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Um helicóptero sobrevoa a Ilha de noite. De dentro do carro que vem do sul da cidade, ele sente alguma inveja de quem vê sua Florianópolis do alto. As imagens noturnas, vazias e vadias, estão também refletidas no vidro do único carro que atravessa suas ruas. É o jazz que embala aquela viagem a esmo na noite alva que brilha em watts.

O motorista dirige o veículo sem ter por onde. Seus pensamentos estão noutro lugar, noutra pessoa. Um papel escrito a mão, então, é amassado quando ele o aperta com força contra a direção. Quando pisa no pedal sem piedade, o carro acelera com destino incerto.

“Era uma noite maravilhosa, dessas que só parecem existir quando ainda somos jovens. O encontro foi num daqueles restaurantes do sul que servem ostras e coquetéis embriagantes. Eu já estava sentado à mesa quando ela chegou charmosa. Seu perfume parecia até uma substância ilícita, e me entorpeci. Era o mesmo aroma todas as vezes em que me sentia feliz. Se as estrelas caíssem enlouquecidas sobre nós como meteoritos furiosos, ainda assim, sobraria todo aquele amor”.

As anotações, agora amassadas, esboçavam uma alegria inapropriada porque sugerem uma tragédia anunciada, qual filme romântico que começa nas nuvens chuvosas das cenas úmidas de paixão e termina nos olhos chorosos de que perde o grande amor.

O carro, agora perseguido por uma viatura policial pelo excesso de velocidade, irrompe o interior opressivo do túnel que leva às pontes. O helicóptero, antes ajudando a vigilância noturna, aponta um foco de luz branca sobre o veículo em fuga.

Quando conseguiu despistar a luz aérea, já estava nas ruas históricas e apertadas daquele centro que um dia fora de uma cidade pacata e perdida no meio do mar. Subiu e desceu algumas ruas e, ainda perseguido pela viatura policial, jogou o carro nas águas da Baía Norte. E, do paraíso de horas atrás, quando a mulher ainda não lhe confessara que não mais o amava, até o inferno em que agora se encontrava, quando cruzara a cidade do sul ao norte, pôde sentir a água gelada a lhe cobrir as demais sensações.

Ainda molhado, acordou no dia seguinte sentado sob uma janela florida. E algumas pétalas deflores caíram sobre sua cabeça quando uma menina apoiada na janela brincava debem-me-quer / mal-me-quer.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 09/09/2010.

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