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O texto de uma crônica, às vezes, surge de uma piada ou de uma mesada. Às vezes, do nada. Quando surge a inspiração, as palavras caem como se fosse chuva de verão. Surgem e vão. Porque um texto tem autor, mas nunca dono. E se for um conteúdo chato, tão fácil pegar no sono.

De imediato, as palavras podem trazer lembranças, sejam de dias de agruras ou de bonanças. E mal não há em recordar o que já foi. É como voltar ao que fomos e dizer “oi”. Reencontrar a si mesmos para aquém das viagens no tempo. Saber que o que deixamos sujo, hoje se encontra limpo. Um labirinto criativo, constituído através das sinapses, por vezes economiza a narrativa através das memórias que padecem das elipses.

Toda crônica é como o amor: eterna enquanto for. Ainda que, em sendo jornal, possa vir a embrulhar o peixe de amanhã, não há de apagar feito chama vã. Porque, se conversando a gente se entende, é lendo que a gente se compreende. Daí a importância das palavras unidas, emoções e imagens a serem lidas. Uma crônica sem imagem é a imagem de si mesma. Mudança conceitual feito crise religiosa a provocar um grande Cisma.

O poeta traz consigo o orgulho de versos retos; o cronista quer saber de textos espertos. À maneira dos antigos, rabiscamos linhas tortas num papel velho. Ao modo dos modernos, digitamos na linearidade binária do computador espelho. Reflexo do mal chamado progresso ou da tecnologia um réu confesso? Tanto faz, porque à crônica não cabem estigmas. Interessam muito, porém, charadas e enigmas. Revelar o invisível à alma. Aos artistas, presentear com a palma.

Quando o cronista sabe de sua responsabilidade, o mundo deixa de ser apenas um e transforma-se numa infinidade. Todos os corações palpitam no mesmo instante. E cada palavra é uma busca inquietante. Não existe fórmula ou roteiro pronto. A crônica não é risco nem ponto. E mesmo que tenha os dois, o texto só se exibe depois. Forçosamente, o final de tudo deverá ter aprazível gosto. E, por vezes também, a crônica poderá deixar um sorriso no rosto. Seja do autor, seja do leitor.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 07/01/2010.

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