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Estrangulada que só ela, a Florianópolis de hoje vive de passado nos corações e mentes daqueles que usufruíram os anos da ainda pacata capital catarinense. Assim, o tempo surge como o vilão mor, porque os dias idos já não são os mesmos. E a frase clichê que afirma o quanto “éramos felizes e não sabíamos” dá conta dos erros que o mal chamado progresso impôs à Ilha e suas adjacências. Afinal, mares e campos, como aquele título do livro de Othon d’Eça, sofreram as alterações humanas que vão desde ao impoluto mar das praias do Norte à invasão de ecossistemas milenares como os manguezais do Itacorubi e Santa Mônica, para ficar em apenas dois exemplos.

Àquelas pessoas que viveram os verões de outrora, convém reviver memórias ou relembrar casos e ocasos como aqueles registrados no livro de Ricardo Medeiros, intitulado “No tempo da sessão das moças” (Insular, 2009). Doutor em rádio e professor de jornalismo, Medeiros fica atento às repercussões. Uma minissaia, uma sessão de cinema ou um baile de gala ocorrido em outros carnavais, principalmente naqueles da década de 1960, são os motivos que levam autor e leitor a olhar para trás com certa saudade, mas mantendo algum encantamento nos processos transitórios, ainda que não sejam necessárias comparações para com o mundo atual.

O que se perdeu física e emocionalmente também são os elementos que compõe esta cidade que não sabe se é ou se um dia será. Dos cinemas de bairro (Ritz, Roxy, São José…), passando pelos jornais (Diário da Tarde, A Gazeta, O Estado…), e chegando às edificações que se foram (Miramar, Hotel La Porta…), a memória urbana se apresenta como uma espécie de fotografia de essência, porque as saudades e as cidades são duas faces daquilo que todos os cidadãos carregam consigo, tendo consciência ou não desta simbiose.

O livro de Ricardo Medeiros também pode ser um indicativo de que essa paixão pelo passado só faz algum sentido se inserida num contexto de discussão prática e de conversação sensível. Em outras palavras, perceber as sociabilidades de uma Florianópolis que só existe nas recordações é um exercício de cidadania, dignificando a existência de mulheres e homens que ainda tem apreço por este pedacinho de terra.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 10/12/2009.

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