apenas para se assegurar do resultado. Sua gravidez era tão certa quanto um estar de frente para o outro naquele momento, confirmou para o já nervoso Henrique. Quando o último sinal se fez ouvir, o estudante caminhou lentamente os cinco quarteirões que separavam sua casa da escola. A mãe estava ausente por qualquer motivo; o pai era separado e morava numa cidade vizinha. Quando deu por si, folheava uma revista de viagens. “Viaje sem fim” ou algo do tipo. Uma manchete em especial desencadeara o segundo acontecimento importante do dia. “Viena, uma cidade para conhecer a dois”. Não soube se começara a ler a matéria por distração ou pela mulher na foto da capa que lembrava o jeito de olhar da Alice. Então percebeu que ali poderia estar a solução para o difícil momento em que se encontrava. A decisão já estava tomada, mas precisava se certificar que seu pai o ajudaria porque, afinal, ainda não atingira a maioridade. Guardou a revista na mochila escolar e partiu de ônibus em busca do aval do paterno. Cruzou a ponte sobre as baías que avizinhavam a cidade imaginando-se nalguma embarcação antiga. Atravessava o rio Danúbio, ao som de uma sinfonia de Strauss. Quando chegou ao destino, o pai acabava de estacionar o carro zero que estava com duas prestações atrasadas. Abraçaram-se e o pai lhe perguntou se estava tudo bem. Henrique disse-lhe que mais ou menos, que seria pai em alguns meses, que Viena era uma cidade encantadora, que viajar não estava nos seus planos, mas… O pai levantou a voz, o chamou de irresponsável e que esquecesse aquelas bobagens. Não houve discussão; o pai fora enfático. Henrique voltou para casa pensando na prova do dia seguinte. E o pai suspirou aliviado: a mulher e a filha vienenses que tivera fora do casamento continuariam em segredo.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 25/06/2009.

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