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Porque considerava qualquer poesia uma singela união entre a paixão desmedida e o desejo contido, assim a menina escreveu ao Papai Noel. Não fazia ali um típico pedido de criança, destes que ora pendem para uma bicicleta, ora para uma boneca. Pelo contrário, acreditava sinceramente que o Natal era uma época de presentes coletivos, ocasião propícia para deixar de lado o individualismo consumista no qual a data havia se transformado desde que o velho barbudo tomou o lugar do judeu que não foi compreendido e acabou pregado numa cruz. Mas não, não era contra o Papai Noel e, sim, entendia perfeitamente o quão importante era a sincronia entre o sagrado e o profano.

Entrementes, a menina colocou na carta os versos mais belos que uma criança jamais escreveu. Dizia no papel que já não queria mais a destruição de seu mundo e, se o Papai Noel pudesse lhe dar um único presente, que ao menos preservasse todas as árvores da Terra.

Quando o Papai Noel recebeu a carta, não conseguiu evitar um sorriso de tristeza porque, pela primeira vez, uma criança lhe pedia algo que seria muito difícil de entregar. Até mesmo porque a própria carta da menina era feita de papel, e o papel viera de uma árvore que, um dia, protegeu alguém.

O menino não sabia o que dar de presente ao pai naquele Natal que se aproximava. Primeiro, porque não possuía dinheiro para gastar. Segundo, porque para quem não tinha nada, tudo era importante. Como mensurar as necessidades básicas de uma família que vive na rua sob uma árvore? Pai e filho, sozinhos que eram, precisavam muito mais um do outro do que de qualquer outra coisa que o dinheiro pudesse comprar. E foi assim que o menino pensou em presentear ao pai com uma caixinha vazia.

Quando o menino entregou o seu presente, o pai abriu o embrulho cuidadosamente e viu que recebera uma caixa sem nada dentro; o filho lhe explicou que mesmo que o conteúdo não existisse fisicamente, a coisa mais valiosa do mundo para ele era a felicidade de compartilhar os momentos com seu pai. E o pai abraçou o filho com alguma tristeza porque, pela primeira vez, uma criança compreendia que o mundo não era tão justo quanto deveria.

Passado algum tempo, a caixa foi colocada num canto qualquer e o pai começou a utilizá-la como uma espécie de cofre, para guardar as moedas que recebia nas ruas.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 24 e 25/12/2009.

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