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Talvez estejamos vivendo num vácuo “continuum” desde 1968, já que este é o ano que jamais teve fim. Creio ser praticamente impossível pensar o mundo ocidental e suas criações artísticas desde então sem que sejam levadas em conta as consequências daquele fatídico ano. Não que a zero hora do dia primeiro de janeiro de 1969 o mundo tornou-se despropositado. Nada disso. Mas assim que as décadas posteriores, incluindo os anos 2000-10, deram com a realidade sem maquilagem, tivemos a nítida sensação de que todos os caminhos, impreterivelmente, sugeriam a fatalidade niilista.

Assim, tais sentimentos contemporâneos, como amor, paz e prosperidade, caíram na vala comum das teorias tão ocas quanto complicadas. Do materialismo dialético à teologia da libertação, o homem se encontra na difícil escolha de negar divergências e aceitar passivamente uma estrambólica comunhão entre o sagrado e o profano, entre o divino e o pagão, entre a arte e a ciência. Do que sobra, os aproveitadores de plantão escrevem livros, regurgitando o Humanitismo de Quincas Borba ou aconselhando aos outros tudo aquilo que não conseguiram para si mesmos.

Inserindo o presente na narrativa mundial, fica evidente sua inevitabilidade, posto que é chama. E ao que chamamos destino, vinculam-se os anos dos pós-guerras e todos os questionamentos concomitantes. Daí o cinema de Roberto Rossellini (Alemanha Ano Zero, De Crápula a Herói) imergir no imaginário conceitual daqueles dias imediatamente após-1945. Não existem vilões ou heróis na obra de Rossellini, porque para os cidadãos comuns não importam vitoriosos ou perdedores, e sim a comida do dia seguinte: o que sintetiza o aspecto da sobrevivência. Suas personagens sobrevivem, apesar de… Que importam os motivos, se nada mais faz sentido algum?

O ano de 1968 nos legou a verdade do erro (uma verdade que estava oculta de nós desde o aprofundamento filosófico dos gregos antigos – e seus imitadores romanos). Porque a saída da ignorância para aqueles também era fruto de uma época, de um poder previamente distribuído num conceito ligeiramente básico de Democracia – não muito diferente de hoje, este 1968 que pode ser qualquer ano, até mesmo 2010.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 14/01/2010.

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