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Agruras mil em desenvolvimento amoroso é condição de poetas tristes, destes que vagam bares em noites úmidas. Imerso em seus próprios versos, este poeta das futuras linhas tem consigo o insucesso das horas vadias. O olhar baixo como um sinal do esquecimento dos momentos alegres. Quando percorre vias sujas da cidade invisível, a dor do amor lhe sangra, feito essas que desatinam sem doer.

A passagem do tempo em câmera lenta é um sintoma do que vai no coração: cenário indicativo de novas linhas poéticas; poesia em prosa como lhe é de praxe; um tanto inspirado pelos heterônimos de Fernando Pessoa, outra parte orientado pelas leituras extasiantes dos mal chamados sonetos de Pablo Neruda. Porque, às vezes, caneta e papel estão ali apenas para incitar novos pensamentos, feito intimação judicial sem a presença de um oficial de justiça. E não há leis uniformes quando os sonhos também se fazem constantes, porque se assemelham aos desejos que vazam do inconsciente.

E assim ele caminha, determinado a não olhar para trás, com medo dos dias idos. Ainda há um estabelecimento aberto, servindo bebidas que confundem corpo e mente para todos aqueles que têm demasiados erros a falar e falar. A garçonete de olhos de ressaca (porque sempre convém citar Machado de Assis) lhe sorriu sem abrir os lábios, munida de cansaço e de muita timidez antiga. Ela volta ao balcão assim que acaba de marcar o pedido, passando as informações para um senhor calvo, de barba hirsuta e cor de palha seca. Os funcionários do bar conhecem a superficialidade da alma humana, porque todas as histórias são de amor.

O poeta retira do bolso um caderno com capa de couro e solicita uma caneta para o caixa. Quando escreve, o mundo se apaga qual fumaça dos cigarros que insistem acesos na madrugada boêmia. E as palavras terminam com a chegada do café, com o poeta satisfeito de seu pequeno investimento literário. A escrita que se esconde em mesas de bares pode ganhar a eternidade ou embrulhar o peixe no dia seguinte. Ao poeta, porém, nada importa, salvo o gosto do café e o prazer de escrever.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 09/07/2009.

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