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Que poesia é essa que se esconde no balanço da garota que passa a caminho da praia, feito uma bossa cada vez mais nova, qual verso sussurrado ao violão sob o sol e sobre o mar? É sintoma do verão, diriam médicos de almas se por ventura existam. Não há maldade no coração dos incorruptíveis, nem deveria existir vaidade no vaivém circular daqueles que desfilam na areia alva, porque lhes convém o sabor da brisa marinha, o gosto do chão quente em pés descalços, a batida nos corações dos que curtem as mais de 40 praias distribuídas neste pedacinho de terra.

Que sorriso maroto investiga olhares adultos na tentativa de compreender o mistério de um Tatuí (ou Tatuíra), o segredo dos buracos úmidos nas areias que se movem, no ir-e-vir intermitente das ondas marinhas, na fascinação fluorescente do plâncton infalível? E por que as águas-vivas causam tamanha dor se não são de morte? Assim, o frescobol pode ficar prejudicado se numa jogada mais arriscada o pé entrar em contato com esta água que não é de beber. Ou mesmo uma invasão de pequenas conchas no lago de um castelo de areia pode determinar o choro de uma criança, impaciente com o ato ou efeito do eterno refazer.

Que sono e sonhos podem se correlacionar numa tarde fagueira, tendo a luz solar e a temperatura alta como sugestões inequívocas? Amantes ou fumantes, jogadores ou jovens amadores, todos devem cumprir o ritual do descanso se assim desejarem. Sábios e tolos hão de aproveitar as sombras das árvores, ensejando o prazer ligeiro dos que dormem feito crianças, com a boca aberta e um leve ressonar por cenário.

O dia e a noite entram no conflito diário ou são nossas expectativas que se dividem ora para um lado, ora para seu reverso? Queixar-se da vida não se lhes apresenta como uma opção, porque os moradores desta Ilha sabem que o amor é a matéria de que são feitos os sonhos. E não há tempo para filosofia barata, nem mesmo para reclamações premeditadas. O espaço da cidade, este local entre o céu e a terra, de loucuras tergiversantes e paixões escrupulosas está aberto durante todo o tempo de mais um verão.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 22/10/2009.

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