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Entre uma cerveja e outra, entre uma partida de sinuca e outra, entre um século e outro, os dois amigos conversam como quem faz poesia, discutem quais dois filósofos, e jamais chegam a conclusão alguma feito qualquer um de nós. São moradores da Ilha, destes que invariavelmente misturam a saudade do que foram naquilo que os torna o que são. Amadores de uma cidade, revolucionários na mesa do bar que se encontram, neste momento, investigando o tema da utopia.

– A Utopia de Thomas Morus era o nome de uma ilha, diz o primeiro.

– Ah, então está explicado, confirma misteriosamente o segundo.

Porque para Morus, na ilha de Utopia, a exclusão social seria exterminada através do trabalho, igualando privilégios e implicando uma responsabilidade única para todos. A ideia da Utopia, no entanto, correu mundo muito antes e depois de ser nomeada pelo humanista nascido naquela grande ilha que é a Inglaterra. Morus publicou seu livro em latim no ano de 1516 (uma edição no idioma nativo do autor só apareceria em 1551). Antes disso, gregos e romanos da chamada Idade Antiga formaram um ideário utópico, também tendo como cerne o trabalho dentro da cidade – a polis grega e a civitas latina. Na era dos descobrimentos (ou achamentos), o Novo Mundo era a deixa para a fértil imaginação européia vislumbrar um paraíso perdido, uma utopia desconhecida a servir de exemplo. Mesmo assim, o resultado foi apenas a destruição da cultura americana pré-Cristovão Colombo. Poucos séculos depois, e aqui a data de 1848 é singular com a publicação do Manifesto do Partido Comunista por Marx e Engels, a concepção utópica ganharia ares ainda mais intelectuais, numa interpretação que fazia do socialismo o modelo a ser seguido, baseado na análise histórico-materialista do mundo humano.

– Sempre se discutiu a mesma coisa, disse o primeiro, enquanto enchia o copo de ambos.

– Suponho que sim. Mesmo aqui nesta Ilha, agora mesmo nesta mesa sob algum efeito do álcool, continuamos a sonhar um mundo impossível.

– Impossível? Ora, não me venha com conclusões precipitadas.

– Isso não é precipitação. É puro Woody Allen aplicado ao tema de nossa conversa.

E assim encerraram a conversa. Era preciso começar uma nova partida de sinuca.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 30/07/2009.

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