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Manhã de outono às margens da Cidade-Ilha. Chegamos quando o sol profundo começa a submergir com seus raios soberanos, típicos alicerces de um Astro Rei. Súditos que somos, despertamos mesmo que a natureza nos faça dormir de olhos abertos, vigilantes dos oceanos, fiscais de águas e mares.

Eu e minha esposa Mera sempre preferimos ficar ao sul. “As águas são mais quentes, Arthur”, Mera me lembra toda vez que planejo uma viagem. Não que eu seja avesso ao calor, mas há momentos nos quais surge uma vontade de conhecer outras paragens, outras praias, novos litorais. Assim, consigo levá-la comigo em algumas aventuras pelo mundo.

A cada retorno, porém, a paisagem desta Ilha-Cidade está diferente. Aqui do mar, temos uma visão privilegiada do mal chamado progresso humano. Neste outono, identificamos novas estruturas feitas com areia, água e mais um ou dois elementos. Mera não entende essa capacidade que as pessoas têm de transformar um local praticamente verde em floresta petrificada, acinzentando o cotidiano como num dia de chuva sem sol.

Sabemos que a vida sob ou sobre o mar segue um ritmo próprio, bastante divergente daquele em terra firme. Mas, se pensarmos bem, toda vida acompanha a cadência deste Planeta que navega no vácuo da Galáxia. Mesmo que as espécies sejam distintas, a origem é uma só e daí que não é fácil consentir que uns poucos bilhões de habitantes (poucos, se pensarmos em toda a vida marinha ou mesmo de organismos praticamente invisíveis) interfiram de forma tão devastadora nas paisagens mais belas jamais vistas, como é o caso desta Cidade-Ilha a qual escolhemos como lar.

Devo admitir que não é muito diferente em todos os continentes, arquipélagos ou ilhas que já visitamos. A preservação é deixada de lado, e a história insiste em se repetir mesmo que à nossa revelia. Porque Mera e eu somos os peixes mais velhos do mundo e não gostaríamos de ver esta querida Ilha terminar seus dias de forma mais sombria que o mais profundo dos mares.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 22/04/2010.

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