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Navegava, sem remos, à toa, pela Internet. Ora, eis que me surge a rede mundial de computadores. Sozinha, abandonada entre milhões de internautas que navegam pela madrugada. A madrugada virtual é um caminho de tijolos sem cor. Mas poderiam ser amarelos, como aqueles da Dorothy. Ou seriam da Alice? O sono, por vezes, faz-me perder os sentidos. Voltei às horas, vim do relógio e… Tocou o celular. Não atendi. Não atendo as ligações que não reconheço o número no meu identificador de chamadas! Como foi bom terem inventado o identificador de chamadas!

Quando liguei o computador, nada disso me importava! Importava-me apenas a repetição das palavras, ou a desordem que posso causar previamente num texto sem contexto. Tal qual uma poesia que não serve para nada. E ainda sim, continuo escrevendo porque existo. E olha que já faz meses que não converso com ninguém do mundo de verdade. Entretanto, toda essa confusão, desconexão frasal, deve ter um objetivo. Preencher ou encher? Produção industrializada da cultura já frágil? Alguns objetos são cortantes. Outros não. A Internet é cortante. Corta as relações. Diminui as provocações, provoca a vida!

Lá fora, ainda existe a Ilha, dormitório de uns loucos e poucos, sanatório onde pensam que nós somos os doidivanas. E, no final dos contos, todos estamos presos em algum lugar. Este planeta é o nosso último recurso. O penúltimo é a imaginação. E continuamos todos plugados, conectados aos quatro cantos de um mundo sem cantos. Até o canto dos pássaros pode ser digitalizado na China e reproduzido em Cuba. E isto que existe o bloqueio contra o camarada Fidel. Camarada? Alguém deve ser amigo dele…

Perdi muitos textos, roubei muitos contextos. Mas não vem ao caso, nem ao ocaso. Afinal, estou conectado. E quem se importa comigo? Mas qual! Este conto não é do meu estilo! Estas palavras talvez não sejam realmente minhas! Quisera eu ter apenas as principais respostas, ou as essenciais perguntas. Quanta gente está conectada como eu!

Este mundo é estranho, mas estranho mesmo é escrever um conto que não é meu, tampouco é do meu estilo fazer isso, não fosse esta uma despedida. Ou, em outras palavras – idioma: Adieu.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 06/05/2010.

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