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O final de uma história nem sempre vem acompanhado de alguma grande mensagem, revelação ou similaridades do gênero em questão. As questões mal resolvidas, por vezes, soam melhor que uma “moral da história” forçada pelo politicamente correto. Concomitantemente, o sucesso de um orador pressupõe aquela certeza de discurso, quando se demonstra o local em que se quer chegar.

Ouvi algures o triste episódio da moça que permaneceu noiva até o último dos seus dias, sem ter com o noivo e ausente do presente, posto que o sujeito ficou preso à televisão.

Explique-se a cronologia dos acontecimentos: Nasceram numa terça-feira, porém em dias e anos distintos. Ela cresceu brincando nos campos de Lages e ele entrou na adolescência um pouco mimado, é verdade. Adultos, ali pelos vinte e tantos anos, ela chegou em Florianópolis e, coincidência, veio a ser vizinha dele, agora professor de jornalismo mais voltado à área da televisão.

O tempo e uma obra da Prefeitura que cortava ambos os terrenos uniram as personagens naquilo que passou de namoro para noivado em questão de meses. A obra até que ficou mal feita, mas o romance teve sucesso e uma casa foi alugada para facilitar a vida a dois. Quase três, para ser sincero, porque muitas tentativas frustradas impediram o nascimento de um rebento que se chamaria Luisa ou Luis.

Noivos que estavam, marcaram a data do casamento, mas vai daí que algo já estava complicado. Ele empenhara-se muito no trabalho e chegava tarde em casa, cada vez com uma desculpa diferente. No começo, ela até pensou que fosse uma amante, mas não existiam evidências como marcas de batom ou perfumes desconhecidos. Não obstante, aquele vício dele por programas de TV era qualquer coisa de perturbador.

À véspera do casamento, ela foi deitar com alguma dor de cabeça. Ele sucumbiu ao vício, ainda que ninguém jamais consiga explicar o que aconteceu. Foi como mágica. O corpo físico sumiu e ele entrou no cubo mágico ao qual chamamos televisão. E todos os dias posteriores ele ficou preso ao aparelho televisivo, alternando participações em novelas, invadindo telejornais, desafiando a lógica de uma história sem moral ou final feliz.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 18/03/2010.

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