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Revendo fotos e pinturas bastante antigas da Ilha, fica-nos alguma sensação de miudeza magnânima, ou de uma humildade pródiga que parecia estar presente no cotidiano de toda a população. Claro que não podemos nos esquecer dos excluídos, de ontem e de hoje, mas as imagens de antes estão impregnadas de alguma nostalgia democrática que, a bem dizer, deve ser constante em quase todas as cidades ocidentais.

Quando o mar se avizinhava do centro da cidade, havia aqueles que lhe acenavam com seus chapéus, quase reverenciando o vaivém inabalável das ondas. E coisa que sempre questiono é a ausência abundante de chapéus em nossas cidades contemporâneas. No lugar das charmosas abas, temos gorros e toucas estrombólicos, coisa de juventude, mas ainda assim sem qualquer garbo, como o que tinha a Greta.

A sobriedade daquela época passada, enaltecida pelo preto e branco das fotografias, fazia do outono e do inverno as estações mais apropriadas para a contemplação afetiva. O sabor do ócio criativo estava ainda mais associado ao gelado Vento Sul; vento este que, felizmente, foi um dos poucos sobreviventes que permaneceram para contar uma parte da história. Sim, a natureza sempre tem muito mais a dizer do que os homens, porque os ciclos naturais são sobremaneira longos e fortes, a começar pela nossa centenária figueira no eixo da urbe, a “cidadã” mais antiga desta cidade.

Se o Mercado Público começou com somente uma ala, o mesmo se pode dizer de toda a Ilha, munida apenas de miudezas que foram adquirindo graus de complexidade com o passar as estações. A segunda ala do Mercado é um pequeno aterro, coisa que se tornou característica na cidade à revelia das pessoas sãs. Assim, não por acaso, as ditas “paradisíacas” praias da cidade se transformaram em atrativos naturais para turistas esporádicos ou permanentes: o centro ganhou (ou perdeu) status de shopping ao ar livre. E só o que se faz nessa região é comprar, e depois de compras, comer um lanche ou encontrar os amigos para tomar um chopp e relembrar como eram bons os passeios na Ilha de ontem.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 03/06/2010.

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