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Dos recentes tremores de terra que atingiram o Haiti, sobram questões universais que dizem respeito à urgência de humanidade. Ainda que seja um conceito novo para a raça humana – talvez, coisa de três séculos passados (e o Iluminismo tem aqui sua presença registrada) –, a humanidade, no que diz respeito a intenção de que todo ser tem a mesma origem, exalta uma ferida jamais cicatrizada dentro da espécie. Porque, se nos vemos e reconhecemos, como é capaz de existir diferenças tão grandes como é o caso, por exemplo, do dia-a-dia haitiano?

Tais atitudes de ajuda e pesar que chegam com tragédias deste tipo são distribuídas por praticamente todo o globo através dos meios de comunicação. Assim, cidadãos florianopolitanos – e região – são abastecidos por uma onda de informações parciais, dessas que se importam apenas com a comoção e não focalizam no cerne das desigualdades sociais. E o paradoxo está feito: notícias do todo acabam por individualizar ainda mais este Ocidente competitivo. Ou nas palavras do dramaturgo Nelson Rodrigues: “Amar a humanidade é fácil; difícil é amar o próximo”.

Fosse possível a felicidade por comparação, as pessoas aceitariam as longas horas da cidade, e mesmo a fila nas pontes ao deixar a Ilha seriam oportunamente melhores que a miséria alheia; não existe compensação pelo que deixamos de fazer. Logo, nosso julgamento individual não corresponde à realidade observada nos jornais e pelas janelas dos automóveis. Incongruências à parte, o sentimento para outrem aparece como incômodo contemporâneo, tão atual quanto as psicologias sociais de último século, tão rotineiro como o estresse funcional.

A questão da humanidade ainda não está assimilada por completo. Pequenos gestos simpáticos à causa da igualdade se agitam aqui abaixo da linha do Equador e, mesmo, acolá no que chamam de países desenvolvidos (porque sabem esconder os erros com campanhas publicitárias eficientes feito filmes de Hollywood). E todas as questões que sobram deixam o mundo ainda mais humano, desigualmente humano.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 21/01/2010.

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