Tags

,


Tamanho espanto teve o jovem quando sua namorada desistiu da viagem no transatlântico, combinada há tempos. A crise internacional, essa dos imóveis estadunidenses, mexeu com os nervos da garota de tal forma que, nos últimos dias, os namorados mal conversavam. Ela chorava sozinha pelos cantos, escondendo a tristeza urbana tão midiatizada. Mal acabara de pagar as prestações da aventura marítima e logo foi ter com a sua. Sem mais nem menos, a desistência e um beijo de adeus deram fim às ilusões românticas do rapaz. Sozinho, a Europa não teria o mesmo sabor de descoberta. Alguns dias mais tarde, soube que sua ex-namorada andava de caso com um especialista na bolsa de valores. Enganara-se com o local do coração: este ficava nos olhos, não sob o peito.

Os barcos litorâneos sempre chamaram sua atenção, mesmo quando parados. É como um novo desafio que os homens se impõem; odisséia pessoal que alguns carregam no balanço das ondas. O oceano é, pois, a casa primeira, berço das células e das histórias. Homero, tendo sido uma única pessoa ou não, sentia essa necessidade pelo mar na medida em que colocava no papel a narrativa de Ulisses/Odisseu. E o mesmo se dá com a Eneida de Virgílio ou com Os Lusíadas de Camões: navegar continua a ser preciso.

Perguntam vocês se ele chegou a entrar num barco depois do sucedido. E respondo que não era o que mais lhe incomodava. Estava com a cabeça cheia demais, repleta de algumas dezenas de pequenas memórias que só faziam ir e vir, provocando mesmo alguns enjoos. E enquanto todos, inclusive sua ex-namorada, acompanhavam as notícias da última semana, ele estava interessado no formato mínimo daqueles sentimentos que teimam em se revelar. Deixou de lado acidentes aéreos, mortes de personalidades mundiais e outros tantos motivos de conversas especulativas para se dedicar à caminhada das formigas sobre a areia molhada, aos pingos de chuva no bater da sombrinha dividida entre duas amigas adolescentes. E assim se fez feliz naquele momento, eternizando o que é mais cotidiano, singularizando as gentilezas nossas de cada dia.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 23/07/2009.

Anúncios