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Josué trazia sempre consigo uma máquina de escrever portátil, presente de sua primeira mulher. Compenetrado de tal modo naquelas teclas, nem reparou quando Suzana chegou ao mesmo bar em que costumava passar suas tardes de palavras datilografadas. Ela estava soberba num vestido longo, com um decote generoso que mostrava seus fartos seios. Cabelos e lábios vermelhos, olhos azuis. Sua aparência exuberante atraía os olhares do dono do bar e de dois jogadores de sinuca, que estavam próximos de Josué.

Sentou-se ao lado de Josué e pegou na sua mão direita. Só então ele notou que Suzana chegara para lhe atrapalhar a concentração.

– Estou nas páginas finais, Suzy.

Faltava pouco para acabar sua narrativa quando Suzana interrompeu-lhe com um gesto. Os olhos surpresos de Josué viraram-se para aquele rosto encantador como se suspeitasse de que algo não estava bem. Não, não seria nada de mais, pensou Josué. Tentara se lembrar de algo que tivesse feito ou dito, mas nada de especial lhe veio à mente.

– Meu marido voltou, Josué. Vou embora com ele nesta tarde.

Marido? Que marido? Suzana nunca comentara nada sobre ser casada, quanto mais que seu marido estava longe. Josué não queria acreditar no que acabara de ouvir. Compreenderia se qualquer pessoa lhe surpreendesse assim, mas nunca sua Suzana. Sua Suzy.

– Mas, mas…

Mas Suzana, resoluta, beijou-lhe suavemente os lábios e deixou o local sob os olhares atônitos de Josué, do dono do bar e dos dois jogadores de sinuca.

A mão parada sobre o teclado, o dedo indicador levantado e nenhuma letra a ser datilografada. Josué ficou calado e estático por alguns minutos até que decidiu se levantar num átimo de desespero. Caminhou para fora do lugar carregando sua máquina de escrever portátil, objeto que já não possuía utilidade alguma. O dono do estabelecimento nem se preocupou em cobrar as despesas de Josué – dois cafés e um cigarro avulso que pedira antes de sair. Mais tarde, sobre a mesa do bar, encontrou os papéis escritos por Josué durante longos meses. Folheou algumas páginas sem ler nada e as guardou em uma gaveta qualquer E assim elas ficaram. Esquecidas, as páginas mais bonitas e emocionantes que alguém já escreveu…

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 02/07/2009.

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