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Contam as más línguas que uma senhora nascida nos Estados Unidos, no afã de secar seu gato de estimação, colocou-o dentro do aparelho de microondas. O resultado nem é preciso comentar, mas a tal senhora acabou por entrar na justiça contra a fabricante do microondas pois o manual do usuário nada dizia sobre a colocação ou não de um animal dentro do aparelho. Tal sugestão jurídica nos leva a ter ideias várias, as quais podem ser miradas em pessoas, empresas, governos ou qualquer coisa que se mexa, tanto no sentido físico quanto no figurado.

Sentado à praia, no calor escaldante do verão, o Senhor Fulano de Tal resolve dar um mergulho quando sente algo grudar na sola do seu pé. O óleo derramado por algum navio petrolífero causa-lhe transtornos variados, como sujar o carpete do automóvel alugado. Assim, munido de seu conhecimento no ramo da advocacia, resolve processar uma gigante do ramo de petróleo que estragou as suas férias no Caribe.

Na volta para casa em algum país da América Latina, o Senhor Fulano de Tal caminha tranquilamente nos arredores do seu condomínio de luxo, quando uma obra pública (do Município, Estado ou Federação, tanto faz) mal sinalizada provoca-lhe uma queda dolorosa. Mesmo com a perna engessada, o advogado entra com uma ação na justiça e, dizem os entendidos, suas chances de ganhar são bastante grandes.

Independentemente das vantagens conquistadas pelo Senhor Fulano de Tal no tribunal, essa esfera perniciosa da justiça, que é tão cega quanto o amor, inibe as boas relações entre as pessoas. Daí que a expressão popular “é conversando que a gente se entende” já não traz à mente boas recordações ou, melhor dizendo, não traz recordação alguma. Processar pode até parecer um caminho útil, mas nem sempre virá acompanhado de uma satisfação social. Podemos, sim, questionar os problemas do cotidiano sem almejar apenas o lucro pessoal. Vamos instigar os outros com questionamentos eloquentes, daqueles que gritam pela mudança do status quo ou aqueles que, pelo menos, fazem um quiproquó digno de qualquer Fulano de Tal.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 12/08/2010.

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